Por Ronaldo Faria
Sozinho na mesa de um bar a
beira-mar, na displicência que vários mililitros de chope dão, Márcio estava a
delirar se as borbulhas que subiam no copo poderiam ou não ajudar a destruir a
camada de ozônio no seu começo ou fim. Preocupado com o universo em verso e
prosa, esquecia-se de enxergar a mulher que passava rumo às areias do oceano
num rebolar bipolar que mexia as pernas morenas em suprema crença do clamor.
Vacinado em várias doses pelo
amor que não ata e nem também desata, fica sempre no meio do fio da faca da emoção.
Ele nem corta ou sequer recorta saudades de um tempo atrás, faz-se atroz a
reviver sem poder sequer sonhar. Para ele, o mundo existia na trama que se
emaranha feito aranha na busca de um inseto a voar. Submerso no seu imaginar,
disperso no sempre revolver um voltar, apenas acreditava que a vida ditava seu
sentir.
A ouvir o som da Bossa Nova
que rolava ao redor, sentia-se um alguém onde a velha bossa de viver já não
tinha qualquer razão de ser. A beirar sete décadas em derrocada e rumo ao
final, pouca coisa o apraz. Criança de cobertas encobertas de medo, jovem de
solidão na sofreguidão dos dias diuturnos, homem a vencer cada dia como outro
dia a vencer, Márcio sabia que a brisa mostrava que o violão era a hóstia da
remissão.
Filho de uma zona que em algum
tempo foi o norte da existência, vive à premência do amor insolúvel que não vem
em sachês de supermercado. No cadafalso que se abre todas as manhãs aos seus
pés, Márcio é verbo em aramaico e verborrágico, feito dicionário dito e redito
em voz alta pelo aluno de quinta série. No morro que desabrocha na rocha e
alguns barracos, o sol decide que é hora de dormir recostado no pouco de mata
que resiste.
Já a mulher, que passava
sozinha e um dia fez dois poetas escreverem as causas do amor, alcançou seu
chegar. Deitada na toalha vermelha que cobre seu corpo dos grãos que existem
desde que o mundo é mundo, se mostra como a amostra maior de que Deus deve ter
existido. Bela, embelezada pelos raios agora amarelos, roxos e rosas, é só uma moldura
que nenhum pintor do Louvre poderia tentar até rabiscar em pincéis ou carvão.
Mas Márcio, enterrado nos seus
pensamentos aonde não há assentamento de sem-terra que o possa habitar, nem
consegue enxergar o chamego que todo passante (na verdade todes) para a mulher
dá. Nalgum centro de umbanda, logo mais, um desses tantos (tantes) irá pedir ao
Exu preferido que a possa reencontrar. Numa baforada de charuto e gole de
marafo, ele apenas irá responder, em gargalhada, que ela é curva de rio. Não é mercadoria à venda. O mês da história sem fio?
Rola janeiro...
(Ao som de Bossa Nova, quiçá velha)

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