Por Ronaldo Faria
A rua taciturna e ainda diurna,
complexa para o amplexo similar entre a dor e o torpor, abre caminhos e esquinas,
todos em sina simbiótica sob a ótica do bêbado que margeia as paredes crispadas
de chapiscos e fazem corpos sangrar. A rua, enluarada vista por cima e escura
sob os olhos dos que a olham debaixo, faz-se faceta e retreta desmesurada ou
largada. Estivesse em Lisboa, seria um fado. Estivesse aqui e agora seria uma
foda. Mas nesse momento é apenas crua rua, encalacrada nos cimentos e concretos
da cidade azulada por neons que brilham dos prédios afora E tudo vira rotina e
pseudo rima para o poeta chorar bem de mansinho, sem ninguém saber por quê.
Na cidade caleidoscópica e
utópica, entre o pecado e a hóstia, a cidade se faz tragédia e tramoia,
colóquio e ópio dos poetas tristonhos ou bisonhos. Na realidade arcaica e tragicômica,
atônita em redescobrir seu inicio e fim, o desterro que antepõe o enterro do
corpo em vida e o anacrônico padecer. Nos faróis, destemperados de poder chegar
e ir, ir e chegar, vidas transitam e enxergam em polígrafos ágrafos e gramaticais, bestiais ou fatais.
Num momento ou outro, trôpegos, os vestais que se dizem amantes e tardios, voam
na vida como sibilantes ventos. Em tormentos e tormentas, nas ventas de
qualquer nariz que queira cheirar o ar, faz-se parcimônia na amônia do
despertar.
No estado que tem camas cheias
de molas ortopédicas e estrados de madeira barata a dividirem quase o mesmo
espaço, vivem o esperto, o normal e o cabaço. No silêncio de sirenes
estridentes, perseguidos a pedir clemência antes dos disparos, os filhos do
nada jogam escarros e catarros que se atiraram ao chão. No incrédulo verbo de
tentar saber escrever e subscrever o que ainda há de se ver, o velório do invólucro
que alguns chamam de corpo. No vendaval que surge antes de qualquer Carnaval, o
aval para que o sol não vire pó. Afinal, no final de tudo, soturno e a cumprir
seu turno de lucidez, o homem faz do tempo presente o amor ausente que sorri
quando apenas se quer chorar.
(Ao som de Edu Lobo, a devorar a sua poesia como fosse um corvo)

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