Por Ronaldo Faria
Amâncio, o manso aos tempos
promíscuos, reza mais um terço aos anjos do mundo terreno. Com terra nos pés por
causa da rua nunca asfaltada, mesmo com promessas eleitorais de candidatos mil,
senta para ouvir o rádio dizer que a chuva não vai parar. “Mas, deixa pra lá. O
teto de amianto vai me salvar”, pensa em seu aceitar eterno. Lá fora, São Pedro pensa diferente.
Puto com a humanidade e rente às perguntas da vida, manda a água cair e detonar.
Mas Amâncio não está nem aí. Importante é ter sono pra dormir e poder acordar
outra vez. De repente, entre um estrondo e outro de trovão com raios a
despencarem do céu, ouve a porta em batidas se aperceber.
-- Amâncio, abre essa porra! Estou molhada até a calcinha!
A voz era de Manuela, sua enamorada platônica. Atônito, corre para destrancar o cadeado da porta que o afasta dela. “Perdão, Manu. Só ouvi agora. Estava no banheiro. O barulho da descarga não deixou ouvir antes e vir te abrir a porta.
-- Tudo bem. Deixa eu entrar.
-- Claro, por favor.
Entre um e outro relâmpago, Manuela entra na casa de poucos e efêmeros cômodos sem se incomodar.
-- Não repara a bagunça. Homem solteiro é isso.
-- Tudo bem, nesse dilúvio só deu tempo de entrar aqui.
-- Bendito dilúvio... Quer dizer, que merda de chuva...
-- Tem uma breja aí?
-- Claro, claro. Já vou buscar.
“Deus existe? Essa chuva de baldes caindo do céu só veio pra me trazer ela?” – pensa Amâncio em seus poucos neurônios.
-- Pronto, está aqui, nos trinques!
-- Valeu. Estava com a garganta seca, apesar da água que está caindo.
-- Tudo bem. Tem mais umas oito na geladeira. Espero que dê pra molhar sua garganta...
Papo veio e papo foi. Reto ou controverso. Gargalhadas também. Um ou outro olhar atravessado, falsos olhares enviesados.
-- Afinal, Amâncio, porque você vive só?
-- Sei lá. Acho que ainda não encontrei a minha cara metade. Ou a metade da minha laranja apodreceu sem eu saber.
-- Amâncio, você é muito comédia!
“Comédia? Será que foi elogio? Talvez seja melhor do que ser tragédia”, pensou. Lá fora, aforismo de tudo, a chuva não dá trégua. E alaga ruas, caminhos, vielas. A favela despenca às pencas. Até a biqueira resolveu suspender o delivery. Mas no casebre de Amâncio a chuva contagia a vida como fosse apenas um tempo mínimo na vida que há.
-- Você tem algo mais forte que uma cerva?
-- Tenho uma branquinha de alambique. Vai?
-- Claro. Manda ver.
A partir daí foram risadas, toques malemolentes, proximidades perigosas, abraços perpétuos, bocas sugadas em sofreguidão. Amâncio e Manuela sendo dois num só. Afinal, milagres de início de ano também existem. E até Pedrão do Céu aceitou o amor que a chuva causou e decide fechar a bica celestial para não atrapalhar o casal. Um sol meio bundão até chega pela manhã. Porém, o casal casual, na cama a rolar, não liga para o tempo formal. Milagre de réveillon atrasado, os dois transam como se a vida não tivesse novo porvir. E assim, poesia e canção, são a unção daquilo que, entre desejos e senões, não tem fim.
-- Amâncio, abre essa porra! Estou molhada até a calcinha!
A voz era de Manuela, sua enamorada platônica. Atônito, corre para destrancar o cadeado da porta que o afasta dela. “Perdão, Manu. Só ouvi agora. Estava no banheiro. O barulho da descarga não deixou ouvir antes e vir te abrir a porta.
-- Tudo bem. Deixa eu entrar.
-- Claro, por favor.
Entre um e outro relâmpago, Manuela entra na casa de poucos e efêmeros cômodos sem se incomodar.
-- Não repara a bagunça. Homem solteiro é isso.
-- Tudo bem, nesse dilúvio só deu tempo de entrar aqui.
-- Bendito dilúvio... Quer dizer, que merda de chuva...
-- Tem uma breja aí?
-- Claro, claro. Já vou buscar.
“Deus existe? Essa chuva de baldes caindo do céu só veio pra me trazer ela?” – pensa Amâncio em seus poucos neurônios.
-- Pronto, está aqui, nos trinques!
-- Valeu. Estava com a garganta seca, apesar da água que está caindo.
-- Tudo bem. Tem mais umas oito na geladeira. Espero que dê pra molhar sua garganta...
Papo veio e papo foi. Reto ou controverso. Gargalhadas também. Um ou outro olhar atravessado, falsos olhares enviesados.
-- Afinal, Amâncio, porque você vive só?
-- Sei lá. Acho que ainda não encontrei a minha cara metade. Ou a metade da minha laranja apodreceu sem eu saber.
-- Amâncio, você é muito comédia!
“Comédia? Será que foi elogio? Talvez seja melhor do que ser tragédia”, pensou. Lá fora, aforismo de tudo, a chuva não dá trégua. E alaga ruas, caminhos, vielas. A favela despenca às pencas. Até a biqueira resolveu suspender o delivery. Mas no casebre de Amâncio a chuva contagia a vida como fosse apenas um tempo mínimo na vida que há.
-- Você tem algo mais forte que uma cerva?
-- Tenho uma branquinha de alambique. Vai?
-- Claro. Manda ver.
A partir daí foram risadas, toques malemolentes, proximidades perigosas, abraços perpétuos, bocas sugadas em sofreguidão. Amâncio e Manuela sendo dois num só. Afinal, milagres de início de ano também existem. E até Pedrão do Céu aceitou o amor que a chuva causou e decide fechar a bica celestial para não atrapalhar o casal. Um sol meio bundão até chega pela manhã. Porém, o casal casual, na cama a rolar, não liga para o tempo formal. Milagre de réveillon atrasado, os dois transam como se a vida não tivesse novo porvir. E assim, poesia e canção, são a unção daquilo que, entre desejos e senões, não tem fim.
(Com Celso Fonseca a rolar)
