terça-feira, 24 de março de 2026

 Por Edmilson Siqueira

Dificilmente um disco vai mostrar um dia uma união tão perfeita quanto a ocorrida entre o samba de João Nogueira e as letras de Paulo César Pinheiro no disco "Parceria". 

João Nogueira - quem gosta de samba está cansado de saber - foi um grande sambista que, sem fugir às raízes do samba urbano do Rio de Janeiro, trouxe elegância e refinamento a um gênero que, à época do seu primeiro trabalho, estava às voltas com inúmeras dificuldades. João surgiu no fim dos anos 1960 e fez sucesso. Antes de gravar seu próprio disco, emplacou o sucesso "Das 200 Pra Lá", um samba cantado por Eliana Pittman, que defendia a política brasileira do governo militar de autoridade sobre 200 milhas do mar a partir da costa. Foi criticado pelas patrulhas esquerdistas de sempre, mas não ligou muito. Em 1972 surgiu o disco "João Nogueira", que marcou a carreira do sambista com clássicos autorais, incluindo "Alô Madureira", "Beto Navalha", "Mariana da Gente", "Meu Caminho", "Blá, Blá, Blá" e, claro, sua interpretação de "Das 200 Pra Lá". 
Paulo César Pinheiro é, sem dúvida, um dos maiores letristas do Brasil. Parceiro de praticamente todos os grandes nomes da MPB, construiu sólida obra com João Nogueira, o que proporcionou a produção e gravação de um disco inteiro só com composições dos dois.  
E são grandes músicas que atraíram, para a confecção do disco, gente como Cristóvão Bastos nos arranjos, Eduardo Gudin na idealização e produção e a gravadora Velas na produção fonográfica.  
Quando o disco foi gravado (em 24 e 25 de julho de 1994) os dois já tinham uma longa carreira de sucessos junto.  O encontro acabou sendo emblemático, porque mais do que um simples registro fonográfico, o disco simboliza a materialização de uma amizade profunda e de uma afinidade artística rara, construída ao longo de anos de convivência, respeito mútuo e admiração estética. 
No encarte que acompanha do CD, lê-se: "gravado ao vivo nos Estúdios Viridiana". Ora, um disco geralmente é de estúdio ou gravado ao vivo, nesse caso num teatro ou algo parecido. Mas o encarte não está errado: a produção encheu de gente o estúdio onde foi gravado o disco, por isso pode-se dizer que foi gravado ao vivo em estúdio, com palmas em todas as músicas. E outro detalhe que parece ser uma raridade: já na primeira faixa ouvimos a voz rouca de Paulo César Pinheiro cantando o refrão do grande sucesso dos dois "Espelho".  



Ao ouvir do disco, qualquer um tem a sensação de que a união entre João Nogueira e Paulo César Pinheiro era quase inevitável devido ao respeito de ambos pelo samba tradicional e por compartilharem uma visão estética que valorizava o conteúdo artístico acima de modismos comerciais. 
Quando João morreu, em junho de 2000, o crítico do Estadão, Mauro Dias escreveu longo artigo e entre outros elogios disse o seguinte: "A música "Espelho", com letra com Paulo César Pinheiro (que se tornaria seu principal parceiro) é de 1972 e é um samba em tom menor, triste, lento, denso, quase falado. É um samba de recordações dolorosas, do filho que tem saudade do pai morto. Com "Espelho", Nogueira mostrou uma face que até então havia ficado em segundo plano - a do cantor. Ele foi o maior cantor moderno do samba. Tinha uma maneira especial de dividir as frases musicais dentro do compasso, puxando a síncope para trás, atrasando as entradas. Ninguém havia cantado daquela forma. Nogueira virou marca." 
São 17 músicas retiradas da fina parceria entre João e Paulo César. Apenas uma delas ("Um Ser de Luz") tem a colaboração também de Mauro Duarte. 
- Espelho 
- Eu Hein Rosa? 
- E Lá Vou Eu 
- Bafo de Boca 
- Bares da Cidade 
- As Forças da Natureza  
- Batendo a Porta 
- Chorando Pela Natureza 
- Banho de Manjericão 
- Súplica 
- O Poder da Criação 
- Minha Missão 
- Um Ser de Luz 
- Chico Preto  
- Rio, Samba, Amor e Tradição 
- Primeira Mão 
- Além do Espelho 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=gbdQUp6U8Jw&list=PL1nql9qUW9J1sG-rucMIOiSuIt4YLOK20&index=18 . 

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