domingo, 18 de janeiro de 2026

Leila Pinheiro e Eduardo Gudin iluminando a MPB*

Por Edmilson Siqueira


Leila Pinheiro é uma das melhores cantoras do Brasil e tem, em sua trajetória, marcado momentos essenciais da MPB. Um deles, foi o "aniversário" de 30 anos da bossa nova, quando ela se juntou a um dos criadores da própria, Roberto Menescal, e saiu por aí cantando os clássicos daquele que foi o movimento mais internacional que nossa música já teve. Uma dessas andanças, no longínquo início dos anos 1990, foi o Japão. Na volta esteve em Campinas para um show no Centro de Convivência, com Menescal e banda. Almocei com eles à época, cobrindo o evento que estava para o Caderno C do Correio Popular.  
Eduardo Gudin é um desses compositores que não abrem mão de botar o samba em tudo que criam e com um detalhe luxuoso: sempre tem qualidade, seja sozinho ou com um de seus inúmeros e ótimos parceiros. Sua trajetória (hoje ele está com 75 anos) não tem altos e baixos. Se não é um compositor de grandes sucessos, tem permanecido à frente de sua música, fazendo shows e lotando teatros. E continua sendo respeitado por todos aqueles que fazem música e que gostam de música bem-feita. 
O encontro entre Leila Pinheiro e Eduardo Gudin no disco "Pra Iluminar" é, por consequência, um daqueles acontecimentos raros da música popular brasileira que dispensam excessos e apostam na essência.  
Lançado como um trabalho que encontrou os dois em plena maturidade, em 2007, o álbum - gravado ao vivo no Teatro Fecap em São Paulo - reuniu duas trajetórias sólidas que se cruzam em nome da canção bem escrita, da interpretação precisa e de uma estética que valoriza o silêncio, a nuance e a emoção contida. Mais do que um simples disco de cantora e compositor, "Pra Iluminar" se afirma como um exercício de respeito absoluto à música. 
Eduardo Gudin está na parada desde os anos 1970, pertencendo a uma espécie de segunda safra preciosa da MPPB, logo após os festivais que alavancaram a carreira de tanta gente boa.  
Compositor de melodias sofisticadas e harmonias refinadas, sempre teve na parceria com letristas como Paulo César Pinheiro um de seus maiores trunfos. Sua obra carrega influências do samba, da música urbana paulistana e de um lirismo que foge do lugar-comum. Já Leila Pinheiro construiu uma carreira marcada pela elegância interpretativa, pelo domínio técnico e pela capacidade rara de dar nova vida a repertórios consagrados, transitando com naturalidade entre o samba, a MPB e a canção romântica. 
Em "Pra Iluminar", Leila se coloca a serviço das composições de Gudin com a mesma e qualificada entrega que resultou na homenagem aos 30 anos da bossa nova. Sua voz é simples, sem artifícios, limpa, precisa, explorando dinâmicas sutis e respeitando a arquitetura melódica das canções. Não há aqui espaço para exageros interpretativos: cada palavra é dita no tempo exato, cada frase musical respira com naturalidade, reforçando a força poética das letras. 


