quarta-feira, 25 de março de 2026

Parabéns ao Paulinho da Viola

  Por Ronaldo Faria


-- Você viu que o Paulinho da Viola fez 82 anos?
-- Vi. Todos os nossos ídolos estão nessa faixa de idade dos 80.
-- Porra, logo eles irão e, depois, será a nossa vez.
-- Faz parte, faz parte... Nascer, crescer, se foder e morrer.
Jocélio e Jurandir bebericavam e falavam de saudades e paixões. Na beira dos 70, sentados nas cadeiras de plástico diante da mesa de plástico marcada pelo sol, sob a sombra boa de uma mangueira em frutos novos, sonhavam com tempos sem celular, computador ou IA, só fichas amarradas de barbantes nos orelhões, discos de vinil, fitas K7 e rádios de prêmio ao melhor jogador em campo após o clássico que geraldinos sorriam em ver.
-- Claudionor, traz mais uma da dupla: a cerveja gelada e a cachaça de alambique. Hoje vamos romper o dique.
-- Lembra das fichas de ônibus?
-- Claro. Surrupiava muitas delas para transformar em atleta do meu time de botão.
-- Eu colava duas ou três e depois usava uma lixa d’água para deixar pronto em cima e dos lados.
-- Era do caralho. Jogadores pequenos, mas eram bons pra poder aprender a driblar os botões de galalite dos bacanas que tinham grana pra comprar.
-- E lembra dos vidrilhas?
-- Sim, aqueles de vidro de relógio que quebrava. E tinha os de plástico derretido em forma de empada untada com manteiga. Esses eram uma mistura de cor.
-- Goleiros de chumbo derretido ou feitos de sabão de barra dentro de embalagem de pasta de dente Kolynos.
-- Eita tempo bom. Carrinho de rolimã, bola de capotão, pipa com cerol feito com lâmpada velha e colada com arroz.
-- Tevê de fusível e preta e branca.
-- Que a gente usava o fusível, que torcia pra queimar logo, como foguete do Flash Gordon.
-- E os litros de leite nas garrafas deixados na porta da casa?
-- As quitandas com caderneta pra marcar.
-- Crush, Grapette, Mirinda, Gini e Mineirinho...
-- Bala Soft, a assassina. A de café era a melhor...
-- E dropes de anis Dulcora e o chiclete Ping-Pong.
-- Mandiopã. Nossa, esse era imbatível.
-- E o Forte Apache que era o desejo de ganhar de Natal?
-- Junto com o Autorama, que era inacessível a todos os mortais.
-- Calça boca de sino com um corte abaixo em pano de outra cor.
-- E o cabelo comprido?
-- Nossa, era demais.
-- A Charanga do Jaime nos jogos do Mengão.
-- Esperar o telefone fixo dar sinal pra só então poder ligar.
-- E às vezes demorava a dar. Era um sofrimento de dor.
-- A espera doida das cartas, a rapidez de um dia ou no máximo dois dos telegramas.
-- Os bailinhos de melar cueca...
-- Quando se a gente pegava nos peitinhos da menina por cima do sutiã era o auge.
-- O problema era pedir ela em namoro. E o cagaço dela dizer não.
-- E lembra da Zona Sul, onde toda a rapaziada era de cabelo louro?
-- Tudo parafinada.
-- Eu sei. Mas era doído pra nós, da Zona Norte.
-- Podes crer, bicho.
-- Mas que as cocotinhas se amarravam, se amarravam.
-- Tinha umas sebosas que não. Mas eram raridade.
-- Era outra vida.
-- Outra vida...
Meio pasmado, na frente da dupla, Claudionor, um jovem na faixa dos 30, tentava entender sobre o que rolava nas reminiscências.
-- Claudionor, ao invés de ficar aí parado, repete a dose.
-- Lembra dos cursos de datilografia?
-- Claro. Com os caixotes onde as mãos entravam pra gente datilografar sem ver e errar.
-- A prova de admissão pra poder passar do primário para o ginasial.
-- Ou o clássico ou normal.
-- É, tinha isso...
-- No vestibular você podia escolher inglês ou francês como língua estrangeira.
-- E só entrava no primário aos sete anos.
-- Caderno de caligrafia, tabuada e muita lição de casa.
-- E os filmes de 14 anos, que eram o furor da molecada.
-- Caramba, chegar aos 14 era como uma passagem de vida.
-- Até o catecismo do Zéfiro a gente passava a ver.
-- Se bem que, dependendo de quem tinha visto antes, algumas páginas vinham coladas ou amareladas e borradas.
-- Viagem no Tempo, Combate, Zorro, National Kid, Terra de Gigantes, Jornada nas Estrelas, Daniel Boone, Bat Masterson e tantas outras séries.
-- Algumas os pais da gente nem deixavam ver.
-- Pelo horário e porque, diziam, não eram pra nossa idade...
-- Pranchas de isopor.
-- Biscoitos Globo e Mate Leão, claro.
-- Cachorro-quente Geneal.
-- E quando a gente cresceu mais e podia sair, Angu do Gomes.
-- Tirar fotos e torcer pra todas estarem com foco na revelação.
-- O primeiro beijo na primeira amada.
-- Voltar de lotação pra casa.
-- Não sem antes beber uma cuba libre ou um gim com tônica e limão.
-- Pizza com catchup e mostarda.
-- Mas isso tem até hoje.
-- Mas surgiu lá no passado, há 50 anos.
-- É, pode ser verdade.
-- E você lembra do primeiro porre?
-- Sim, com garrafão de vinho vagabundo na inexistente hoje Festa das Nações na Lagoa Rodrigo de Feitas.
-- Cheguei em casa vomitando até a alma e a minha mãe estava no sofá da sala a me esperar e amparar.
-- A minha também.
-- Mãe é tudo igual.
-- Lembra que tinha piquenique no Quitandinha ou na Quinta da Boa Vista?
-- Eram raros, mas tinha.
-- E as visitas ao zoológico e ao museu da Quinta.
-- Foram históricas. E pensar que elas aquelas múmias todas e uma outra caralhada de coisas viraram literalmente cinzas.
-- Eita tempo bom.
-- Mas, meu, você viu que o Paulinho da Viola fez 82 anos?
-- Vi. Agora foi ele. Logo será a gente.
-- Espero. É só o que eu espero...
-- Claudionor, repete a pedida e traz a dolorosa enquanto a gente sabe dividir o básico.
No derredor, sem dó, as horas mostram que o prenúncio de eternidade perdeu mais algumas horas. Jocélio e Jurandir estão um pouco mais velhos. Ou como diz o poeta, “quando eu penso no futuro não esqueço do passado”.
 
(A ouvir, claro, Paulinho da Viola)

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Parabéns ao Paulinho da Viola

   Por Ronaldo Faria -- Você viu que o Paulinho da Viola fez 82 anos? -- Vi. Todos os nossos ídolos estão nessa faixa de idade dos 80. -- ...