terça-feira, 4 de julho de 2023

Paulo Freire e São Gonçalo

 Por Ronaldo Faria

 


Com a lua cheia no céu, seara qualquer, num canto recôndito São Gonçalo faz abençoar o violeiro que dedilha sua música e seu cantar. Num lugar onde o lagar e só o largar da pinga goela a dentro, adentro a vida como fosse fermento a ver o bolo sovar. Como fosse um ébrio que se desgarra da reta e cai, soberbo, num meio fio que apenas frio tem. Tênue, o homem busca o hímen notívago que não existe e persiste solitário riste e firme. Como um marujo perdido no derradeiro cais do porto. Talvez um atávico ser que tenta apenas, a duras penas, sobreviver com altivez. Senão, um inócuo binóculo que apenas enxerga entre lentes, vidros e frigidez.

Mas a lua cheia que se esgueira no céu escuro se faz calada, sob uma árvore caiada e quase caída, de branco, sombreia a luz que o luar irreal derrama na terra onde brota o impassível amor. Em flor, as plantas transplantadas em fulgor se espalham no chão que espelha o rosto da moça mais fagueira que a figueira centenária viu. Como um socó que dorme e ressona na copa esverdeada, o sonhador olha para o céu e vê pequenos pontos de luz, clarões esparsos e dispersos como disparos de um bacamarte qualquer. Não muito ao longe, o rosto avistado da mulher. Lívida, quieta, faz-se presta ao violeiro que anuncia o amor altaneiro, primaz e primeiro.

Contudo, creiam, a lua de São Gonçalo haverá de reaver a fé na infinda e benfazeja crença do novo alvorecer. Quem sabe não existirá um louco a gritar nalgum lugar feito profeta de um esteta a voar e revoar seus incertos incestos entre a poesia e o jogral que desvanecem na voz do imberbe que crê no mero flerte. Na praça onde o coreto deixa a banda tocar, um bêbado lança seu olhar além-mar, mesmo que as ondas batam somente milhões de pés após. E pensa o escrevinhador: “caberá apostrofe só para rimar?” No dedilhar da viola, formosa moda se faz em corda. E lá onde o mundo se acaba a festa e se refastela de crenças, descrenças, inhambu chitão e xororó.

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