segunda-feira, 18 de maio de 2026

Pra ver e rever

Por Ronaldo Faria

 

A estrada estradeira e besta de tão distante e presenteira se interpõe no aposto de quem segue querendo ir e voltar, quiçá chegar nalgum lugar. É cheia de pó, pedriscos e terra batida. Num canto qualquer tem até cruz pra marcar a morte que ali aconteceu. Mas tem também cruz pra marcar o anjinho que não viu sequer a terra enxergar. Aprumado no seu cavalo, Severino, severo em seu prumar, segue até a feira de Feira de Santana pra comprar um cortado de cetim para seu amor.
Na estrada, caminho de inda e de vinda, de gente que vai e vem, rumo do sonhador e daquele que há muito deixou de crer, surgem o sol e o entardecer, limiar e ar que faltam na morte certa. Na reza da mulher de luto, o preto do vestido é o instinto retinto que o tempo traz. No caixão, deitado pra nunca mais levantar, derradeiro lamento do qual não irá participar, Bastião descansa enfim seu chegar. No poleiro, as galinhas voltam do ciscar para dormir e fugir da raposa que as espera para saciar a fome da seca.
Na estrada que podia se bastar num estrado se lá estivesse Maria, Severino segue no prumo que a tudo faz chegar. O Sol, que se espraia na terra esturricada sem ter dó de quem o recebe (“É tudo plebe”, diz), segue seu calor a vazar. O cavalo magro e pálido que o conduz pede apenas que valha a pena um descansar quando chegar. No embornal, pedidos da feira que aperreia quem não pode vislumbrar as barracas que são quase mil na avenida de compras no ver o sonho sonhar.
Na estrada que agora já se vê na cidade desejada terminar, no píncaro de uma glória inglória, pessoas impessoais e perfeitas, ou talvez imperfeitas, se aglomeram para pechinchar e comprar. “Carne de bode a 15 reais o quilo? Você criou o bicho com ração internacional?”. Nela, Severino sorri ao ver o final da saga de fazer Maria sorrir. Agora é encontrar a barraca certa de vender corte de cetim pra fazer ela alegrar. Prende o cavalo entorpecido, desce devagar e sai a vagar.
-- E aí, vaqueiro, vai um chapéu de couro novo? Um gibão, quiçá...
Severino passa batido aos pedidos de consumo do vendedor. Sem pudor, até podia comprar o informado, mas era para Maria que ele estava lá. “Vou seguir a feira e encontrar o lugar.” Assim, com a certeza de quem crê no milagre do amor maior, eis que atenta a barraca devida. “Moça, quero seis metros do pano mais procurado e bonito que você puder me dar. Não se prenda no preço. É para o meu amor.” Compra feita na desfeita da feira, hora de voltar. O rumo agora é seguir o que canta o garnizé.
No alvorecer do dia, ultimato do mato que sabe somente acordar e adormecer, Severino, menino que ainda dorme a lembrar o cheiro de querosene do lampião e o bater de asas dos morcegos notívagos, vai feliz a felicitar o momento que restou. Do alto, a lua cheia sombreia o pouco de vida que existe e ainda há. O cavalo, agora descansado, trota rápido a saber que logo mais encontrará  a égua branca no curral. Ao aprendiz de poeta que quer sempre aprender, corre agora uma lágrima do olho no xaxado sentido de amor e dor...
 
(Com o eterno e terno Dominguinhos)

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