terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sinatra–Basie: o primeiro encontro*

 Por Edmilson Siqueira


Juntar dois gênios da música num estúdio, como aconteceu em 1963 com Frank Sinatra e Count Basie não foi apenas uma boa ideia. Mesmo que fossem duas boas ideias (eles gravaram 20 músicas que resultaram em dois LPs) ainda assim, seria muito mais. 
Pois a parceria entre dois pilares absolutos da música popular norte-americana resultou em um de seus momentos mais luminosos.  Lançado no auge da maturidade artística de ambos, o disco revela a confluência entre a sofisticação das grandes orquestras de jazz e a precisão interpretativa de um dos maiores cantores populares que o mundo já ouviu.  
Em 1964, Sinatra e Basie gravaram um último álbum de estúdio, "It Might as Well Be Swing", com orquestração de Quincy Jones, e o primeiro álbum ao vivo de Sinatra, Sinatra at the Sands (1966), contou com a banda de Basie. Na verdade, então, foram três os encontros entre o cantor e o maestro, sendo o último deles ao vivo. 
Mas este artigo é sobre o primeiro disco, reproduzido em 2011 em CD com as dez músicas do primeiro LP. 
Gravado pela Reprise Records, a produção encontrou Sinatra em um momento particularmente fértil. Já tinha seu próprio estúdio, com liberdade criativa e cercado de colaboradores da mais alta estatura. Assim, ele pode explorar um repertório que combina standards consagrados e canções menos gravadas. 
Já a orquestra de Basie vive, no início da década de 1960, um renascimento artístico: rejuvenescida, compacta, com precisão rítmica quase metronômica, mas jamais burocrática, ela oferece o tipo de base ideal para um vocalista que dependia tanto da respiração do swing quanto da expressividade textual. 
Os arranjos são de Neal Hefti, cuja contribuição é também decisiva para a qualidade do disco. Admirado como trompetista e compositor no círculo do jazz moderno, ele se revelara também um arranjador de rara inteligência orquestral, dono de uma escrita que favorece a clareza, o balanço e a conversação musical entre seções. Em Sinatra-Basie, Hefti evita grandiloquências e abraça a vitalidade da big band, construindo arranjos que evidenciam tanto a qualidade e o talento vocal de Sinatra quanto a inspirada participação da orquestra de Basie.  
Logo na abertura, “Pennies from Heaven”, ouve-se a síntese dessa estética: a leveza dançante, o fraseado impecável e uma sonoridade ampla, mas nunca pesada. Sinatra canta como se flutuasse sobre a orquestra, encontrando espaços entre os sopros e linhas de contrabaixo, moldando cada verso como um diálogo entre a voz e os sons orquestrais. 

 
Um dos aspectos mais notáveis do álbum é a contenção expressiva. Diferentemente de gravações mais dramáticas de Sinatra, como aquelas que realizou com Nelson Riddle, aqui o foco é o swing, a conversa musical, a leveza do gesto. Isso não significa superficialidade: ao contrário, a interpretação do cantor é profundamente madura, construída com economia de recursos, pequenas inflexões e a famosa dicção cristalina que transformava cada palavra em gesto emocional. 
Segundo a crítica especializada, o álbum também representa um encontro simbólico entre duas escolas da música americana. Sinatra vinha do universo das canções populares, do teatro musical, das orquestras de rádio e das gravações luxuosas de Hollywood. Basie, da tradição do swing e do jazz afro-americano, das noites de Kansas City, do improviso e da energia contagiante das big bands. Em Sinatra-Basie, essas duas linhagens se encontram perfeitamente: o glamour e o fraseado vocal sofisticado convivem com o swing mais orgânico do jazz clássico. 
O resultado é um marco discográfico que atravessa décadas com frescor intacto. O álbum soa moderno ainda hoje, talvez porque Hefti, Basie e Sinatra compreenderam que a elegância é, por si só, uma forma de modernidade. Não há modismos nem maneirismos no projeto: há precisão e talento. Para o ouvinte contemporâneo, permanece um documento raro de entendimento artístico mútuo — uma aula de musicalidade que continua a valer com a mesma qualidade de 1963. 
As faixas: 
"Pennies from Heaven" (Arthur Johnston, Johnny Burke)  
"Please Be Kind" (Saul Chaplin, Sammy Cahn)  
"(Love Is) The Tender Trap" (Cahn, Jimmy Van Heusen) 
"Looking at the World Through Rose Colored Glasses" (Jimmy Steiger, Tommy Mailie) 
"My Kind of Girl" (Leslie Bricusse) 
"I Only Have Eyes for You" (Harry Warren, Al Dubin) 
"Nice Work If You Can Get It" (George Gershwin, Ira Gershwin) 
"Learnin' the Blues" (Dolores Vicki Silvers) 
"I'm Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter" (Fred Ahlert, Joe Young) 
"I Won't Dance" (Jerome Kern, Jimmy McHugh, Oscar Hammerstein II, Dorothy Fields, Otto Harbach) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no Spotify e no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=lQbH0mVvOYg. 

*A pesquisa para este artigo teve o auxílio da IA do ChatGPT. 


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Reencontro sem ponto

Por Ronaldo Faria


A volta foi rápida, quase bucólica não estivesse ela com cólicas. Há muito não se viam. Feito viajantes ultramarinos, quase moribundos do último naufrágio tão frágil como tarde no sofá sem pipoca ou Doritos, bombom envolto em dourado, se tocaram e se entocaram na própria magia. Ele tinha feito gastronomia e ela filosofia. Estavam mais velhos. Um ou outro fio de cabelo se escabelava branco nas madeixas entregues à brisa frugal. Mas a luz curta e lúgubre parecia cena de Hollywood, com penumbra que esconde as profusas e difusas quirelas de amor que brilhavam entre os dentes.
-- Saudade...
-- Eu também, muita. Daqui até o sol.
-- Saudade do teu gosto.
Isso posto, na visita que não houve no novo morar, rostos se juntam postos em gostos antigos, cheiros de narizes a respirar aquilo que o outro trazia de seus pulmões em aflitos desejos de estrelas que buscam a negritude do universo irreal para brilhar. E tocaram a pele em pernas e orgias, sorriram em harmonia de Carnaval e redescobriram que o tempo viaja na contramão se assim se quiser. Amantes de anos muitos que correram décadas e lugares, nas terras e mares, sabiam que a ilusão percorre mundos e fundos para se fazer realidade, seja em qual idade for.
-- E aí, novidades?
-- Muitas e poucas, coisas preenchidas e outras ocas.
-- Eu também.
-- Garçom, outro chopp.
No derredor, a casa de pastel descansa de tanto fritar massas e sabores. Os odores sem as dores reminiscentes ficam pra depois. Na rua, em raios que chegam em profusão para qualquer confusão, mental ou real, a luz absorve o momento e se sorve de línguas e desejos como cata-ventos na tempestade de unguentos nunca práticos para fechar feridas tardias. Nalgum lugar, copos de cerveja transbordarão a borbulhar. Risos chegarão para rodear o lugar, mãos se entrelaçarão no insólito perguntar: “É aqui?” Na resposta trêmula e triste, a querer bis, “acho que é”. Logo mais, sem a certeza de saber se pé roça barriga ou umbigo serve de depositário de língua, ambos são corpo transeunte e pedinte por mais a bailar, desses que erram seu chegar. No luar que desabrocha do céu, algum rebelde querubim a tudo vê, se esbalda de alegria e diz que sim. A trama, refeita, chegou ao fim.
 
