quinta-feira, 6 de março de 2025

O poeta profeta

 Por Ronaldo Faria

 


O poeta, profeta enfático e tácito de si, clama pelo coração vagabundo. No fundo, das profundezas onde as torpezas envolvem a certeza de ser a própria presa, há somente a mente que mente a si mesma de ser feliz enfim. No equinócio do princípio ínfimo que a finitude dá, eufórico prazer, a clareza de que a claridade dos faróis nada trará. Na voz da vida, entreouvida nas vozes que o som traz e agita, a agonia do desejo no ensejo de outro dia, qualquer que venha a ser ou seja, bocas e brumas de beira-mar.
O poeta, patético e feérico, frágil ser a caminhar nas estradas do que há por vir no próximo porvir, se volatiliza na palavra que o imaginário faz de extraordinário imprevisível e atávico. Nas rimas arrítmicas e lúdicas, em seus subterfúgios fugidios e trágicos, a prolixa asfixia que mata a poesia a cada dia. Talvez um resto de apoplexia, pedaço de vírgula malfadada, ignóbil maestria de viver na plena morte vazia. À sorte, nostalgia. Semente que cai num vaso qualquer e faz surgir a planta que cresce mais a cada dia.
O poeta, apóstata e profeta, estafeta que não consegue entregar a própria encomenda que nunca chegará, passeia em passos homéricos no tênis que, rasgado, sentencia que nem tudo é profilaxia, diamante ou jasmim. A enxergar o glamour que não existe e nem vem, segue horas e minutos, segundos argutos e plurais, a saber que portos no interior não aportam navios. Se muito, evocam odes plenas de frases com cheiro de alfazema, dessas que rasgam o primeiro amor nos beijos que os lábios transgridem em ser.
O poeta, clausula pétrea que a clausura da amarga servidão dá, sabe apenas que não há de ter pena em viver. Sonhar, talvez... Esperar, quem dera... Ter, ao Deus dará. Nas esquinas escondidas e lívidas, mágicas e maestrinas da insofismável sina, o rumo que outro prumo traz. Mas, em golfadas da nova realidade, diferente desse mundo, no cataclismo que o desconhecido traz, far-se-ia melhor ou igual? Entre perguntas, dúvidas e dívidas consigo mesmo, ele dedilha e encilha a fera que habita em si.
 
(Com Caetano e Gil)

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