sexta-feira, 5 de junho de 2026

Passarinhando no mundo

 Por Ronaldo Faria 


O passarinho mais desavisado pensou ter acordado no lugar errado. As flores brotaram do dia para a noite, os frutos já começavam a despencar das árvores de tão maduros, o riacho antes quase seco jorrava água para a terra que dormiu esturricada e amanheceu dando loas à vida. Tentou piar para avisar outras aves do milagre que aconteceu, mas já era notícia velha. Elas já sabiam desde antes e ressonavam de bico e barriga cheios. Então, era apenas a hora de saciar igualmente a fome tardia.
O cachorro, que dormiu magérrimo e com vermes a devorá-lo por dentro, despertou, de repente, sorridente em seus poucos dentes. As dores já não lhe consumiam e até o pelo reluzia ao sol ameno. Seu pote de água estava cheio e a ração minguada havia se transformado numa tigela de bifes no ponto (se bem que tinha um mal passado). Levantou-se desperto e certo de que milagres acontecem e latiu com gosto de latido bom. Afinal, seu dono tinha se esquecido de prendê-lo na coleira e estava livre para correr pelo pasto.
Aliás, no pasto, o gado acordou a mugir gostoso. O mato estava alto e verde. O cocho cheio de sal e de água. Havia um mundo inteiro verde e redundantemente verdejante. Os bezerros não estavam separados de suas mães e sorviam leite fresco e quente. Até os machos escolhidos para o abate estavam felizes. E vivos. O caminhão que iria buscá-los fundiu o motor e seu reparo estava marcado para pelo menos uns meses a mais. Imponente, o touro via a sua manada viver em paz e sem medo da morte.
Os carneiros, igualmente, quando abriram os olhos até acharam que tinham sido levados para outro lugar. O curral onde ficavam apertados e prontos para o abate e corte do facão de cima até embaixo, com suas tripas e órgãos jogados numa gamela, estavam livres e dividiam o pasto com o gado e até alguns porcos longe de sua execrável lavagem. Com seu pelo branco, aa ovelhas branqueavam a cena de cor. E brincavam de correr e pular, a emitirem sons e sílabas que só carneiros de presépio sabem ter.
As galinhas quando deixaram o poleiro se depararam com um chão forrado de espigas e grãos de milho, num tal de verde/amarelo que os olhos ciscavam sem parar. E chamaram seus rebentos amarelos a piar para crerem que vida há. Os galos cantaram fora de hora, bateram asas num ritual informal e até esqueceram de cobrir suas amadas de penas. E era um tal de cacarejar que o dia se tornou mais claro e vivo. Diante do quadro, até a raposa decidiu que a partir dali iria virar vegetariana ou vegana.
E nesse ritmo o carcará, a coruja, bodes e cabras, abelhas africanas ou não, burros, jumentos, tanajuras, vagalumes, peixes em suas lagoas transbordando e rios caudalosos, assim como toda a bicharada que ainda vivesse se integraram à festa. O mundo virou um salão de dança e andança pela vida. Mesmo Deus, o tal Todo Poderoso, esqueceu seu poder e resolveu requebrar ao som de arcanjos e anjos com seus instrumentos celestiais. Se um grande artista tentasse escrever a cena, não conseguiria.
O homem? Quem? Ah, o ser humano... Esse estava extinto do planeta após a hecatombe provocada por ele mesmo. Afinal, raro e caro leitor, como tal conto existiria com a presença de tal canastrão e ator sobre a Terra? Devagar, a cortina do teatro da natureza se fecha para o derradeiro ato. A plateia vazia com a bilheteria fechada não aplaude a temporada. Para sorte da trama, sem drama. Amedrontada, a garotinha que foi poupada do fim apenas reza de mãozinhas juntas para que o livro da redenção traga um Adão que seja Eva e uma Eva que dispense o tal Adão. No seu sonho, salve a promissão.
 
(Com Os Gil no ar)

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