(Com Artur Verocai)

sábado, 27 de dezembro de 2025

Dúvidas em dívidas dadivosas

Por Ronaldo Faria


Dúvida. Quem entrará pela porta feito amante sedenta de beijos ou o agiota a cobrar seu espaço no lar? O que sairá do plantio da horta? Quem dançará a derradeira dança em mi bemol num semitom abaixo de mi e um semitom acima de ré? De onde sairá o grito derradeiro do sorriso brejeiro que não está aqui? O vento valsará entre as frestas da janela ou se largará nas festas que rolam na madrugada do amanhã? Nas ruas boiarão almas rumo às sarjetas que correm no asfalto infausto ou pássaros se aninharão na árvore que desabrocha a primavera? Na dúvida dadivosa que divide dramas e dogmas, o pó ao pó.
Marcelo caminhava no asfalto como andasse nas estrelas. Centelhas de fuligem desciam na avenida. Fria, quase frígida de si mesma, a madrugada se trajava de história e the end, num quase fim. No vento que volteia silencioso e cioso de atrapalhar o destino, há espaço que junta pés descalços e cadarço desatado. Há ainda a frágil monotonia que a diáspora faz levar - leve e iluminada de olhares fugazes. Em tudo isso, ele atravessa em versos o tempo que corre nos ponteiros do relógio em quiproquó desde que a humanidade deixou de viver sob a umidade de não ter um telhado pra dormir.
À frente, na infausta história que nem Fausto escreveria igual, Marcelo se pergunta agora se vale a pena viver. Na manhã de ontem, já outrora para o nada eterno, ele acreditava que sim. Afinal, se era para estar aqui, que fosse da forma que fosse. Mas, nesse momento, na avenida premida e espremida entre calçadas e concubinas, a resposta já era dúvida encravada de vozes ao longe e latidos feito grunhidos. Na sentença que se escrevia na junção de íris e lunares pesadelos, ele seguia a beirar a guia da calçada. Bem melhor do que aqueles que descansavam à eternidade nos campos santos cheios de ateus e seres bestiais, ao menos Marcelo conseguia seguir sem cão de guia. Ainda. “Senhor, quer comprar um churros de chocolate?” Ele não ouve o vendedor que parece vendilhão de açúcar e dor. Segue rumo ao prumo que visualizou. Na sua cabeça, torrentes de saudades correm nos dormentes do trem da felicidade que descarrilhou na última esquina. Entre mortos e feridos, corroem feito gritos ardidos nos poucos toscos que se salvaram...
 
(A ouvir João Cavalcanti e Marcelo Caldi)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Obrigado Melodia

Por Ronaldo Faria


Aprender ou ser? A pergunta pergunta e assunta o momento momentâneo e instantâneo da noite transversa em versículos de questiúnculas ínfimas de viver e sofrer. E vamos por lá para grunhir horrores internos ou nos fazermos arrefecer.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Samba outra vez

 Por Ronaldo Faria


-- De novo uma roda de samba?
-- Também, o que você ia querer?
-- Sei lá: rock doidão, funk putão, rap pirocão...
-- Podia ser, mas fazer o que posso fazer se nasci aqui no meio do Morro da Promissão...
Clemêncio e Clementina, casal próspero e etéreo da vida, dessas coisas que juntam água e óleo na mesma melodia, até curtiram juntos uns rejuntes de reboco no barraco que a chuva levaria e brincaram de fazer filhos aflitos de comer prato de comida. Simplórios, catárticos e com carcinomas que mais tarde se fariam verdade, viviam suas ausências e premências tardias. Nas manhãs bebiam um café rarefeito em copos de cerveja de bar, nas tardes se enfiavam em suas vidas nas orações ou biritas, nas noites falavam quase nada e nas madrugadas tinham sonhos e pesadelos a brotar nas mentes e fantasias. Eram, pois, casal singular. Desses que se vê todo dia na diuturna trilha de se trilhar.
-- Vamos orar a Ogum ou Oxalá?
-- Oremos aos dois. Para que nossa vida em paralelas se junte numa esquina sem encontrar as mãos.
No tempo atemporal que junta Melhoral e Dipirona num coquetel de querer continuar, ninguém se atrevia a por a colher. Entre brigas e rusgas, rugas surgiam em cada olhar no espelho. No reboco da casa inacabada chegavam contas e boletos, se achegavam duetos de parceria mal feita, afeita àquilo que o quilo de coxão duro pesava na balança da transa final. No espanto quântico da fantasia liquefeita, cegos de visão e impropérios dos impérios notívagos e atávicos, ambos ambicionavam a felicidade. Só erravam na receita que foi sobescrita inaudita e finita. Na porciúncula letal, farrapos de inerente poesia. Talvez, como diria o poeta, um caco de telha ou caco de vidro.
-- Lapa ou Estácio?
-- Tanto faz. É tudo caminho pra logo mais. Corridas entre estações de trem, solilóquios tardios e escassos descasos. Beijos dados, lambidos e entre línguas lavadas, desovadas de dentro do peito cravado de amor.
Na rua que se arruma e se apruma para viver a madrugada tragada de bêbados apaixonados entre tragos e benvindas vivências, os dois felicitam a madrugada que permeia o juntar. E se fazem falácias, volteiam passos, brincam de florear o compasso que o periquito preso a revelar destinos pega com o bico no crivo letal. No coração harmônico e afônico, que nem o melhor exame médico faz surgir, a poesia se faz fria e tardia a debulhar prosa e pressa em ser gratidão ao amor que se esvai ao desvanecer.
 
