quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Astor Piazzolla, sempre

 Por Ronaldo Faria

Sonhos premidos de versos e reversos, a se entregarem num solilóquio soturno que há entre a morte e a sorte embriagada e vadia. Sortilégio do adeus a um avô que se perdeu nas águas de um rio que enche e se vê seco como o copo que desce às gargantas do dia. No meio de tudo, sertão de pedras que viram seixos ao andor de correntes desiguais.

Cadafalsos que se abrem abruptos no limite entre a sanidade a loucura, como um desertor do crer em sua agrura. À frente, o deserto se descortina em casais que bailam nas valsas atonais do rever. Passos que se perpassam entre nuances de olhares e calcinados trajetos que não se dão aos mares. No bandoneon, bando de notas a devorarem a dor.

-- Vai Astor, como astro que se perpetua numa constelação toda negra e nua. Onde notas e acordes acordam para o sol que se entrega aos lençóis brancos da lua para amar o outro lado da terral o outro lado da lua. Nesse caminho de rodar à eternidade, que fiquem tontos o passado, o amor e a saudade. E caiam moribundos numa esquina qualquer, ao longe, onde estará a casa que sobrevive à realidade. No meio de tudo valerá qualquer verdade.

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