O repertório, todo de Gudin e parceiros é um dos grandes méritos do álbum. Canções como “Velho Ateu”, “Paulista”, “Verde”, “Mordaça” e a faixa-título revelam diferentes faces de Gudin: o cronista urbano, o lírico introspectivo, o compositor politicamente atento e o melodista de raro equilíbrio. A presença do próprio Eduardo Gudin ao violão e, em alguns momentos, como intérprete, reforça o caráter intimista do disco, criando uma atmosfera quase doméstica, como se o ouvinte estivesse diante de uma roda de música cuidadosamente iluminada. 
Os arranjos seguem a mesma linha de sobriedade. Predominam o violão, o piano e intervenções discretas de outros instrumentos, sempre a favor da canção, destacando o diálogo entre voz e harmonia, permitindo que as composições se revelem em sua plenitude. Detalhe: o disco foge dos modismos e se ancora numa tradição da MPB que valoriza mais a qualidade que fica que a urgência do mercado que desparece no ano seguinte. 
A bela capa do CD, com um folheto muito bem feito, guarda uma surpresa: ao tirar o CD do encaixe, atrás do plástico, há dois textos, ambos falando de Leila. Um é assinado pelo próprio Gudin e, entre outros elogios diz que conheceu Leila no Festival dos Festivais da TV Globo: "Cesar Camargo Mariano, o diretor musical chamou a mim e a Costa Neto para conhecermos a intérprete que defenderia nossa música "Verde", se concordássemos. Colocou uma gravação de "Noturna", de Guinga e Paulo César Pinheiro, canção difícil de cantar. Fiquei absolutamente encantado com a voz que vinha da gravação e tomava conta da sala. Assim conheci o canto de Leila Pinheiro. Perguntei ao Cesar: 'E ela canta samba?' - Aí é com ela mesmo, sabe tudo!'.  
O outro exto é assinado por ninguém menos que Guinga: "Leila: você cantou essa música como a mulher que dá o telefone escrito com baton num guardanapo de papel pois esse era o único meio. Sou amigo e parceiro dessa rapaz franzino e de olhos tão azuis: foi assim que o conheci há 40 anos. Hoje ele usa uma barba de sal e pimenta, ou melhor, de garoa e fumaça. A vida nos colocou sempre muito próximos e íntimos, sendo Leila um elo fortíssimo por ser a principal intérprete das nossas músicas. O farol já vai abrir e apenas uma estrela veio hoje pra invadir, enfim PRA ILUMINAR!!! Gudin, leva ela em casa!!!"
Por essas e outras, ouvir hoje esse disco traz a mesma sensação de conforto e alegria que ele espalhou no seu lançamento. São sambas que dizem muito do universo brasileiro em geral e paulistano em particular.  
E para completar, Leila Pinheiro canta como quem conversa, e Gudin compõe como quem observa o mundo com lucidez e sensibilidade. O resultado é um álbum que convida à escuta atenta, recompensando o ouvinte disposto a desacelerar. 
As músicas do show e do disco são as seguintes: 
"Pra Iluminar" (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto) 
"O Amor E Eu" (Eduardo Gudin) 
"Chorei" (Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin) 
"Mente" (Paulo Vanzolini e Eduardo Gudin) 
"Ainda Mais" (Paulinho da Viola e Eduardo Gudin) 
"Sempre Se Pode Sonhar" (Paulinho da Viola e  Eduardo Gudin) 
"Luzes Da Mesma Luz" (Eduardo Gudin e Sérgio Natureza) 
"O Amor Veio Me Visitar" (Eduardo Gudin e Roberto Riberti) 
"Obrigado" (Eduardo Gudin) 
"Paulista" (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto) 
"Praça 14 Bis" (Eduardo Gudin) 
"Mordaça" (Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin) 
"Verde" (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto) 
"Neo-Brasil" (Eduardo Gudin) 
"Boa Maré" (Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin) 
"Vida Dá" (Eduardo Gudin) 
"Velho Ateu" (Eduardo Gudin e Roberto Riberti) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo a um preço um tanto salgado, mas vale a pena. E pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=rvVOyZdtREI&list=PLrt7VbxNS8rd66UyF_TpEYmeBbGqzYhWx . 

*A pesquisa para este artigo teve auxílio da IA do ChatGPT

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Sem demora

Por Ronaldo Faria

Arnaldo Antunes rola no Xbox: “A casa é sua, porque não chega logo.”

