terça-feira, 17 de março de 2026

Parece que foi lenda

 Por Ronaldo Faria

 

O aguaceiro despenca feito banana madura em penca no sol. A cair de nuvens carregadas de água, lava até os descarregos que os santos de esquina esqueceram de levar. E lava carros, asfaltos, telhas, corpos desavisados, roupas no varal, árvores despetaladas, beiras de rios e solidões. Refaz nuances de cores que o sol esqueceu de trazer e traga de prazer o trago que as bocas em taças de vinho embriagam o momento em desalento.
O aguaceiro, faceiro a São Pedro, escorre nos poucos bueiros que as folhas mortas não entupiram. Constipado, um velho já não lembra sequer se o prego ao relento está molhado ou ao vento. A paisagem cinza e encoberta de nuvens só parece clara entre as cobertas que envolvem João e Maria. Aos dois, na mais doidivanas realidade, o que respinga na janela é só procela. Qualquer mistério que possa existir se extingue a voar.
O aguaceiro que parece aquarela de pintor daltônico, atônito em não saber diferenciar mar de mata ou luar, acende lamparinas nas raras estrelas que resolvem furar o dilema do porvir. Entre ir e vir, visionários ressonam nos ônibus que jogam águas das poças em transeuntes perplexos com a falta do guarda-chuva salvador e estão a sonhar com o tanto que a chuva logo mais irá desaguar no mar. Talvez, mais tarde surja um efêmero luar.
Mas, abruptamente, como descer da cortina no teatro do tempo, o aguaceiro se faz quase unguento da vida. Precavida, porém, Dona Hemengarda desce pelas escadas dos onze andares do prédio. “Chega de ficar presa no elevador”, diz a si mesma. Na rua, onde as luzes rebrilham poças como pisca-pisca de Natal, já há até quem tente correr de uma marquise a outra, nos 50 metros dignos de recordes. Do alto, altaneiro e com seu dever cumprido, São Pedro resolve ir dormir, não sem antes clamar ao anjo aspone que o segue: “Fecha essa bosta de torneira. Deus está puto com a conta d’água”. Logo abaixo o povo agradece ao meteorologista que previu chuvas finas no período. Lavada, a vida ressurge do nada.
 
(Com Arthur Verocai)

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