quarta-feira, 28 de setembro de 2022

No estertor da orquestra

 Por Ronaldo Faria

Melancolia antropofágica em cacófago. Sem saber se é ou se será. Comiserada de si mesma. Envolta em tragédias, falácias e palavras que ninguém entende ou lê. Como um carro que roda sem relê. Falácias entremeadas de sílabas e notas, todas dissonantes e caladas. Calcinadas de si mesmas. Benfazejas e encruadas dentro do peito. Como sonetos ou sonatas. Sob a batuta do maestro que rege o ensejo diverso. Ao autor, resta o verso. Um relembrar de mãos juntas e untadas de viver. Tristezas assassinadas pelo prazer. Pés que subiam o cadafalso como fossem à igreja rezar. À que Deus? Esse nem precisava estar. Quietos e senhores de si, em todos, desnudos e rotos, bastavam calar. Línguas em perfídias, passagens de mudar de lugar. Aos desejos, o largar. Um lagar infinitamente só. De fundo, um piano transforma suas teclas em valsas diversas. Há corpos que se transmutam corpóreos para o infinito tão perto do fim que parecem anjos ou querubins. Nas vestes, cetins que se jogam ao chão desnudos do que se for, por fim. Centelhas de mil azuis a cantarolarem a despedida finita e crível em cruz. No sorriso final, a certeza de que existe o mal. De bom, o bem que vai e volta, traz luxúria e revolta, se aconchega de bem-querer. No frio da certeza, a madrugada em açoite. A incerteza certa de que o amor nunca há de morrer. Na nota que vence os ouvidos trôpegos e torpes, a rítmica e sombria realidade da noite. Os carros que se arrastam sem saber aonde chegar, as chagas untadas de além-mar. Nos poros que secam ao degredo do tempo, unge de frescor o vento. A dissonante chegada dos minutos que se foram como aforismos da canção. No momento, o sentimento se embriaga de ilusão. Pensamentos como unguentos que nunca se irão passar. Agora, esbaforido de tanto correr e tentar, o poeta se aconchega em sopas de letras e rimas só para tentar rimar. À toda ilusão, cabe o vil sonhar.

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