quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Azeviche

Por Edmilson Siqueira 

Azeviche? Um trio de violão, percussão e contrabaixo? Pois é, há 15 anos eu recebi um disco desse grupo, formado na noite de Campinas. Não era mais o primeiro com esse nome, havia passado por algumas formações anteriores, radicais até, e parece que havia encontrado ali, no talento dos três instrumentistas, um campo fértil e de uma beleza ímpar pela frente.  


Quem frequentava a saudosa Estação Santa Fé já conhecia a turminha: o violonista Bruno Mangueira – bacharel e mestre em música pela Unicamp –, o contrabaixista Marcos Souza – autodidata e com uma longa carreira ao lado de grandes músicos – e o percussionista Magrão – também autodidata e que já andou pelo mundo com seu talento. Eles viviam tocando por lá, tanto na formação do Azeviche como compondo outras bandas, já que a casa, desde sua inauguração, mantinha música ao vivo da melhor qualidade. Aliás, muitos grupos foram formados justamente ali, para tocar na Estação e depois se aventuraram pela noite afora.  


A junção desses três resultou num som intimista e sem medo de enveredar por temas mais populares aos quais empresta o ótimo sabor de belos arranjos, renovando o prazer de se ouvir temas como "Quem Te Viu, Quem Te Vê" (Chico Buarque), ou "A Ilha de Lia, no Barco de Rosa" (Edu Lobo/Chico Buarque) ou ainda o bolerão "Contigo en la Distancia" (Cesar Pontillo de la Luz). Até o difícil Lupicínio Rodrigues de "Cadeira Vazia" (imortalizada na voz de Elis Regina) ganha espaço na seção de clássicos, bem como a eterna "As Rosa Não Falam" (Cartola). Em todas elas, e também nas outras sete faixas do CD, o que se ouve é um som límpido, suave e criativo. 

E, ciente do talento, o grupo ousou colocar ao lado de composições consagradas de grandes mestres da MPB, nada menos que quatro trabalhos próprios: três de Bruno - "Relax Song", "Porto Alegre" e "Ano Novo" – e uma de Magrão – "Rumba Viva". O resultado final não muda, as músicas são boas e mostravam que o Azeviche estava no caminho certo.  


Era, na ocasião, mais um grupo que confirmava a enorme qualidade dos músicos que viviam (e vivem) em Campinas e eternizam seu trabalho em discos que podem ser tocados em qualquer rádio que prefira acariciar os ouvidos dos ouvintes. Ele esteve na ativa de 2006 a 2008 e esse foi o único disco gravado pelo trio, o que é uma pena.  


Acho que até cabe destacar que este e outros ótimos trabalhos de artistas campineiros que circulam desde o início deste século, tiveram a essencial ajuda de um tal de Fundo de Investimentos Culturais de Campinas. Sim, um fundo da Prefeitura, do tempo em que a cultura musical da cidade ainda tinha algum valor para os dirigentes municipais.  


O CD está à venda no Mercado Livre e também disponível nas plataformas digitais. 

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