Por Ronaldo Faria
Júnior e Júnia eram o par
perfeito. Até nos nomes. Juntaram-se, como diria a melhor fórmula do amor, feito
as duas bandas da mesma laranja. Colavam feito durepox, cortavam como faca de
churrasco, se misturavam feito massinha de criança. Na verdade, eram algo que
estava além daquilo que os poetas do amor já escreveram ou descreveram. Estavam
no buraco negro que todos sabem que existe e ninguém nunca viu aos olhos, frente
a frente, defronte. Neles nem o vendedor de Chicabon poderia ser melhor história
para Nelson Rodrigues detalhar a certeza de ser ou estar. Neles, o mundo era cometa
que passeava pelas galáxias mágicas que só quem se apaixonou sabe tentar penetrar e, quem sabe, no big bang que a tudo fez surgir, fossem ambos o casal que
antecedeu Adão e Eva sem maçã pra comer. Comeram-se!
Júnior e Júnia, translúcidos
nos espelhos que os homens criaram para tentar fazer refletir a vida medíocre e
ínfima que vivem, caminhavam par em par, lado a lado, na reta que os levaria do
orgasmo ao enfadonho dormir de cansaço de se entregar tanto no findo dia. Efemérides
de si mesmos, bolos de aniversário cheios de glacê e flocos de chocolate, pés
que pisam na areia aonde a água que vem das ondas sabe acariciar, aves que voam
outra vez para buscar o ninho que nasceram, prenúncios do anúncio crispado de
boas notícias. Para eles, voláteis seres que são fósseis extintos no mundo de
agora que afasta os lábios da boca do amado(a), um resto e luz surge do céu em
seu negror. Na pincelada derradeira e rarefeita da nostalgia, eram a erva
queimada de boca em boca, afoitas de redescobrir que a fragilidade é a fortaleza
no fim.
Júnior e Júnia, que poderiam
até serem deuses na Grécia ou na Nigéria, eram um sonho que não seguia separado.
No desbragado embargo que o juiz de paz deixou de tecer nos autos, sorviam do
néctar da saliva que escorria das bocas e línguas loucas em decúbito dorsais e
frontais, laterais e perpendiculares. Eram filé de salmão com alcaparras amanteigadas,
caviar a se molhar no pão com azeite espanhol, o melhor manjar que escorreu à
garganta refinada que, ao fim, apodrece igual ao banguela que sequer sabe o que
é manjar. E assim, aborígenes da terra ainda virgem, sem descobertas feito
aquelas que os amantes fazem sob cobertas, como diria o poeta, amanheciam tomate
e terminariam abacate ao luar. No ar, cheiro de suor enraizado nos corpos deixa
o tempo letárgico à paixão parar.
II
-- Se eu recebesse um centavo sequer pela
função, tudo bão. Mas sem uma molhada de mão, lavar o que eu nem comi é muita sacanagem!
(Frase de Eufrásio, funcionário sem salário ou semana menor do que 6x1)
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