Maria sonha com o passado, revive o presente, espera o futuro noutro lugar só seu entre o cheiro de shopping e pastel num distrito qualquer. Ela, mulher, filha de Iemanjá, com olhos de caramelo, desses que outros olhos quaisquer querem olhar e se entregar, era a vida que nascia e partia a cada dia para brincar de amor e orgia. Com as pernas para a mão do amor amargo ou de afagos tocar e pegar, dirige a recordar cada canto de encanto que o som da brisa traz. “A nossa casa é onde a gente está.”
Linda, com sorriso que ri de tudo como o tempo fosse o intermédio entre o raiar e escurecer, viaja entre areias que recebem das ondas as carícias do mar e um rio que se joga com cores mil a se doar em resplandecer. Assim, em casarios coloridos, mosquiteiros cheios de trançados e luminosidade de sol que se desdobra para a janela adentrar, caminha nas ruas de pequenos cristais brancos a brilharem entre as sombras de coqueirais. Num gole e noutro, uma reza se espraia no outeiro que dorme na praça calada. “A nossa casa é em todo o lugar.”
Na noite que se brinda de beijos e tocar impregnado de aninhos e amor, o lugar prefere o coaxar de rãs e talvez um ou outro ovo a trincar no ninho que habita a árvore defronte. Nas estrelas que se espalham e estraçalham o negror da madrugada, uma ou outra cadente decide se jogar na Terra para ver o casal que se mistura e se envolve e se faz um só. Na solidão inócua e iníqua que ronda o que não rola do lado de fora, o aforismo diz que é hora de parar o mundo. "Chega de tanto girar e passar," pensa. No estanque que enche de saliva qualquer copo antes cheio de qualquer coisa que encha a cabeça, a vida perpetua que ela é somente mulher, nua de nada descrer. “Se assim quiser, quando quiser.” E por fim, consternado, saciado de amor, o relógio do tempo decide quebrar no segundo próximo e se entrega à trégua que a luta contra a saudade traz. No ar, a poesia traz a paz.
 
“Se a gente não sabe se ama
Se a gente não sabe se quer
Não vai saciar essa chama
Se não decifrar o que é
 
Se algo entre nós se insinua
E doce tontura nos traz
O que delicia tortura
E não dá descanso nem paz
 
É que o amor não se dissolve assim
Sem dor
Se não for
Até o fim
 
Se a gente não sabe se ama
E não se decide que quer
A dúvida não desinflama
Enquanto a gente não se der
 
Se algo entre nós se insinua
E não se disfarça sequer
Não dá pra deixar pra outro dia
De outra semana qualquer
 
É que o amor não se dissolve assim
Sem dor
Se não for
Até o fim”
 
(Até o fim – Arnaldo Antunes)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Parafuso difuso

Por Ronaldo Faria


 
No silêncio chorado feito arcanjo que desce do céu, no aguardo de algum milagre no miolo cinza que há entre a garganta e os dentes, Sandoval faz da sua espera a quimera final. Acomodado entre samba e fado, atabalhoado de versos e versículos que nunca leu, ao léu do mundo, quase Quasimodo, era fã de Gil e Caetano, Chico e Noel, Mautner e Tom Zé. Amava ouvir Elis, Bethânia e Gal. Mas, no mundo de tantas músicas muxoxas de agora, fechava os ouvidos sem uma nota dar permissão ou flertava vozes e notas que surgiam quase que em prece e transbordar de reza pra Iemanjá.
-- Pedrinho, tem coisa nova?
-- Você só pode estar de brincadeira. A MPB sempre se renova. Graças à musicalidade que não é só paulista, mineira, pernambucana ou carioca.
-- Aí você me fode. Amante da música em geral, terei de gastar mais milhares de bytes para sorver o tanto que ainda se tem pra descobrir.
-- Não tenho culpa. Da próxima vez, na futura reencarnação, nasça num país monocórdico ou que não tenha veia musical...
-- Não, melhor não. Aí deixaria de escrever e crer que emoção foi feita pra se viver. Manda descer o que tiver de bom! Dinheiro foi feito pra se gastar e ouvidos pra se encantarem de notas e acordas, vozes.
 
(Com outra das centenas de descobertas, Marco Vilane)

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Cool Jazz: uma revolução silenciosa*

