sábado, 16 de maio de 2026

Logando no samba que vai voltar

 Por Ronaldo Faria


O samba rola solto no asfalto. No alto do morro, porém, Guimarães, que não é capitão, está quieto no barraco. Macambuzio e sorumbático, sem um puto no bolso pra gastar, preferiu a solidão ao barracão que fervilhava samba-enredo e ilusão. Sem Marilene, matriarca da sua paixão encruada há tempos, melhor era pensar que toda esperança na Escola era nada. Na árvore despetalada e galhos aos bugalhos, só um pardal pardeia a pardala que pia sem piar. No todo, essência do lugar.
No Sambódromo, o mestre de bateria manda a moçada descer a mão no surdo, no reco-reco e no tamborim. Pede força no agogô, na cuíca, no repique e na caixa de guerra. Do alto do carro de som, os puxadores gritam aos mais altos brados à exaltação a Iemanjá. As alas se misturam na concentração. Aos poucos a escola toma forma com seus carros alegóricos. As velhas baianas nascidas num morro carioca giram sem parar. Mestre-sala e porta-bandeira seguem unos a se bailar ao luar.
Mas Guimarães está só. Com o copo de pinga na frente e quieto na mesa de fórmica clara, à espera das mãos do dono da cena para descer goela abaixo, vê uma mosca já embriagada pousar. Depois chega outra e outras mais. “Quem disse que não tem mosca pinguça”, - pensou. Taciturno, diurno nas madrugadas tragadas de tiros com balas cintilantes no céu, ele brinca de ser, crer e acreditar. Sua escola, onde Marilene rebola, já está para entrar na avenida. “Melhor nem ligar a tevê.”
Devagar, a cidade explode com a força da arquibancada que banca o samba no pé logo abaixo e balança em cada nota que percorre o corre do lugar. Aos poucos a Escola desce os metros que cobram todo um ano de esperança e agradece aplausos vindos do alto. Seus integrantes sublimam pesadelo e atropelos, vaticinam a apuração e dão ouvidos ao coração. Nos passos milimetricamente marcados, homens e mulheres, quiçá todes, seguem o enredo desejado. O mais fica para o acaso.
No seu invólucro quadrado, Guimarães já é pouco diante das quimeras das próximas manhãs. Vãs, suas lembranças não são anchas. Há pouco o que dizer. No seu lazer inócuo e trôpego, sôfrego ao coração, vai de antemão caminhar à servidão do amor sagrado. Mas, como amado, vê seu valor desaguar feito água que escorre no esgoto de um mero temporal. Por fim, cansado de tanto chorar, decide ver na dispersão o final da saga da sua agremiação. Pega o ônibus vazio e vai...
Quase no soar da sirene que tira pontos da agremiação, sua Escola desagua certa de que fez um desfile de primeira. Arteira, Marilene é chamada pela Globo para dar entrevista como a passista mais bonita a desfilar. Cabrocha que faz o mais brocha levantar e levitar, diz que tudo foi feito por amor: “Pra mim, a Escola é a minha paz.” Atrasado, Guimarães sequer isso vê. De pé na área de ninguém, mal enxerga a escola adversária não bater o cronômetro depois. Com o título no asfalto, a beleza do seu amor ganhava mais um título na avenida.
 
(Com Mariana Aydar a rolar)

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