Por Ronaldo Faria
A lingerie de Rosangela, que
seria anja se anjas morassem no céu machista, arrebatava os olhos de Felício,
cuja felicidade era a dita moça bonita. Quer dizer, bonita é pouco:
deslumbrante! Deslumbrante? É pouco! Na verdade, não existe como definir em
qualquer dicionário e nem haverá nem com IA. No mundo profundo e performático,
atávico e trágico, o mágico que pudesse a despiria sem pedir. Mas qual, não
deixemos que o universo ao inverso faça versos a ela. Rosangela, na sua
lingerie, seria referência de Picasso, Leonardo da Vinci ou Cobra. Com pincéis
ou sprays, ela é a musa que congela olhares e emoções. E é venerada em ilusões
de conquistas e unções a cinco dedos.
Longe, no seu mundinho dois
por dois metros enquadrados, guardados e lacrados, Mário a via em sonhos e tresloucadas
saudades. Sorria feito bobo e louco, meio tosco e revolto no ar que saía do ventilador
no calor de primavera. À vera, ele pensava que a vida podia ser toque de tecla ou
passe de mágica a margear a saudade e a realidade do agora. No mundo afora, na
sofreguidão do fim, ele absorvia a fria sofreguidão de se ver como corda de
violão que o dono não sabia tocar. Afinal, Rosangela não era um instrumento.
Era orquestra sinfônica de algum instrumento que faltou sob as narinas daquele
maestro destro que não sabia ver além das lentes dos óculos a querer os olhos
da amada absorver.
Mas o importante aqui é falar
da lingerie de Rosangela. Ou melhor, esqueçamos a camisola (pra trazer pro
português) da mulher maravilhosa e ditosa, e nos foquemos no fogo que ela fazia
arder a cada andar. Para não gritar e chorar e mostrar o quanto ela era dona do
pedaço, muito macho aborígene e débil mental até virou LGBTQI+. “Essa o povo pode
glorificar”, diziam todos em coro. Rosangela, deusa
entre as maneiras do tempo e interjeições que voam ao vento, estava além
daquilo que se pode cravar na cabeça do bicho pútrido da esquina. Para
ela não havia sonho ou sonhar. A cada passo seu, que faria novena o mais
radical ateu, surgia eclipse de um sol brilhante na lua a encruar.
Na orgia solitária e catártica
que cada um de nós tem, no trem que sobe e desce ladeiras, morros e montes de
coisas mil viram azul anil diante do céu carregado de nuvens cinzas e
chuvosas aos amantes a querer se encontrar nas praças. Às desgraças que os
jornais trazem ou ao voo das garças que revoam graças às asas brancas e cheias de
penas, apenas correntes de vento revoam em meio às flores do amor da vez. Mas, no
meio de tudo, Rosangela e sua lingerie estão a surfar em gritante começo e fim.
No meio do quadro quadrado e ávido de poder enviesar nos tons que as cores
básicas fazem surgir, Felício na sua felicidade em meio à cidade prostrada de
asfalto e concreto, se faz concerto e feto ao luar. No dia seguinte, sem requinte,
um médico do Samu dirá que ele morreu de amor.
(Com os Garotin de São Gonçalo)

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