Por Edmilson Siqueira



As sessões desse disco foram realizadas entre 1949 e 1950 e, 75 anos depois, ainda servem de referência a novos músicos além, é claro, de ter influenciado mais de uma geração de músicos e compositores de jazz.  
Sem contar que se trata aqui praticamente do nascimento de uma nova escola no jazz, o chamado "cool jazz" que ia além de um estilo musical e introduzia uma mudança profunda de atitude estética dentro do jazz moderno.  
Era um contraste com o virtuosismo explosivo e a densidade rítmica do bebop, que fazia muito amante da música torcer o nariz para aquela profusão de notas e um aparente desespero melódico.  
O cool jazz propôs uma música mais contida, de timbres refinados, arranjos sofisticados e uma expressividade baseada na sutileza, ou seja, tudo que o amante contido de jazz queria.  
E o disco frequentemente associado a esse movimento — muitas vezes chamado genericamente de Cool Jazz — tem como núcleo histórico as gravações reunidas em Birth of the Cool, lideradas por Miles Davis, e conta com a colaboração de figuras fundamentais como Gerry Mulligan, Chet Baker, Lee Konitz, John Lewis e Gil Evans.  
Em 2007, a Verve reuniu num CD, 16 gravações das realizadas entre 1949 e 1950 e lançou com o nome de Coll Jazz. "The Birth of Cool", que foi o disco que fez sucesso,  na verdade, é uma compilação, das sessões de 49/50 e foi lançado em 1957. E 34 anos depois desse lançamento, Gerry Mulligan resolveu revisitar as músicas, reunindo o mesmo pessoal anterior, com exceção de Miles Davis, que cheogu a ser convidado, topou, mas morreu antes. Esse disco, Mulligan chamou de "Re-birth of Cool", já comentado aqui por mim (https://osmusicoolatras.blogspot.com/search?q=gerry). 
As sessões originais representaram um verdadeiro laboratório sonoro como se percebeu depois. Miles Davis, então um jovem trompetista recém-saído da banda de Charlie Parker, buscava uma alternativa ao frenesi do bebop. Sua visão era clara: reduzir a agressividade sonora, explorar novas cores instrumentais e valorizar o espaço entre as notas. Para isso, reuniu um noneto incomum, que incluía instrumentos pouco usuais no jazz da época, como trompa, tuba e sax barítono, criando um conjunto próximo à música de câmara. 
Os arranjos, assinados principalmente por Gil Evans, Gerry Mulligan e John Lewis, foram decisivos. Eles introduziram uma escrita elaborada, inspirada tanto na música erudita europeia quanto nas big bands de Claude Thornhill. O resultado foi um som arejado, equilibrado e profundamente moderno, no qual improvisação e composição coexistem de forma pacífica. 


Ouvir hoje as 16 músicas do disco original (que foram lanças apenas em discos 78 rotações, com uma de cada lado, e não causaram impacto algum), não é, por incrível que pareça, voltar a um passado musical, como aconteceria com qualquer gravação dos anos 1950. É ouvir um som atual que é facilmente encontrado em qualquer lugar do mundo que preze um bom jazz, inclusive nas rádios todas dedicadas ao gênero que proliferam no mundo da internet. Só no meu celular e no computador, devo ter links para mais de 20 rádios de jazz de várias partes do mundo, que, com a tecnologia do bluetooth posso ouvir num equipamento estéreo ou em incríveis fones de ouvido sem fio. 
Voltando ao disco, há que se dizer que Gerry Mulligan teve papel central nesse trabalho. Seu sax barítono, tocado com leveza incomum para o instrumento, ajudou a redefinir seu papel no jazz moderno. Mulligan também se destacou como arranjador, criando estruturas simples, mas engenhosas, que deixavam espaço para a respiração musical. Anos depois, sua parceria com Chet Baker consolidaria ainda mais o espírito cool, especialmente na Costa Oeste dos Estados Unidos. 
Chet Baker, embora não tenha participado das sessões originais do noneto de Miles, tornou-se um dos rostos mais emblemáticos do cool jazz. Seu trompete lírico, de timbre suave e fraseado quase vocal, representava com perfeição o ideal de introspecção e delicadeza do estilo. Baker levou essa estética a um público mais amplo, especialmente ao unir sua música a uma imagem de vulnerabilidade romântica que dialogava com o clima da década de 1950. 
Outro nome fundamental é Lee Konitz, cujo sax alto se afastava deliberadamente da influência de Charlie Parker. Konitz privilegiava linhas melódicas longas, menos ornamentadas e com forte senso de lógica interna. Seu som frio e cerebral tornou-se um dos pilares do cool jazz, demonstrando que a intensidade emocional não dependia do volume ou da velocidade. 
O impacto dessas gravações foi inicialmente discreto. Lançadas originalmente em compactos de 78 rotações, elas não causaram sensação imediata. Foi apenas em 1957, quando a Capitol reuniu o material no LP "Birth of the Cool", que a importância histórica do projeto ficou evidente. O disco passou a ser reconhecido como um marco fundador, influenciando gerações de músicos e abrindo caminho para o desenvolvimento do jazz da Costa Oeste e para abordagens mais híbridas entre jazz e música clássica. Décadas depois, essas gravações continuam soando surpreendentemente atuais.  

