Por Ronaldo Faria
A chuva miúda amiúde traz flamboyants
vermelhos a juntarem o casal que viaja em ervas mil onde o senhor mais senil
pensaria estar numa terra de céu de brigadeiro em azul sempre anil. Ao redor, a
dó da dor dolorida e insensível que faz da separação previsível a imprevisível
orgia de um Carnaval fora de época na epopeia do viver. Os copos a subir e
descer entre as mãos e gargantas, todas e tantas delas anchas, surgem e urgem
no solilóquio utópico de trançar pernas, beijar sem poder, amar sem
redescobrir, fazer e ter.
A chuva em tempestade
passageira, ligeira e que se esgueira entre carros raros e rarefeitos tropeços,
faz esquecer o calor e o torpor que a vida dá. Mortos-vivos convergem nos versos
dispersos que voam pelo ar. Vivem em devaneios e fazem da prosa uma pétala de
rosa a desabrochar debochando da feiura que a ternura dá. Infinda ou finda não
detalha ou entalha em pedaços de tronco que deixaram de ser árvore para apenas ser. A arvorar a
felicidade de segundos fecundos, os minutos onde pouco há que durar e sequer chegar. À frente, o mar.
A chuva que apela aos céus que
a prolixa orgia um dia ressurja em véus descortinados e atávicos se faz rolar
nos ralos e esgotos que as ruas desdobram em jusantes para o mar e o rio que se
encontram em tântricas melodias nalgum lugar. Ao meio de tudo, feito o mudo desejar que
talvez morra sem ao menos falar e gritar, a ausência da premência que a finitude faz calar. Assim, taciturno e macambuzio, o planeta irá girar volátil e tátil nos
poucos toques e retoques que cada poema faz de um simples fonema a saudade da
morte no drama sem tema.
(Com Toquinho)

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