quinta-feira, 29 de maio de 2025

Procrastinação

Por Ronaldo Faria



Perácio procrastina o prefácio da festa inexistente que ainda resta. Sabe que o casamento, em lamento, há muito foi para o saco e só espera o lixeiro passar para buscar. Mal sabe onde catar papelões e engradados para colocar os fardos que o acompanham há décadas. Nas peripécias e inércias que a vida dá, faz e apraz, não adianta ser loquaz. Se muito, irá correr os metros finais que a idade traz.
Juventina, eterna menina que não faz a mínima menção de querer viver a vida do outro e vive a pisar em nuvens que são apenas reflexos do medo de saber que o fim chegará por fim, pede a si para ter razão. No coreto, um minueto varre o som silencioso do lugar. Cioso, o maestro rege a banda infanta na busca de alegrar o sumir do sol que antecipa um luar cheio de luz e prata ao seu ficar.
Ambos, Perácio e Juventina, Perá e Tina, nas suas surdas rotinas há muito não têm a sudorese que emana dos corpos a se entranharem num roçar e se estranharem tão juntos no efêmero postergar. Para eles, o toque na pele, o respirar que exala do vilipêndio pleno que nenhum compêndio traz, parece fugidio e ineficaz. Tudo na rotina de uma tina que, furada, nunca mais se enche de água, a vida liquefaz.
A sonhar envolto na brisa que sai de cigarros verdes e sedas, incongruentes catarros e escarros, o homem sentado diante do morro que vê as ondas baterem num repetir assimétrico e assintomático contra as rochas, ri da cena. Ele sabe que o bode e a larica que virão depois são blasfêmias que as fêmeas da sua imaginação irão parir como sentenças em si. De pouco adiantará brilhar ou estar. O jeito é rezar...
Na avenida, na premeditada ermida que a ilusão teima em manter viva, casais e famílias, filhos e filhas, afilhadas e até as mais solteironas frígidas, afilhados e kamikazes de seus trágicos poemas findos, todos se juntarão na canção para levitar. Irão além dos corpos, como tortos e voláteis, voluptuosos e anchos achados, para local qualquer. No reencontro consigo mesmos, nos ermos vazios do silêncio e da ausência, far-se-ão tesão solitário. Do alto do prédio de onde se antevê a tevê ligada no programa que busca a fama, um casal irreal despoja suas vestes para vestir de madrugada a noite virginal. Nos créditos que sobem na tela, a bucólica e angelical promessa...
 
(Sob a inspiração e o som de Silvério Pontes)

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