(Com o eterno e terno Luiz Melodia)

domingo, 21 de dezembro de 2025

A "Utopia" de Dori Caymmi

Por Edmilson Siqueira


Um disco que, mais uma vez, mostra toda a riqueza da música brasileira. Trata-se de "Utopia" do compositor, produtor, cantor e arranjador Dori Caymmi, com uma nova safra de obras inéditas (apenas uma já havia sido gravada), compostas com letras de Paulo César Pinheiro, Roberto Didio, Sergio Santos e Ivan Lins. 
Apesar dos mais de 80 anos, Dori continua bem ativo. Depois de “Prosa e Papo”, lançado ano passado, “Utopia” surge antes do fim deste 2025 e, com certeza, já há outros projetos na cabeça do artista. E não são projetos apressados: “Toda vez que eu penso em um novo projeto, trabalho três, quatro meses nas músicas, defino quem eu vou convidar, e só depois que estou pronto, que está tudo feito, levo para o estúdio”, conta Dori. 
O álbum reúne vários convidados, entre parceiros e intérpretes especialmente escolhidos para cada canção: “Generosos amigos, fabulosos artistas, que vieram cantar pra mim”, segundo Dori. Ivan Lins, parceiro na inédita “Isabela”, participa da gravação da canção, assim como Sergio Santos, que faz dueto em “Pelas mãos de algum poeta”, que compôs com Dori. 
Mônica Salmaso, com quem Dori já dividiu o álbum “Canto Sedutor” (2022), surge em “O Nome da Moça” (Dori Caymmi / Roberto Didio). Os quartetos vocais Boca Livre e MPB4 participam em “Búzios Azul” (Dori Caymmi / Paulo Cesar Pinheiro) e “Ninho de Vespa” (Dori Caymmi / Paulo Cesar Pinheiro), respectivamente. Paulinho Pauleira escreveu o arranjo vocal do MPB4, e Maurício Maestro o do Boca Livre. 
E, como se vê, são convidados do mais alto nível.  
A única música que não é inédita, “Ninho de Vespa” ganhou novo arranjo. Dori mesmo explica: “Quis regravar esse frevo com um formato mais pernambucano, em homenagem à música de Recife, que eu adoro”.  Juntos, MPB4, Mônica Salmaso, Boca Livre e Sérgio Santos fazem os vocais de “Viageiro” (Dori Caymmi / Paulo Cesar Pinheiro). Das dez canções de “Utopia”, sete são parcerias com Paulo César Pinheiro, “parceiro da vida inteira”, a quem Dori dedica o álbum. 
“Sozinho de Nascença”, “Navegação”, “Filete D’Água” e “Filigrana”, todas de Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro, completam o repertório do álbum, em gravações solo de Dori. A bela capa reproduz o quadro do patriarca Dorival Caymmi, no qual retrata Dori ainda criança. 
Além de Jorge Helder, o contrabaixista com que Dori dividiu o projeto, um time de músicos excepcionais comparece no álbum: Jurim Moreira (bateria), Itamar Assiere (piano), Paulo Aragão (violão), Iura Ranevsky (cello), João Bustamante (cello), Cristiano Alves (clarinete), Dirceu Leite (flauta), José Carlos Bigorna (flauta), Neymar Dias (viola) e Lulinha Alencar (sanfona). 


O nome do álbum, “Utopia” também foi explicado por Dori: “Já tenho 82 anos de idade e faço uma música extremamente brasileira, baseada em todos os ensinamentos que eu tive, de todos os grandes compositores do Brasil. Compor e pensar num disco desse nível, neste momento em que a nossa música está bem enferma, padecendo de cuidados, é algo totalmente utópico. Por isso o disco chama-se Utopia." 

Faixas: 
1. Búzio Azul (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
2. O Nome da Moça (Dori Caymmi e Roberto Didio) 
3. Viageiro (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
4. Pelas Mãos de Algum Poeta (Dori Caymmi e Sérgio Santos 
5. Sozinho de Nascença (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
6. Navegação (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
7. Isabela (Dori Caymmi e Ivan Lins) 
8. Ninho de Vespa (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
9. Filete D'Água (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
10. Filigrana (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no Spotify e no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=8oNMv-5GPDg&list=OLAK5uy_mmDIeldQT5jMcQXMjbR1F9CLpXvJQqO3Y&index=2 . 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Derradeiro incenso

 Por Ronaldo Faria


Devagar ele traz divagar tardio e um ou outro cheiro de relva. Sobe no espaço em passo no descompasso que os olhos ainda sabem enxergar. Prazenteia em estrela perdida no céu um escarcéu que junta anjos, demônios, homens e mulheres, sinônimos de algo que em nada se parece com Deus. Brinca e brinda a brincadeira da cantoria imaginária e lúdica que trupica, mas não cai. No cais do mar revolto e distante, Anabela pragueja a ausência de Cassimiro, casmurro e ausente há tempos, desde que foi no barco de Altamiro na busca de lagosta e centavos minguados.
-- Amor, vai ser pouco tempo. É tudo por nós, pra buscar nosso canto de encanto onde vamos ter uma ruma de filhotes e pixotes.
-- Mas e se o barco virar e você afundar pra sempre na imensidão?
-- Isso não vai acontecer. Reza pra Nossa Senhora dos Bons Ventos. Ela há de nos guiar além-mar.
E assim ele zarpou, com Ferreira e Zaqueu. Singraram ondas e marés, ventanias e calmarias. Viram sereias, baleias e até Netuno, mesmo que esse tivesse aparecido soturno e noturno depois de duas garrafas de pinga cada um. Caminharam em ondas cheias de branco, oraram ao passado, tracejaram em bússolas e olhares para o Sol a melhor rota para voltar e descobriram cardumes no ardume que os olhos estavam com tanta secura. Amigos de infância, desses que juntam brincadeiras arteiras e lembranças, resistiram à falta de ventos e prosseguiram na busca do aconchego. Maria, Sebastiana e Mazé estavam em algum porto a esperar.
Assim, no fim que o porvir faz por fim despontar, conseguiram voltar. Cansados, queimados de um sol inclemente que os queimou mais do que queima toda gente, desembarcaram quase ausentes da missão que tiveram de cumprir. E lá estavam elas, suas amadas e famélicas de amor, mulheres por serem lembradas. Barbados, esturricados e sem vento para acarinhar, os três se jogam na brincadeira que chamam de amar.  No recôndito anacrônico de pau-a-pique, onde apenas dois corpos podem se juntar, o trio de pescadores de desejos se esmera em entregar seus corpos às cópulas do chegar. Naquilo que ainda carece de rimar, o marejar de olhos no choro do prazer envolve vozes quietas e prestas a vociferar o langor. Lá fora, bezerros berram pelas mães noutro pasto. O tempo agora é vasto.
 
