Por Edmilson Siqueira
Dificilmente um disco vai mostrar um dia uma união tão perfeita quanto a ocorrida entre o samba de João Nogueira e as letras de Paulo César Pinheiro no disco "Parceria".
João Nogueira -
quem gosta de samba está cansado de saber - foi um grande sambista que, sem
fugir às raízes do samba urbano do Rio de Janeiro, trouxe elegância e
refinamento a um gênero que, à época do seu primeiro trabalho, estava às voltas
com inúmeras dificuldades. João surgiu no fim dos anos 1960 e fez sucesso.
Antes de gravar seu próprio disco, emplacou o sucesso "Das 200 Pra
Lá", um samba cantado por Eliana Pittman, que defendia a política
brasileira do governo militar de autoridade sobre 200 milhas do mar a partir da
costa. Foi criticado pelas patrulhas esquerdistas de sempre, mas não ligou
muito. Em 1972 surgiu o disco "João Nogueira", que marcou a carreira
do sambista com clássicos autorais, incluindo "Alô Madureira",
"Beto Navalha", "Mariana da Gente", "Meu
Caminho", "Blá, Blá, Blá" e, claro, sua interpretação de
"Das 200 Pra Lá".
Paulo César
Pinheiro é, sem dúvida, um dos maiores letristas do Brasil. Parceiro de
praticamente todos os grandes nomes da MPB, construiu sólida obra com João
Nogueira, o que proporcionou a produção e gravação de um disco inteiro só com
composições dos dois.
E são grandes
músicas que atraíram, para a confecção do disco, gente como Cristóvão Bastos
nos arranjos, Eduardo Gudin na idealização e produção e a gravadora Velas na
produção fonográfica.
Quando o disco foi
gravado (em 24 e 25 de julho de 1994) os dois já tinham uma longa carreira de
sucessos junto. O encontro acabou sendo emblemático, porque mais do que
um simples registro fonográfico, o disco simboliza a materialização de uma
amizade profunda e de uma afinidade artística rara, construída ao longo de anos
de convivência, respeito mútuo e admiração estética.
No encarte que
acompanha do CD, lê-se: "gravado ao vivo nos Estúdios Viridiana".
Ora, um disco geralmente é de estúdio ou gravado ao vivo, nesse caso num teatro
ou algo parecido. Mas o encarte não está errado: a produção encheu de gente o
estúdio onde foi gravado o disco, por isso pode-se dizer que foi gravado ao
vivo em estúdio, com palmas em todas as músicas. E outro detalhe que parece ser
uma raridade: já na primeira faixa ouvimos a voz rouca de Paulo César Pinheiro
cantando o refrão do grande sucesso dos dois "Espelho".
Ao ouvir do disco, qualquer um tem a sensação de que a união entre João
Nogueira e Paulo César Pinheiro era quase inevitável devido ao respeito de
ambos pelo samba tradicional e por compartilharem uma visão estética que
valorizava o conteúdo artístico acima de modismos comerciais.
Quando João morreu,
em junho de 2000, o crítico do Estadão, Mauro Dias escreveu longo artigo e
entre outros elogios disse o seguinte: "A música "Espelho", com
letra com Paulo César Pinheiro (que se tornaria seu principal parceiro) é de
1972 e é um samba em tom menor, triste, lento, denso, quase falado. É um samba
de recordações dolorosas, do filho que tem saudade do pai morto. Com
"Espelho", Nogueira mostrou uma face que até então havia ficado em
segundo plano - a do cantor. Ele foi o maior cantor moderno do samba. Tinha uma
maneira especial de dividir as frases musicais dentro do compasso, puxando a
síncope para trás, atrasando as entradas. Ninguém havia cantado daquela forma.
Nogueira virou marca."
São 17 músicas
retiradas da fina parceria entre João e Paulo César. Apenas uma delas ("Um
Ser de Luz") tem a colaboração também de Mauro Duarte.
- Espelho
- Eu Hein
Rosa?
- E Lá Vou Eu
- Bafo de
Boca
- Bares da
Cidade
- As Forças da
Natureza
- Batendo a
Porta
- Chorando Pela Natureza
- Banho de
Manjericão
- Súplica
- O Poder da
Criação
- Minha
Missão
- Um Ser de
Luz
- Chico
Preto
- Rio, Samba, Amor
e Tradição
- Primeira
Mão
- Além do
Espelho
O CD está à venda
nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em
https://www.youtube.com/watch?v=gbdQUp6U8Jw&list=PL1nql9qUW9J1sG-rucMIOiSuIt4YLOK20&index=18
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