Por Ronaldo Faria
-- Você viu que o Paulinho da
Viola fez 82 anos?
-- Vi. Todos os nossos ídolos
estão nessa faixa de idade dos 80.
-- Porra, logo eles irão e,
depois, será a nossa vez.
-- Faz parte, faz parte...
Nascer, crescer, se foder e morrer.
Jocélio e Jurandir bebericavam
e falavam de saudades e paixões. Na beira dos 70, sentados nas cadeiras de plástico
diante da mesa de plástico marcada pelo sol, sob a sombra boa de uma mangueira
em frutos novos, sonhavam com tempos sem celular, computador ou IA, só fichas
amarradas de barbantes nos orelhões, discos de vinil, fitas K7 e rádios de prêmio
ao melhor jogador em campo após o clássico que geraldinos sorriam em ver.
-- Claudionor, traz mais uma
da dupla: a cerveja gelada e a cachaça de alambique. Hoje vamos romper o dique.
-- Lembra das fichas de
ônibus?
-- Claro. Surrupiava muitas
delas para transformar em atleta do meu time de botão.
-- Eu colava duas ou três e depois
usava uma lixa d’água para deixar pronto em cima e dos lados.
-- Era do caralho. Jogadores pequenos,
mas eram bons pra poder aprender a driblar os botões de galalite dos bacanas
que tinham grana pra comprar.
-- E lembra dos vidrilhas?
-- Sim, aqueles de vidro de
relógio que quebrava. E tinha os de plástico derretido em forma de empada
untada com manteiga. Esses eram uma mistura de cor.
-- Goleiros de chumbo derretido
ou feitos de sabão de barra dentro de embalagem de pasta de dente Kolynos.
-- Eita tempo bom. Carrinho de
rolimã, bola de capotão, pipa com cerol feito com lâmpada velha e colada com
arroz.
-- Tevê de fusível e preta e
branca.
-- Que a gente usava o fusível,
que torcia pra queimar logo, como foguete do Flash Gordon.
-- E os litros de leite nas
garrafas deixados na porta da casa?
-- As quitandas com caderneta
pra marcar.
-- Crush, Grapette, Mirinda,
Gini e Mineirinho...
-- Bala Soft, a assassina. A
de café era a melhor...
-- E dropes de anis Dulcora e o
chiclete Ping-Pong.
-- Mandiopã. Nossa, esse era
imbatível.
-- E o Forte Apache que era o
desejo de ganhar de Natal?
-- Junto com o Autorama, que
era inacessível a todos os mortais.
-- Calça boca de sino com um corte
abaixo em pano de outra cor.
-- E o cabelo comprido?
-- Nossa, era demais.
-- A Charanga do Jaime nos jogos
do Mengão.
-- Esperar o telefone fixo dar
sinal pra só então poder ligar.
-- E às vezes demorava a dar.
Era um sofrimento de dor.
-- A espera doida das cartas,
a rapidez de um dia ou no máximo dois dos telegramas.
-- Os bailinhos de melar
cueca...
-- Quando se a gente pegava
nos peitinhos da menina por cima do sutiã era o auge.
-- O problema era pedir ela em
namoro. E o cagaço dela dizer não.
-- E lembra da Zona Sul, onde
toda a rapaziada era de cabelo louro?
-- Tudo parafinada.
-- Eu sei. Mas era doído pra
nós, da Zona Norte.
-- Podes crer, bicho.
-- Mas que as cocotinhas se amarravam,
se amarravam.
-- Tinha umas sebosas que não.
Mas eram raridade.
-- Era outra vida.
-- Outra vida...
Meio pasmado, na frente da
dupla, Claudionor, um jovem na faixa dos 30, tentava entender sobre o que
rolava nas reminiscências.
-- Claudionor, ao invés de
ficar aí parado, repete a dose.
-- Lembra dos cursos de
datilografia?
-- Claro. Com os caixotes onde
as mãos entravam pra gente datilografar sem ver e errar.
-- A prova de admissão pra poder
passar do primário para o ginasial.
-- Ou o clássico ou normal.
-- É, tinha isso...
-- No vestibular você podia
escolher inglês ou francês como língua estrangeira.
-- E só entrava no primário
aos sete anos.
-- Caderno de caligrafia, tabuada
e muita lição de casa.
-- E os filmes de 14 anos, que
eram o furor da molecada.
-- Caramba, chegar aos 14 era
como uma passagem de vida.
-- Até o catecismo do Zéfiro a
gente passava a ver.
-- Se bem que, dependendo de
quem tinha visto antes, algumas páginas vinham coladas ou amareladas e
borradas.
-- Viagem no Tempo, Combate,
Zorro, National Kid, Terra de Gigantes, Jornada nas Estrelas, Daniel Boone, Bat
Masterson e tantas outras séries.
-- Algumas os pais da gente
nem deixavam ver.
-- Pelo horário e porque,
diziam, não eram pra nossa idade...
-- Pranchas de isopor.
-- Biscoitos Globo e Mate
Leão, claro.
-- Cachorro-quente Geneal.
-- E quando a gente cresceu
mais e podia sair, Angu do Gomes.
-- Tirar fotos e torcer pra todas estarem com foco na revelação.
-- O primeiro beijo na
primeira amada.
-- Voltar de lotação pra casa.
-- Não sem antes beber uma cuba
libre ou um gim com tônica e limão.
-- Pizza com catchup e
mostarda.
-- Mas isso tem até hoje.
-- Mas surgiu lá no passado,
há 50 anos.
-- É, pode ser verdade.
-- E você lembra do primeiro
porre?
-- Sim, com garrafão de vinho
vagabundo na inexistente hoje Festa das Nações na Lagoa Rodrigo de Feitas.
-- Cheguei em casa vomitando
até a alma e a minha mãe estava no sofá da sala a me esperar e amparar.
-- A minha também.
-- Mãe é tudo igual.
-- Lembra que tinha piquenique
no Quitandinha ou na Quinta da Boa Vista?
-- Eram raros, mas tinha.
-- E as visitas ao zoológico e
ao museu da Quinta.
-- Foram históricas. E pensar
que elas aquelas múmias todas e uma outra caralhada de coisas viraram
literalmente cinzas.
-- Eita tempo bom.
-- Mas, meu, você viu que o
Paulinho da Viola fez 82 anos?
-- Vi. Agora foi ele. Logo
será a gente.
-- Espero. É só o que eu
espero...
-- Claudionor, repete a pedida
e traz a dolorosa enquanto a gente sabe dividir o básico.
No derredor, sem dó, as horas mostram
que o prenúncio de eternidade perdeu mais algumas horas. Jocélio e Jurandir
estão um pouco mais velhos. Ou como diz o poeta, “quando eu penso no futuro não
esqueço do passado”.
(A ouvir, claro, Paulinho da Viola)

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