terça-feira, 28 de março de 2023

Equanimidade nos sons de fevereiro

 Por Ronaldo Faria

 

Equânime sentimento que lateja e pulsa, transpassa e repassa momentos e vidas. Que nos chama de volta como chama que nunca se acabou. Que fazer?

 Trêmulo, o homem segue em seus pesadelos e sonhos noturnos e soturnos a brincar de ilusão e tesão, como canções que envolvem o tempo que se perde no vento que corre as ruas num revolver como tantos luares tropicais. Em respeito aos peitos que surgem e ressurgem, o desequilibrado anda sobre uma faca cheia de navalhas e novas prosopopeias. Serpenteia nas teias de um simulacro onde o acaso e o ocaso se fazem transversos como versos perdidos e ardidos em qualquer tela de computador. Com uma puta dor a invadir o quadrado em que cada sílaba se faz frase qualquer, o monossilábico ser se expande em exangue sangue que teima em circular e ficar no mesmo lugar. A vagar faz-se impropérios e deletérios sofismas que nem ele mesmo saberá. Na voz de Belchior, a voz que vem entre o melhor e o pior. Vontade de retomar o mar do que já se foi, ser foz de si mesmo, recriar noites, sexos feitos e refeitos, dúvidas, dívidas com a felicidade e algo nunca mais.

Incrédulo, o homem vaticina a sina a vir. Far-se-á ou não antônimo e pronome de si mesmo? Buscará outra vez o limite entre o reflexo e o plexo que morrem a cada ensejo ou sorverá cada gota de quase nada que cai feito solidão e sensação fugaz? No lado de fora, onde os olhos mal conseguem ver, o mundo se faz e refaz, vaticina futuros e passados, longe do presente que não pressente o trópico perdido há décadas decaídas em desfaçatez. Amanhã, bem provável e talvez, haverá um hiato entre a lucidez e o novo dia. Diásporas chegarão. Um chão entreaberto se abrirá a cada passo. Voltar a pouca lucidez e irá demorar, desmoronar horas, principiar e findar tormentas mil nos navios que eu sei nunca aportarão. As portas, decerto, estarão entreabertas, entrepostas como celeumas que vivem no nosso porão. Serão, logo, um entrave e o reminiscente morrer de quem ainda aprende a viver.

 (Ao Belchior)

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