(Com Paulo Matricó)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Com Rolando Boldrin

Por Ronaldo Faria


Devagar, a divagar atônito e perdido em si, Adamastor segue seu caminho sem admoestar a si mesmo. A esmo, na mesmice de um cavalo a correr a estrada seca, segue no caminho de quem só quer aninho. O lugar final: os braços em abraços gostosos, o riso sereno e pleno e os lábios carnudos de Maria, filha de Zé e Madalena da Luz. Debaixo de um pé de laranja lima, para o alazão comer o mínimo de capim que esqueceu de morrer, se põe a relembrar o desejo benfazejo de algum Santo Antônio que em alegria ri da vida. Curado da alergia que a algibeira traz no seu couro curtido da morte do gado que deixou de mugir, Adamastor cura a dor com o olhar para o sol que morre distante, equidistante do peito ao coração. Na igreja perto uma carola reza a derradeira oração.
Sem causos para contar além da própria vida, cheia de bocados que poderiam virar fados fosse essa história em Portugal, nos brocados e trocados que faltam, Adamastor chora em louvor ao Boi Fubá, morto para sua família alimentar. Ser entregue às feiras cheias de carnes dependuradas num gancho cercado de moscas toscas que revoam e pousam deveras a vera, caminhante de tempos outrora, nos alforjes e roupas de couro curtido, ele vislumbra o alumbre de viagens de tropeiro e boiadeiro. Feito carcará certeiro, mira os olhos de caramelo da amada para não descrer de que vale a pena viver. Em novo estrado o corpo daquela desejada desde o primeiro olhar abaixo de uma escada irá de novo vicejar. Na frente, no defronte das frontes, um pastel irá encher de cheiros o amor dos dois.
Assim, feito a açucena que tem gosto de beijo, Adamastor busca no passado o futuro de si. Caótico, ciclópico, morto no presente e ausente nas barcas que empacam no rio seco, a correr a areia branca onde antes corria água cristalina, guarda no sentimento a falácia de ser o mesmo. Nas brincadeiras que o relento lembra com o cheiro de lampiões brotando luz em querosene queimado, sombras voltam e perfazem desejos tristes onde os morcegos em desaconchego voam na busca de jugulares e saudades. Quiçá uma fruta ainda dependurada no pé de pau brilha na lua cheia. Para ele, pasmado e trôpego diante de tudo que se diz e traduz, a luz viceja amanhecer que trará plenitude. Alguém, nalgum lugar, tracejará trilha onde uma erva irá curar seu lumbago. E assim, refeito feito o amante que foi outrora, irá sentir a cama a correr no quarto, se deitar no mato e andar entre ondas frias que margeiam o ensejo do desejo de amar. E só aí a chegada, por fim, far-se-á.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Algo mais com Cannonball Adderley*

Por Edmilson Siqueira


Pensa num disco que soa moderno, mas que foi lançado há 67 anos. É disso que se trata esse "Somethin' Else", lançado em 1958, com Cannonball Adderley (sax alto), Miles Davis (trompete), Hank Jones (piano), Sam Jones (baixo) e Art Blakey (bateria). Também, pudera! Com esse time qualquer coisa que se fizesse podia parecer eterna. 
E, para completar, embora traga o nome de Cannonball Adderley na capa, o álbum costuma ser lembrado também como um dos momentos mais luminosos de Miles Davis fora de suas próprias formações. Essa convivência artística gera um dos registros mais equilibrados, líricos e marcantes da era do hard bop. 
Logo de cara, a introdução do piano, da bateria e do contrabaixo parece que vai nos levar para um mambo qualquer, mas quando ela termina e começam a entrar as primeiras notas de "Autumn Leaves" (J. Kosma e J. Mercer), o ouvinte sente estar diante de algo grandioso, o que vai ser fartamente comprovado nos quase 11 minutos de performance sobre o tema. O solo de Hank Jones, sempre elegante, reafirma a coesão do grupo. Já Art Blakey, com suas escovas precisas, age como quem não precisa impor nada mais do que o necessário. Sam Jones, no baixo, completa essa base com firmeza e discrição. 
O contexto do disco é especial. Cannonball havia chegado ao sexteto de Miles pouco tempo antes, participando das gravações que antecederiam "Kind of Blue". Aqui, porém, o saxofonista assume o protagonismo e com seu sopro firme, caloroso, com um fraseado que combina blues, gospel e precisão moderna. Sua sonoridade contrasta com o trompete econômico de Miles. A interação entre ambos sustenta o coração expressivo do disco. 
A segunda faixa é “Love for Sale”, um clássico de Cole Porter. Art Blakey marca um pulso mais vivo e dinâmico. Cannonball brilha especialmente, mostrando sua capacidade de transformar temas familiares em improvisações cheias de frescor rítmico. Miles, por sua vez, opta por um trompete seco e, claro, genial. O resultado é um contraste vivo, que prende a atenção de quem ouve. 


A seguir surge a faixa-título, “Somethin’ Else”, de autoria do próprio Miles Davis. É uma peça construída sobre um padrão sutil que se abre ao diálogo entre o trompete e o sax.  Miles toca com economia, mas Cannonball expande melodias com potência e fraseado cantável. A diferença entre os revela como elas podem ser complementares e não antagônicas.   
A quarta faixa é "One for Daddy-O" de Nat Adderley, trompetista e irmão mais novo de Cannonball. Sob um tema aparentemente simples, o grupo mostra toda sua versatilidade em transformar em ouro puro jazzístico o que lhe cai em mãos. O sax de Cannonball se sobressai em notas fortes, sempre com o acompanhamento primoroso do baixo e da bateria.  
Outro clássico, "Dancing in the Dark" (A. Schwartz e H.Deitz) vem a seguir. É o momento mais intimista do disco, com longo e expressivo solo de sax beirando um blues atravessa a faixa toda.  
Por fim, "Bangoon" do pianista Hank Jones, completa os cerca de 45 minutos do disco com um encerramento alegre, aberto com Davis caprichando nas notas rápidas, sendo seguido pelo sax de Cannonball. Tudo muito bem acompanhado pelo piano, bateria e contrabaixo, num ótimo exemplo do que a "turminha" podia fazer junto. 
"Somethin’ Else" é, acima de tudo, um encontro raro: são músicos no auge da maturidade criativa, reunidos em torno de um repertório enxuto e tratado com uma combinação de espontaneidade e rigor estético.  
Mais de seis décadas após sua gravação, "Somethin’ Else" permanece um daqueles discos que convidam tanto a escuta atenta quanto o puro deleite musical. É jazz de alta voltagem, capaz de combinar técnica e beleza formal com aparente naturalidade. Um clássico que soa sempre novo. 
O CD e o LP estão à venda nos bons sites do ramo, mas os preços são meio salgados. Ele pode ser ouvido no YouTube na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=u37RF5xKNq8&list=PLTIb4fKCEAevQGcDKFIXdimOXsMK4uVNv . 

