terça-feira, 31 de março de 2026

À bossa velha

 Por Ronaldo Faria


Sozinho na mesa de um bar a beira-mar, na displicência que vários mililitros de chope dão, Márcio estava a delirar se as borbulhas que subiam no copo poderiam ou não ajudar a destruir a camada de ozônio no seu começo ou fim. Preocupado com o universo em verso e prosa, esquecia-se de enxergar a mulher que passava rumo às areias do oceano num rebolar bipolar que mexia as pernas morenas em suprema crença do clamor.
Vacinado em várias doses pelo amor que não ata e nem também desata, fica sempre no meio do fio da faca da emoção. Ele nem corta ou sequer recorta saudades de um tempo atrás, faz-se atroz a reviver sem poder sequer sonhar. Para ele, o mundo existia na trama que se emaranha feito aranha na busca de um inseto a voar. Submerso no seu imaginar, disperso no sempre revolver um voltar, apenas acreditava que a vida ditava seu sentir.
A ouvir o som da Bossa Nova que rolava ao redor, sentia-se um alguém onde a velha bossa de viver já não tinha qualquer razão de ser. A beirar sete décadas em derrocada e rumo ao final, pouca coisa o apraz. Criança de cobertas encobertas de medo, jovem de solidão na sofreguidão dos dias diuturnos, homem a vencer cada dia como outro dia a vencer, Márcio sabia que a brisa mostrava que o violão era a hóstia da remissão.
Filho de uma zona que em algum tempo foi o norte da existência, vive à premência do amor insolúvel que não vem em sachês de supermercado. No cadafalso que se abre todas as manhãs aos seus pés, Márcio é verbo em aramaico e verborrágico, feito dicionário dito e redito em voz alta pelo aluno de quinta série. No morro que desabrocha na rocha e alguns barracos, o sol decide que é hora de dormir recostado no pouco de mata que resiste.
Já a mulher, que passava sozinha e um dia fez dois poetas escreverem as causas do amor, alcançou seu chegar. Deitada na toalha vermelha que cobre seu corpo dos grãos que existem desde que o mundo é mundo, se mostra como a amostra maior de que Deus deve ter existido. Bela, embelezada pelos raios agora amarelos, roxos e rosas, é só uma moldura que nenhum pintor do Louvre poderia tentar até rabiscar em pincéis ou carvão.
Mas Márcio, enterrado nos seus pensamentos aonde não há assentamento de sem-terra que o possa habitar, nem consegue enxergar o chamego que todo passante (na verdade todes) para a mulher dá. Nalgum centro de umbanda, logo mais, um desses tantos (tantes) irá pedir ao Exu preferido que a possa reencontrar. Numa baforada de charuto e gole de marafo, ele apenas irá responder, em gargalhada, que ela é curva de rio. Não é mercadoria à venda. O mês da história sem fio? Rola janeiro...
 
(Ao som de Bossa Nova, quiçá velha)

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