terça-feira, 2 de setembro de 2025

Indagações com Itamar Assumpção

 Por Ronaldo Faria



-- Felizardo, você é bacharel em quê?
-- Comunicação.
-- E pra isso precisa ser formado? Não basta estar antenado?
-- Pode ser, nunca havia pensado nisso.
-- Comunicar até o paraíba (não há aqui, como filho de nordestinos, nenhum demérito)  de porta de loja faz.
-- Tem razão. Não tinha pensado nisso. E agora, com a tal de internet, todos são comunicólogos. Ou seja, fiz faculdade nada por nada e me fodi.
 
II
 
-- Carmelo, você é formado em quê?
-- Filosofia.
-- E isso serve hoje pra quê?
-- Para questionar razão, ideologia e até a fumaça de um beck.
-- Mas para se ficar doidão não basta puxar, segurar o máximo e soltar?
-- Mais ou menos. Ou sim. Tem razão. Doidão é meio filosofia...
 
III
 
-- Luzia, luz da minha vida, você é o que na vida?
--  Sexóloga e influencer digital e coisa e tal.
-- Mas para se fazer sexo não basta se querer e pra influenciar não ter que algo dizer?
-- Acho que sim.
-- E sexo não é além da tela? É pele com pele na peleja.  E influência não é fluência na essência daquilo que se faz?
-- Sei lá. Você quer foder com o meu ganha-pão?
-- Não. Só entender.
 
IV
 
-- Gastão, o que você faz da sua vida?
-- Vivo.
-- Só isso: gasta seu tempo assim?
-- Acho que sim. Vivo num ritmo próprio e abstrato. Me trato e me destrato. Nasço e morro hoje e antes. Sou tragicomédia e teatro. Íntegro no corpo que integro e envelhece em intempérie nos pés que ressurgem descalços em tamancos.
-- E os mil solavancos que a realidade dá, como tratar?
-- Nesses eu nem quero poder pensar. Já que não posso mudá-los, que se fodam em fornalhas benfazejas e sonantes. E queimem rápidas em pães sovados e constantes.
 
V
 
-- Kátia, onde você cata as suas premeditadas nuances em tantas vidas tântricas?
-- Nunca pensei. Talvez eu tive medo antecipado por todos meus dias. Empedernidos e vívidos em loucuras vividas e sufocantes. No meio de uma mata claustrofóbica feito manta de samba.
-- Eólica que a vida é, já que se perde em ventos nos invólucros dos solilóquios de cada um de nós, não te basta parar na chuva fina e madrigal que cai nos ínfimos grãos de areia que a onda rola de repente?
-- Para, não vou responder. Um livro que divulguei à mulher que passava já valeu a beleza da vida...
-- Concordo, como amante, poeta e investigador da dor que a saudade nos traz. Afinal, sumir de tudo que se tem no mundo que essa tal de internet criou, tem que ser motivo de virar madrugada no lugar que o Tom fez surgir em consolo.
 
VI
 
Que terno seria ser apenas um pouquinho filho da puta, como diria Itamar Assumpção. Ao menos teria em mim a minha última unção.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um coletânea feita há 54 anos

  Por Edmilson Siqueira Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lança...