quarta-feira, 3 de junho de 2026

Xamegô

 Por Ronaldo Faria


De repente, no rompante da vida, Maria vê José diante da janela que esqueceu de fechar a tramela. Na gamela, bofes do carneiro que berrou até morrer, rasgado de cima até embaixo no facão do boiadeiro. E agora? Abrir a porta de madeira ou não? O coração falou mais alto e as mãos, com as unhas pintadas de vermelho em sangria da pétala carente de virar flor, abriram a porta, déspota das emoções com o coração a frigir óvulos do mundo e do tempo.
-- Obrigado Maria por abrir a porta. Na verdade, só vim aqui pra beber um gole da água do pote.
-- Tudo bem. Te trago um copo agora.
No fole da sanfona desafinada da vida, a água desce a garganta ancha de amor e solicitude. Na vida que corre do lado de fora, a ânfora está cheia de meias verdades, saudades etéreas, simulacros mil. Ou seja, a pantomima da vida.
-- Muita secura aí fora?
-- Com certeza. Meu cavalo quase morre de sede...
-- Quer que encha o cocho pra ele?
-- Se puder, agradeço junto com o alazão.
Animal sedento afinal saciado, a história poderia ter fim. Mas qual... A cena dentro da cena principal é primordial. Nela, o tempo terminal se faz atemporal. Nele se juntam saudade e efemérides nunca comtempladas de festejos. No ensejo do nada, mil fadas em fodas com anjos e arcanjos arqueados pelo tempo.
E assim, Maria e José, feito escrituras da bíblia escrita e republicada com mil mudanças que a fé e crença têm que ter no seu tempo, viram realidade na tristeza e na dor como fossem só amor. E se abraçam e desatam, se camuflam na realidade da saudade, tramam nova realidade. E assim são sonhadoras e utopia, senão. Afinal, diásporas da vida, vivem a ilusão de ainda ser...

Xamegô

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