terça-feira, 29 de novembro de 2022

Rápida e curta, sem ser grossa

 Por Ronaldo Faria

Para o Jessé Gomes da Silva Filho (vulgo Zeca Pagodinho)

Pés no chão. Cadê as mãos? Por onde andará a fita azul de Nossa Senhora que largou do braço depois de sete dias? Está acima de mim, junto com um macaco de coco e um pedaço de cana que serve para sorver a cachaça de raiz. Aqui, sob o cheiro do maracujá com a pinga Abaína que era para o Maneco - mas eu não resisti (me perdoe). Aqui, com o início da noite batendo na brisa da cidade do interior, fica ao menos a saudade implícita na visão de um samba carioca com seu mestre de Xerém. Amém...

Sobe o morro e desce correndo, feito passeio desbragado de versos e gestos largos e prestos numa folha em branco, vendo ancas e seios. Sobe como pássaro esquálido que se debate de árvore em árvore após nuvem sobre nuvem e se deixa abater no primeiro poste torto. Desce feito chuva abrupta que molha corpos e olhos a pingar feito palavras na tela que brilha bits e bytes. Esbarra em postes e luzes estroboscópicas por cada néon que chama ao amor. E faz-se performática. Ao mesmo tempo, estática, como cenário e palco no meio do asfalto. Tudo entre bordéis e hotéis de baixa permanência. Porque o amor é isso: um ser impertinente que chega, contamina e sai para vadiar. Tudo na alta rotatividade de uma cidade que se esconde entre prédios cheios de gente e tédios pessoais.

Sobe, morre e desce menino insano e criativo. Coisa de morador do subúrbio, nascido na Zona Norte e crescido entre ruas de casas acanhadas e árvores em flor. Com direito a estátua de cães e praça para brincar nas manhãs de luzes, céu a torrar. Com clube de vermelho, porque o vermelho mete medo e impõe respeito (no futuro, chegou o preto para rimar). O que faltou então? Cadê os peitos acariciados na Central do Brasil, depois dos trilhos, com a índia de cabelos negros feito as noites de carícias íntimas e tempo fugaz? Cadê os tambores de macumba, com santos de esquina e entregas na mata, velas para Exu e batismos mil?

Sobe o morro e brinca de pipa, embica pelas esquinas tortuosas e íngremes e desce de carrinho de  rolimã pelas plagas esquecidas do passado furtivo e fugidio. Coisa de roda de samba a bambear de lá para cá e de cá para lá, entre batuques, vozes e o que mais e puder dar. Feito rodada de cerveja sobre a mesa, copos a dedilhar mãos sublimes que se entregam à alegria de estar por aqui, nesta brincadeira que é tentar, a cada dia, vencer a dor. Que o asfalto quente se misture ao cheiro de mar, brinquedos da paixão e saliva do tesão, na sensação mágica e trágica da paixão. Que o universo, aberto entre a cama e o teto, cercado de quatro paredes pintadas de branco âmbar, não termine nunca porque futuras gerações, em gestações múltiplas e ímpares, únicas, aprenderão que não podem perder a magia que é viver...
 
“Me encontrem em qualquer botequim por aí.”
(Zeca Pagodinho)

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