terça-feira, 12 de maio de 2026

Ho, Ho, Ho...

 Por Ronaldo Faria


Vantuil estava gordo além da conta. Milhares de copos de cerveja e centenas de tira-gostos em excesso lhe tinham dado a forma de um Papai Noel de bordel. Barbado, com olheiras dantescas e bafo de leão, não tinha muito a fazer. Desempregado há um ano e dois avos, não tinha muito que fazer na vida a não ser sentar num banco de praça e esperar o tempo passar.
-- E aí, Vantuil, tudo bem?
A pergunta de Jacinto lhe pareceu blasfêmia ou sacanagem de véspera natalina.
-- Puta que pariu, Jaça. Você só pode estar de sacanagem logo de manhã.
-- Cacete, desculpa. Achei que tinha rolado algo pra você.
-- Só se for algo pra papa-defunto. E, no caso, eu no caixão .
-- Caramba, você quer um trampo numa comunidade aqui perto? O dono do lugar quer fazer uma festa pra garotada e não tem ninguém no grupo dele que seja gordo. Quer dizer, com a sua silhueta.
-- Porra, pode chamar de gordo mesmo. Tenho um espelho no barraco. E quanto ele paga?
-- Tão falando em milão. Se quiser, eu te levo lá.
-- Já é...
No ônibus de subúrbio falaram do passado, das estripulias de infância, da alegria da adolescência nas fugidas da escola para jogar bola ou soltar pipa, roubar goiabas da casa do Seu Crimaldo. Dos primeiros porres, do cigarro do bom e do careta, das corridas atrás do primeiro emprego e dos homi. Mas, nesse passado, num dado momento passado, Jacinto conseguiu emprego numa siderúrgica e cresceu no trampo. Vantuil, porém, tentou a vida nos dados e no baralho, noutros trampos sem relógio de ponto ou coisas mil. Não deu certo em nenhum deles. Agora, quem sabe que o Papai Noel não lhe traria por fim um presente bom. Desceram no ponto diante da entrada da comunidade e dois seguranças do lugar com AR-15 nas mãos os receberam.
-- Qual foi? Que vocês querem?
-- Caralho, manos. Sou eu, o Jaça Bagrão. Vim trazer um candidato a Papai Noel pro chefe...
-- Esse gordo do caralho aí?
-- Ele.
-- Não sei o patrão vai gostar desse bosta não.
-- Isso quem tem que dizer é o homem. Se não aprovar, ele roda daqui rapidinho.
-- Vão nessa. Mas não esquece: aqui tem olheiro em cada esquina.
-- Valeu, irmão. Na fé!
Devagar na manhã que se esparramava com calor forte, os dois subiram o morro e passaram por mais duas revistas. Lá em cima, a casa do patrão.
-- Grande Tião 38, com a sua licença, meu patrão.
-- Pode chegar. O que te traz aqui?
-- Queria te apresentar o Vantuil, pra ser o teu Papai Noel logo mais.
-- Vantuil? Teus pais tinham raiva de você?
-- Sei não, patrão. É mistura de Vanderléa com Tuílio.
-- Que merda de mistura. Mas, vai lá. Tu é gordo o bastante pra não precisar de enchimento. Já foi Papai Noel?
-- Não, chefia. Mas já fui vendedor de bala em sinal, guardador de carro, camelô na Central do Brasil, vendi rifa de residencial que nunca existiu, fui anotador do jogo do bicho, dei um trampo em reciclagem e me virei com o que deu.
-- Taí, vou te a chance de deixar os moleques e garotinhas daqui felizes. Tu vai distribuir as bolas e bonecas pra eles. Mas, na moral, trata eles com respeito. Se tu der mancada, ao invés de um pacau de barão tu sai daqui de caixão. Ou melhor, já vai pros pneus que é mais barato nem precisa reciclar
-- Chefia, te prometo ser o melhor velhinho dessas crianças.
Tempo logo depois, vestido de Papai Noel, Vantuil sentou no tamborete e, com as sacolas do lado, esperou as crianças chegarem. Aos poucos, com seus passos pequenos, foram chegando meninos e meninas para a festa que o dono do lugar tinha preparado. Som de DJ, fogos de artifício, mesa de doces e o Papai Noel.
-- Papai Noel, eu não queria uma bola. Queria um Playstation.
-- Guri, não fode comigo. O videogame está caro pra cacete. No trenó só cabia bola.
-- Meu bom velhinho, eu queria uma Barbie, não essa boneca de plástico.
-- Filha, Barbie é coisa de gente tonta, de patricinha sem noção. Pega essa e chama de neném...
E tantos pedidos diferentes mais. Tanta coisa que nem o dono do morro poderia dar. Depois de atender centenas de crianças (“como esse povo aqui procria”, pensou), Vantuil pôde parar com a sua nova fase. Estava feliz e cansado. Quem sabe agora rolava ao menos uma cerveja gelada...
-- Gostei de tu. Soube até driblar quem queria mais. Sabe que tu poderia ter feito Tablado ou Oficina. Figurar na Globo. Fui contigo. Como a venda de fim de ano triplicou o faturamento, vai levar três contos. Pra um Natal feliz e um Ano Novo bacana.
Vantuil teve vontade de beijar Tião 38 na boca, mas sabia que se fizesse isso a sua boca ia amanhecer cheia de formiga no dia seguinte. Agradeceu, desejou que nenhuma facção rival ou milícia tomasse conta do morro e disse que a lábia tinha adquirido na labuta das ruas pra driblar tanto pivete chato além da conta. Mas, frisou, teve os bonzinhos também.
-- Jaça, vamos parar no primeiro boteco na saída do morro. Essa noite é por minha conta.
Dito e feito. Pediram a cerveja mais cara e gelada. Porção de torresmo e linguiça. Comemoraram o dia de Natal que seria amanhã e agradeceram ter a bênção do 38. No fim, quando chamaram a conta, o português fez questão de dizer que estava tudo zerado.
-- O homem sabia que vocês podiam cair aqui e mandou liberar.
No céu, um drone de vigilância do patrão geral pareceu ser um trenó sem renas. Mas quem quer saber de rena se ela aqui nem existe. Ano que vem, sonhou Vantuil no barraco quando o Natal amanhecia de verdade, a festa podia se repetir. “Acho que pra ficar perfeito, ainda preciso engordar mais uns 20 quilos.” O personagem que é de mentira tinha virado verdade no Brasil, enfim. Ao menos para Vantuil. “Hoje o resto pode ir pra...”, pensou. E que até lá as balas perdidas esqueçam do dono do morro.
 
(Com Jards Macalé ao fundo)



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