*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Na viagem

Por Ronaldo Faria


Viajante de suas loucuras diuturnas, quase equidistante entre a vida e a morte, Januário persegue qualquer polis que vire lugar de chegar. Cama de se achegar e se largar cansado nos braços da amada. Já isso bastaria. Por aqui, nas remissões da vida, pouco basta. Um pé de serra, poço de onde se tira água de beber, candeeiro pra iluminar a vida quando o escuro chega no pretume do céu e no perfume do corpo cheirando amor. Januário, sentado na sela do cavalo alazão, toca a boiada pela estrada. Na saudade da doideira que a saudade dá, vem a lembrança de Eneida, mulher de aliança trocada e confirmada debaixo de um pé de flor. Logo, pensava, a casa de pau a pique iria chegar nas suas íris cercadas de pó e poeira que o gado levanta na estradeira sem eira e nem beira. Espora no cavalo pra tudo adiantar.

Viajante dos montes que se desmontam pelas bandas de qualquer lugar, Januário vai a marchar e murchar em caminhadas e passadas, cascos marcados no chão que pouca gente quer trilhar. Quem sabe aquele que busca o beijo saudoso que tem gosto de paixão encardida e lavada na solidão. Por toda a vida e na remissão. Para Januário, que amou sempre antes de ser amado, pé de ingazeiro é o mesmo que árvore de carvalho. No trote do seu cavalo, surgem na sua mente alhos e bugalhos. Tem ainda o alpendre que vê o sol desde o fim até o começo. E haverá ainda recomeço no tédio do solo seco e sem vida que o sertão por vezes faz em atropelo.
-- Eneida me espera na quimera que tiver de ser. Te prometo levar chita e o que for. E troco tudo por um beijo fugaz, desses que se dá rapidinho, mas se guarda para sempre.
Na lonjura que a lonjura do tempo e das horas nos dão, Januário se aconchega no lombo do cavalo que sua calor e sal. Tal e qual, transita na loucura e na penúria que apraz. Vai na volta que revolta e fica nos olhares da procissão que segue em promissão a vagar e perguntar pelo santo que os abandonou. Num cantinho ou outro de tanta solidão, no interno inferno de terno e eterno verão, Januário segue a seguir sua sina quase finda. Nela caminha e sente falta de ser feliz. E se pergunta: “O que eu me fiz?” O silêncio empedernido e ouvido no silêncio da alma que espera chegar e se acoitar nos seios da amada soa alto em cada respirar. A sede que mata o gado magro e prostrado no infortúnio da cerca de arame farpado que os resguarda da vida é o tom do lugar. Num largar de almas e penitência sofrida, o padre abençoa a procissão que se esmera a cortar caminhos abertos com mãos calejadas de enxadas e calos que nem mais sangram a cada servidão.
De repente, num rompante que só os animais sabem dar, o alazão foge da cobra que está prestes o bote perpetrar. Januário, disperso no pensar em seu amor, nem vê a cascavel que quase mata seu andar e andor. Por fim, no fim que sempre há, seus braços cansados abraçam Eneida na feira do povoado que está a se largar entre moscas na carne seca e ao Deus dará. E assim, no gosto dos lábios da amada, ressurge a vida como ária a se jogar. Então, no mundo fugidio de quem nunca esteve no seu mundo, a vida ressurge em léguas que o sertão soube eternizar. 

(Ao som de Dominguinhos)


sábado, 13 de dezembro de 2025

Magos

 Por Ronaldo Faria



Dois magos (homem e mulher, se é que em mago há sexo definido ao infinito) descansam na noite que brilha e dir-se-ia lunar. Mas, como até mago precisa se ligar, um deles prepara um cachimbo para saudar a paz. Perto, um cervo olha de longe à espera da maresia que irá chegar.
-- E então, você acha que a felicidade vai voltar?
-- Onde e em que lugar?
-- Sei lá. Aqui e agora, na terra ao nosso redor...
-- É pra responder com verdade ou heresia?
-- Fica fria, com aquilo que quiser...
-- Acho que sim, onde se une emoções em metamorfose ambulante, como já disse um poeta que inspiramos um dia, a felicidade vai chegar.
-- Poxa, então valeu ficarmos aqui pirando na batatinha...
-- Que piração, Astromeus? Apenas vivemos a loucura real, na maluquês.
-- Tem razão, somos só malucos-beleza. E podemos nessa vida crer que nada é melhor para se viver.
Pregados na parede, Astromeus e Luanova, com olhos e mentes presentes no derredor, a amenizarem o que possa se tornar dor, se entreolham no mundo de fora. Neste, vidas que mudaram de lugar e se entregaram e se jogaram à loucura de viver seu próprio mundo, dão abraços, beijos, matam saudades e voltam ao passado vivo que, tão grato de relembrar, nunca acabou.
-- Viu que riso gostoso saiu daquela boca?
-- Vi, claro. Estou ligada, mas acende logo esse cachimbo.
-- Calma, a coisa pra ser boa tem que ser vivida devagar. Ainda mais nesse tempo que não quer parar. Não é assim. Pra sentir é preciso antes apertar.
-- Astromeus, quer me ensinar a ser maga?
-- Não, claro que não. Só estou na busca da perfeição.
-- Tudo bem, mas nem sempre a pressa é inimiga da perfeição...
Astromeus conclui seu trabalho, acende a certeza da felicidade etérea e imagina abestalhado o que o mundo todo poderia ser se ficasse restrito àquele espaço.
-- Por que não podemos sair daqui?
-- E pra quê? Estamos pendurados na parede, feito rede de nordestino. Daqui vemos a todos e a tudo. E de certa forma vivemos a performance de quem enxergamos. E é tanta gente a brindar a vida que vivemos igual. Por isso resistimos ao tempo do mundo em desalento. Ali logo do lado, sentados à mesa ou andarem e sorrirem no gramado, seres humanos se humanizam de novo. Redescobrem saudades, preenchem lacunas da vida, ouvem histórias que pareciam perdidas no vento. Ou seja, eternizam mais uma vez aquilo que viveram e está pra sempre preso em corações e mentes.
-- Tem razão, Luanova. Manda ver...
Magos, ele e ela, astrólogos do princípio ao fim, pedem juntos um “toca Raul”.
-- Mas que merda, a gente grita e o cara do violão não ouve...
-- Calma, logo um deles vai ouvir e pedir. Nem que seja porque o Diabo é o pai do rock.
-- Beleza, então vamos curtir...
Logo atrás dos dois o ser vivo da imagem viaja na maionese e nas quimeras que envolvem a cena. E se vê no todo, mero animal. Quiçá, maluco total na loucura geral. Apenas beleza. Defronte ao pano mágico, todos conseguem enfim sorrir, do coração ao porvir. E a mágica está feita. A vida valeu. Sempre valerá. Ainda mais no baseado de Luanova e Astromeus.

