quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

A ouvir Henrique Simonetti 1955 (ou fora do bumbo 4)

 Por Ronaldo Faria


Uma orquestra traz delírios e lírios de dois anos de Zuenir (que na bem-aventurança não é o Ventura) nascer. E o CD, efêmero hoje como o rádio não o era à época, traz um som rodeado de notas que denotam o tempo fugaz. Já se vão quase 70 anos.  Há poucos lampiões a gás, mas esses povoam apenas os rincões cheios de senões e canções que envolverão o menino que daqui a pouco chegará entre choros e consolos do “creia, irá vingar”. Na rua as lotações dividem o lugar com os trilhos do trem e carros barulhentos e lentos. Homens de fraque e chapéu, mulheres de vestidos longos e coloridos, dividem o espaço com o som de Estrela D’Alva. Que lindas pastoras cantarolaram a canção que não sai da lembrança? Na festança que urge fazer as cores da vida desabrocharem, romântico e galante rapaz manda flores para aquela que crê desposará. O leiteiro larga os frascos ainda frescos à porta onde a mãe buscará para o café da manhã com cara de manteiga (margarina ainda espera brilhar integralmente às mesas de um lar). Na venda, a caderneta descansa para o lápis do português anotar o que será cobrado depois. E assim, no fulgor de diásporas e reencontros com a saudade desmedida, travestida de canções e inertes soluções, a vida segue seu rumo. Logo um rebento, arrebentado sabe-se lá de que forma, talvez à revelia da mulher que obedecia os desejos do esposo, brotará no lar, um sobrado assobradado no coração do bairro da zona à norte qualquer, chegará. Daí, e só a partir daí, um novo bumbo fora de compasso tocará até a morte.
-- Minha música, traga a túnica para o meu gim com tônica tomar...
Zuenir cambaleia, mas não titubeia. Muita coisa, acredita, ainda está por vir.

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