Por Ronaldo Faria
O passarinho mais desavisado
pensou ter acordado no lugar errado. As flores brotaram do dia para a noite, os
frutos já começavam a despencar das árvores de tão maduros, o riacho antes
quase seco jorrava água para a terra que dormiu esturricada e amanheceu dando
loas à vida. Tentou piar para avisar outras aves do milagre que aconteceu, mas já era notícia velha. Elas já sabiam desde antes e ressonavam de bico e barriga
cheios. Então, era apenas a hora de saciar igualmente a fome tardia.
O cachorro, que dormiu magérrimo
e com vermes a devorá-lo por dentro, despertou, de repente, sorridente em seus poucos
dentes. As dores já não lhe consumiam e até o pelo reluzia ao sol ameno. Seu
pote de água estava cheio e a ração minguada havia se transformado numa tigela
de bifes no ponto (se bem que tinha um mal passado). Levantou-se desperto e certo
de que milagres acontecem e latiu com gosto de latido bom. Afinal, seu dono tinha se esquecido de prendê-lo na
coleira e estava livre para correr pelo pasto.
Aliás, no pasto, o gado
acordou a mugir gostoso. O mato estava alto e verde. O cocho cheio de sal e de
água. Havia um mundo inteiro verde e redundantemente verdejante. Os bezerros
não estavam separados de suas mães e sorviam leite fresco e quente. Até os
machos escolhidos para o abate estavam felizes. E vivos. O caminhão que iria buscá-los fundiu
o motor e seu reparo estava marcado para pelo menos uns meses a mais. Imponente,
o touro via a sua manada viver em paz e sem medo da morte.
Os carneiros, igualmente, quando
abriram os olhos até acharam que tinham sido levados para outro lugar. O curral
onde ficavam apertados e prontos para o abate e corte do facão de cima até embaixo, com
suas tripas e órgãos jogados numa gamela, estavam livres e dividiam o pasto com
o gado e até alguns porcos longe de sua execrável lavagem. Com seu pelo
branco, aa ovelhas branqueavam a cena de cor. E brincavam de correr e pular, a emitirem
sons e sílabas que só carneiros de presépio sabem ter.
As galinhas quando deixaram o
poleiro se depararam com um chão forrado de espigas e grãos de milho, num tal
de verde/amarelo que os olhos ciscavam sem parar. E chamaram seus rebentos
amarelos a piar para crerem que vida há. Os galos cantaram fora de hora, bateram asas
num ritual informal e até esqueceram de cobrir suas amadas de penas. E era um
tal de cacarejar que o dia se tornou mais claro e vivo. Diante do quadro, até a
raposa decidiu que a partir dali iria virar vegetariana ou vegana.
E nesse ritmo o carcará, a
coruja, bodes e cabras, abelhas africanas ou não, burros, jumentos, tanajuras, vagalumes,
peixes em suas lagoas transbordando e rios caudalosos, assim como toda a bicharada que
ainda vivesse se integraram à festa. O mundo virou um salão de dança e andança
pela vida. Mesmo Deus, o tal Todo Poderoso, esqueceu seu poder e resolveu
requebrar ao som de arcanjos e anjos com seus instrumentos celestiais. Se um
grande artista tentasse escrever a cena, não conseguiria.
O homem? Quem? Ah, o ser
humano... Esse estava extinto do planeta após a hecatombe provocada por ele mesmo.
Afinal, raro e caro leitor, como tal conto existiria com a presença de tal canastrão e ator sobre a Terra? Devagar,
a cortina do teatro da natureza se fecha para o derradeiro ato. A plateia vazia
com a bilheteria fechada não aplaude a temporada. Para sorte da trama, sem drama. Amedrontada, a garotinha que
foi poupada do fim apenas reza de mãozinhas juntas para que o livro da redenção
traga um Adão que seja Eva e uma Eva que dispense o tal Adão. No seu sonho, salve a
promissão.
(Com Os Gil no ar)