                                                                                                                                              (A ouvir Raul)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Na marquise do tempo

 Por Ronaldo Faria


-- E aí, vamos?
-- Claro. Só se for agora...
Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de vestir como fralda, pegaram o rumo da rua. O trem passaria logo, se a Rede Ferroviária Federal não tivesse tido algum problema nas conexões a partir de Japeri. Chegaria lotado de gente uniformizada de fome e pobreza, mas na esperança de ser feliz em 90 trôpegos minutos do tempo.
-- Hoje o Mengão ganha fácil. Quatro a zero, fora o baile.
-- Tomara que sim.
-- O Maraca vai estar lotado, mas qualquer coisa a gente foge pra marquise.
-- Porra, será que nem na geral vai ter lugar?
-- Nunca se sabe, mas não vamos nos apertar. Esse jogo a gente vai assistir.
Não deu o fim da frase, chega a composição no seu ritmo cansado de rodar centenas de trilhos quase enferrujados. As portas, que há muito não fecham, estão apinhadas de viajantes longe de cenário verdejante. As casas do subúrbio há tempos deixaram de ver flores florescer.
-- Ô caralho, vamos chegando pra trás que sempre cabe mais um torcedor!
Sorte de Carlos e Kelé é que ainda existe (à época) solidariedade. Empurra daqui, espreme dali e está resolvida a questão.
-- Agora é só segurar com força pra não cair, mermão...
E o trem transita trêmulo por outras estações. “Não cabe mais ninguém! Chega de parar, filho da puta de maquinista!” O grito, decerto maniqueísta de quem já está entalado na lata de sardinha, vira coro geral. Pedido feito, pedido aceito. “Não quero ver o trem de novo depredado”, diz o maquinista para si mesmo. A esmo, quem fica pra trás ainda tenta jogar pedras, mas erra a pontaria.
-- Tomara que o ataque do Vasco esteja hoje tão ruim quanto a mira desse povo.
Por fim, no enfim de todo fim de viagem, surge a Estação Maracanã. Em segundos, ela fica lotada de seres que correm às bilheterias para comprar o ingresso mais barato, na geral popular.
-- É agora. Estamos aqui e vamos lá garantir o lugar!
Depois de muita espera, fila, cavalaria da PM tentando organizar o que dá, Carlos e Kelé estão no templo do futebol. Como eles, outras dezenas de milhares de seres que irão virar estatística na história do clássico dos milhões.
-- Cacete, se a gente ficar na geral não vai ver nada. Está lotada. Nem formiga cabe mais.
-- Esquenta não. Marquise, vamos nós.
-- E se a porra da PM descer o cacete geral depois que a gente subir?
-- Do jeito que essa merda está cheia você acha que os caras vão encher nosso saco lá em cima? Olha o que já tem de gente lá!
Dito e feito e o feito de escalar pra sentar no concreto que cobre os sortudos da arquibancada e segura o refletores é completo.
-- Agora é só torcer!
Ao apito final do árbitro, três possibilidades:
1) Flamengo goleia o Vasco. O time, sem patrocínio na camisa (não havia nesse tempo), sai aplaudido e deixa a galera em delírio profundo. Carlos e Kelé voltam felizes para casa. Horas depois de rodarem outra vez espremidos os trilhos da vida, param na birosca do Seu Luiz para comemorar. “Luizão, mete duas das cervas mais baratas, uma pinga com limão espremido e pode pendurar. No final do mês a gente acerta, como de praxe.”
2) Flamengo empata. O Vasco marca nos minutos finais. Putos, Carlos e Kelé xingam o time e o esforço dispendido para ver o rubro-negro jogar. “Mas não foi de todo mau, ainda estamos na frente no campeonato.” Horas depois de rodarem outra vez espremidos, param na birosca do Seu Luiz para tentar esquecer o tempo perdido ou ganho na epopeia. “Luizão, mete duas das cervas mais baratas, uma pinga com limão espremido e pode pendurar. No final do mês a gente tenta acertar, como de praxe.”
3) O Flamengo perde de forma impiedosa. Revoltado, Carlos quase se joga da marquise. A sorte é que Kelé foi mais rápido e o segurou. “Calma irmão, outros jogos vão rolar. No próximo nós vamos golear!” Horas depois de rodarem outra vez espremidos, param na birosca do Seu Luiz para tentar esquecer o tempo jogado no lixo. “Luizão, mete duas das cervas mais baratas, uma pinga com limão espremido e pode pendurar. A gente acerta quando puder e se der.”
No Maracanã, gigante ainda e ressonando sob os olhares do Gigante Adormecido em pedra que se vê nos arredores do bairro, termina mais um capítulo de vidas que podem terminar em cafunés ou nos mais nefastos impropérios. No entorno, cambistas e vendedores ambulantes ou não de cerveja e cachorro-quente comemoram o placar que tenha sido. No final é tudo igual, só muda o final...

(Ao soim de uma torcida qualquer)

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Trio na mesa

 Por Ronaldo Faria


São duas da manhã. Na manha os três amigos discutiam política, religião, mulher e futebol. Ou seja, logo os temas que não se deve discutir nem sóbrio, quanto mais cheio de goró a descer a garganta.
-- É sério que você vai votar no Deoclécio?
-- Vou. E qual é o problema?
-- Qual é o problema? Ele é o maior 171 do pedaço...
-- E daí, quem não é?
-- O Florisvaldo não é!
-- Não é? Você tá de sacanagem... manda então o cara pagar o que deve na praça.
-- Deve pra quem, neném?
-- Se você não sabe, devo dizer que és um jumento de quatro patas. Cuidado pra não cair da cadeira. Eu não te levanto...
-- Repete que eu te parto os dentes!
-- Amigos, vamos falar do Brasileirão?
A voz de Clarimundo interrompe a discussão que avançava o relógio rumo ao PS mais próximo.
-- Tudo bem, desculpe a exaltação. Mas é que o Vergílio a defender o Deoclécio pirou a minha cabeça. Tem que ser muito bosta pra isso.
-- Como assim, Teixeira? Por acaso chupar os bagos do Florisvaldo é que é o certo?
-- Qualé, cuzão, vai encarar?
-- Moçada, vamos parar! Futebol! É hora do futebol!
-- Tudo bem, Clarimundo, tudo bem. Vocês viram a seleção?
-- Eu não.
-- Nem eu.
-- Fizeram bem. Coisa mais ruim e fora de propósito não existe. É um chiste. Também, depois que virou camisa oficial de um time deocleciano, não podia dar outra bosta.
-- Porra, cacete, de novo essa merda! A camisa da nossa seleção nunca será vermelha!
-- Puta que pariu, vocês dois: de novo essa merda? Paremos de falar de futebol! Vamos falar de religião. Quer dizer, melhor não. Um de vocês é macumbeiro e o é outro crente. Vai dar merda. Vamos falar de mulher. Concordam?
-- Tudo bem. Eu concordo.
-- Eu também.
-- Ótimo. Vocês viram a Maricotinha como está linda?
-- Maricotinha, a musa da vila?
-- Claro, ela.
-- Não acho tudo isso. A Carlota é bem mais mulherão.
-- Como assim, a Carlota só porque ela vota no Deoclécio?
-- Não, babaca, porque ela é referência além da questão.
-- Seu cu! Maricotinha é mil vezes mais mulher.
-- O quê? Quer voltar pra casa de ambulância ou no rabecão?
Sem mais o que apaziguar, Clarimundo levanta da mesa, paga sua parte na conta e parte morro acima. Puto da vida, repete como mantra que papo de birosca termina sempre em destino findo ou desatino. “Nem sei pra que insisto.” Mas, vielas acima, ouve um cavaquinho tocando e para no boteco do Ferreirinha. “Aqui ao menos tem samba”.
-- Seu Ferreira, traz a saideira pra mim. Chega de discutir...
Não deu meia hora de bom sossego, chegam Vergílio e Teixeira trôpegos e abraçados a cantar a canção de que amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito.
-- Ferreirinha, manda mais umas que o trio sentou de novo pra falar daquilo que é bom: política, religião, mulher e futebol! Mas sem Deoclécio e Florisvaldo. Afinal, no fim, é tudo mesmo só ladrão.
Aos risos altos, resenharam até o dia raiar. Sem política e religião. Só papo sobre mulher, abobrinhas e samba no pé.
 
(Com Luca Argel ao fundo)

domingo, 7 de dezembro de 2025

“Tony Bennett at Carnegie Hall”: um show que entrou para a história*

Por Edmilson Siqueira



O CD é duplo e contém nada menos  que 44 faixas.  O primeiro LP lançado era simples, com umas 12 música no máximo. O segundo já foi duplo, mas comportava apenas, somando os dois discos, 23 faixas. Esse CD é a mais completa versão do show de 1962, no icônico teatro de Nova York que se transformou num marco na tradição do songbook americano.  
Lançado em 1997 na Europa e nos Estados Unidos, o CD duplo chegou logo depois ao Brasil. Embora não haja uma data de lançamento no CD brasileiro, há, no folheto que o acompanha, uma curiosa propaganda da Sony, tentando vender um CD player, com controle remoto e duas caixas de som, muito bonito por sinal, e que poderia ser comprado através de um tal de Sony Card, com "5% de volta" (o termo "cash back" ainda não havia sido adotado por aqui). E um aviso: a oferta só valia até 31 de dezembro de 2001. Logo, o CD é anterior a essa data, obviamente.  
E foi em ótima hora que resolveram produzir um CD com muito mais músicas que cabiam num LP com o show (acho que completo) de Tony Bennett no Carnegie Hall. 
É que sua performance permanece como um dos registros ao vivo mais emblemáticos da carreira de Bennett. Ainda mais em juma época (início da década de 1960) em que o rock começava a redesenhar o cenário musical e o jazz vocal já não ocupava o centro das atenções, Bennett demonstrou, na noite de 9 de junho, que a interpretação refinada, o equilíbrio entre técnica e emoção e o contato íntimo com o repertório clássico podiam alcançar níveis extraordinários quando sustentados por uma presença artística genuína. 
O concerto foi idealizado pelo próprio Bennett e pelo maestro e arranjador Ralph Sharon. E foi pensado como uma síntese da versatilidade do cantor. Em vez de se limitar às canções que o haviam tornado um astro das paradas, Bennett estruturou o programa como uma verdadeira jornada musical, incluindo standards, números de jazz, baladas românticas, "spirituals" e até momentos de improvisação. Essa variedade, que poderia soar dispersa, ganha unidade justamente pelas ótimas interpretações de Bennett e pela excelente condução de Sharon.
Desde a abertura, com “Lullaby of Broadway”, o público é envolvido por um clima de celebração. Bennett canta com energia e com confiança explorando nuances dramáticas sem jamais perder a fluidez da frase.  
O show mostra também o excepcional profissionalismo de todos os envolvidos, com uma relação quase telepática entre cantor e orquestra que, por sinal, é uma excelente big band, com uma seção de metais afiada e arranjos brilhantes, criando um ambiente propício para Bennett exibir todo seu talento de intérprete. 
Entre os pontos altos do concerto está sua interpretação arrebatadora de “I Left My Heart in San Francisco”, então recém-lançada e não ainda o hino definitivo da cidade que se tornaria. No palco do Carnegie Hall, a canção ganha uma dimensão quase épica. Bennett explora a melodia com elegância, sustentando notas longas que revelam seu controle vocal e sua naturalidade para transmitir emoção sem artifícios. O público responde imediatamente, configurando um dos momentos mais emblemáticos já registrados em sua discografia. 
O público, aliás, é um caso à parte nesse dia: os aplausos acontecem em praticamente todos os inícios das músicas, aumentando bastante no final. Ou seja, há uma recepção calorosa ao cantor por um público que quer demostrar que realmente aprecia o artista e sua obra. 
Vale ressaltar ainda a importância do Ralph Sharon Trio dentro do concerto. O formato reduzido - piano, contrabaixo e bateria - aparece em momentos estratégicos, proporcionando proximidade e intimidade.  


O impacto do álbum vai além da performance impecável. "Tony Bennett at Carnegie Hall" exibe uma etapa decisiva da carreira do cantor, mostrando que a sofisticação do repertório tradicional podia conviver com a efervescência cultural da década de 1960. Mais que isso, o disco serviu como um marco de resistência estética: enquanto muitos artistas buscavam se adaptar às novas tendências, Bennett reafirmava sua identidade, apostando na permanência do bom gosto, da elegância e da qualidade musical. 
Tony Bennett, depois desse show, consolidou mais ainda sua carreira. Em 1962 ele estava com 36 anos. Pois viveu até 2023, se apresentando até poucos meses antes de sua morte, com uma carreira que beirou os 70 anos de grandes discos e grande performances nos palcos, além de discos fantásticos com outros cantores e cantoras. 
O destaque maior desse final de carreira, talvez seja seu último trabalho, com Lady Gaga que rendeu um grande disco. Sua última apresentação, aliás, foi com a cantora no Radio City Music Hall em agosto de 2021 em Nova York, no show "One Last Time". Há um vídeo desse show que mostra o encontro - emocionante - dos dois. O cantor morreu em casa na cidade de Nova York em 21 de julho de 2023 aos 96 anos.  

A lista das músicas do CD duplo é a seguinte:  
CD 1:
"Lullaby of Broadway" (Al Dubin, Harry Warren)  
"Just in Time" (Betty Comden, Adolph Green, Jule Styne)  
"All the Things You Are" (Oscar Hammerstein II, Jerome Kern)  
"Fascinating Rhythm" (George Gershwin, Ira Gershwin)  
"Stranger in Paradise" (Alexander Borodin, Robert Wright, George Forrest)  
"Our Love Is Here to Stay" (G. Gershwin, I. Gershwin)  
"Love Look Away" (Hammerstein, Rodgers)  
"Climb Ev'ry Mountain" (Hammerstein, Richard Rodgers)  
"Put on a Happy Face"/"Comes Once in a Lifetime" (Lee Adams, Charles Strouse)/(Comden, Green, Styne)  
"My Ship" (Kurt Weill, I. Gershwin)  
"Speak Low" (Weill, Ogden Nash)  
"Lost in the Stars" (Maxwell Anderson, Weill)  
"Always" (Irving Berlin)  
"Anything Goes" (Cole Porter)  
"Ol' Man River" (Hammerstein, Kern)  
"Lazy Afternoon" (John Latouche, Jerome Moross)  
"Sometimes I'm Happy (Sometimes I'm Blue)" (Irving Caesar, Clifford Grey, Vincent Youmans)  
"Have I Told You Lately?" (Harold Rome)  
"That Old Black Magic" (Harold Arlen, Johnny Mercer)  
"A Sleepin' Bee" (Arlen, Truman Capote)  
"I've Got the World on a String" (Arlen, Ted Koehler)  
"What Good Does It Do" (Arlen, Yip Harburg)  
"One for My Baby (And One More for the Road)" (Arlen, Mercer) 

CD 2:
-"This Could Be the Start of Something" (Steve Allen)  
"Without a Song" (Vincent Youmans, Billy Rose, Edward Eliscu)  
"Toot Toot Tootsie (Goodbye)" (Gus Kahn, Ernie Erdman, Dan Russo) – It  Amazes Me" (Cy Coleman, Carolyn Leigh)  
"Rules of the Road" (Coleman, Leigh)  
"Firefly" (Coleman, Leigh)  
"The Best Is Yet to Come" (Coleman, Leigh)  
"I Left My Heart in San Francisco" (George Cory, Douglas Cross)  
"How About You?"/"April in Paris" (Ralph Freed, Burton Lane)/(Vernon Duke, Harburg)  
"Chicago (That Toddlin' Town)" (Fred Fisher)  
"(In My) Solitude" (Eddie DeLange, Duke Ellington, Irving Mills)  
"I'm Just a Lucky So-and-So" (Mack David, Ellington)  
"Taking a Chance on Love" (Vernon Duke, Ted Fetter, John La Touche)  
"My Heart Tells Me (Should I Believe My Heart?)" (Gordon, Warren)  
"Pennies from Heaven" (Arthur Johnston, Johnny Burke)  
"Rags to Riches" (Richard Adler, Jerry Ross)  
"Blue Velvet" (Lee Morris, Bernie Wayne)  
"Smile" (Charles Chaplin, Geoffrey Claremont Parsons, John Turner)  
"Because of You" (Arthur Hammerstein, Dudley Wilkinson)  
"Sing You Sinners" (Sam Coslow, W. Frank Harling)  
"De Glory Road" (Clement Wood, Jacques Wolfe) 

O CD e os LP (simples e duplos) ainda podem ser comprados nos bons sites do ramo. E pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=Hzf1X4-_RXk&list=PLIJmYQvaDU3G4x_mpbfO8IXw3zmGxqA0K . 

*A pesquisa para este artigo teve auxilio da IA do ChetGPT.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Pro Jorge Mautner

  Por Ronaldo Faria


Comer nuvens de cor que alguém se esqueceu de por. Viajar no violino em desatino lisérgico e alérgico à tristeza. Brincar de dia azul mesmo com as queimadas que escurecem o céu em fumaça decrépita e fétida. Parar mais cedo com os alcaloides para sintonizar amanhã. “Estação PKR-1957 dá bom dia às plantinhas e aqueles que plantam bananeira na esquina.”
Cair de boca nas coisas que surgem em janeiro e morrem demenciadas em dezembro. E lá se foi outro ano. Na hecatombe que tiver passado, o passado temporal surge abrupto e tosco, tosquiado feito ovelha na máquina zero. Aos loucos e esotéricos, dançarinos dos bailes e perrengues, o par pede passagem para não morrer sem nunca ter voltado por lá.
Depois, brindar goles e golfadas na fantasia que traz azia e picardia. Andar na corda bamba que o bambolê da criança faz rodar em círculos ridículos para quem de fora vê. Ver-se nos versos de outrora como agora: ser abissal que nunca saiu da areia que a praia deixava. E levar para longe a caravela sem velas que teima em pegar tormentas e calmarias na busca do torpor.
Subir no foguete que fala com os animais. Ver a Terra além da estratosfera, onde a fera humana vira a mesma do animal, e sorrir com a bola que gira no espaço. No bagaço, bactéria vive e surge no papel almaço com seu almoço descerebrado. E chegar aos sete anéis de Saturno sem achar isso um absurdo. Afinal, tudo ainda voa e até parece balão.
Por fim, nos finalmentes do repente que deseja mais um gole e briga com a certeza do beijo, vicejos de vida longa e enlevo. No eclipse sozinho que percorre lua e sol com cuidado, a Babilônia fônica e atônita que a tônica com gim traz  para o lado. Perto e distante um povo evoca no maracatu atômico que há céu sem estrelas. No teclado as unhas afiadas se fiam em louvor a vencerem o tempo e a dor.

Chick Corea e Lionel Hamptom: encontro histórico

Por Edmilson Siqueira Chick Corea ainda não tinha 30 anos quando fez um show ao vivo em Cannes, no Theatre du Casino. na França, durante o M...