As faixas são as seguintes: 
- The Cool One (Benny Golson) 
- Au Bar du Petit Bas (Miles Davis) 
- Harper (Ed Thigpen) 
- I Wish You Love (Chet Baker) 
- What's New (Wes Montgmoery 
- Crackie Hut (Max Roach) 
- Coolie (Dizzy Gilespie) 
- Angel Eyes (Al Cohn-Zoot Sim Quintet) 
- Cleo's Asp (Paul Gonsalves) 
- Serenade in Blue (Stan Getz) 
- The Easy Way (Jimmy Giufree) 
- Snap Crackie (Hoy Haynes Quartet) 
- Foolin' Myself (Lee Konitz) 
- The Gentle Art of Love (Jans Koller) 
- Wintersong (Gerry Mulligan e Paul Desmond) 
- Nuages (Barney Wilen) 

O CD está a venda no Mercado Livre (um só exemplar) e na Amazon. Não encontrei onde ouvi-lo na íntegra. No YouTube há várias gravações, mas do disco lançado em 57 com o título "The Birth of Cool Jazz". 

*A pesquisa para este artigo teve o auxílio da IA do ChatGPT. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Atrasou, atrasou...

Por Ronaldo Faria

 
Jeremias estava atazanado com sua realidade. O senhorio não tinha tido a compaixão de esperar mais uns dias. “Custava ter de aguentar até o fim do mês?” No furdúncio que a cabeça traz quando falta água de cheiro para a sonhada amada ou dinheiro até pra pedir nova pendura na venda do Agenor, ele sofre como bezerro que desmamou. “De que adiantou tanta honestidade? Ser o funcionário do mês nas vendas de rádio de válvula. Atrasa aqui e eu não posso postergar lá?”
-- Jeremias, tem cliente pra comprar! Custa acordar?
A voz do gerente, puxa-saco e lambe-bolas do dono, obriga que o pensar seja esquecido.
-- Pois não, senhor, quer um último tipo que pegue até emissora do mundo afora ou basta a Rádio Nacional?
Venda completa (“o senhor comprou um rádio pra virar o século”), deu a hora. Ponto batido, bonde no horário, motorneiro que se conhece há tempos, ao menos há espaço no banco pra sentar. Devagar, os trilhos trilham o itinerário num tempo que nada era temerário e podia até na madrugada se caminhar. Talvez um batedor de carteira se atrevesse a buscar bolso mais cheio ou guarda de quarteirão novo quisesse saber quem era aquele senhor de terno de caxemira que chegava em tal hora no lugar. Nada além.
-- Boa noite, Seu Jeremias. Que o seu dia tenha sido bom. Mas tenho que dizer que o senhor Carvalho esteve aqui e disse que só espera até depois de amanhã. Se o aluguel não for pago, ele vai pedir o imóvel de volta.
-- Tudo bem, Tazinho. Deixe tudo comigo.
O sono foi difícil de chegar. O recado do porteiro foi tácito, curto e grosso. Alguma saída haveria de ter. Quando a manhã raiou, ainda com olheiras no rosto, comeu o pão dormido de um dia atrás, colocou o terno de sempre, se penteou e saiu a caminhar. O bonde só pegaria se cansasse de andar. A cidade aos poucos acordava, admoestada de ter de viver milhares de vidas em si. Nas ruas, acolhidas de pés ligeiros e gente em constante lição na constelação da eternidade, corpos se cruzam num ir e vir como ovos de frigideira ainda fossem frigir. E eis que numa esquina estava lá o apontador da loteria popular.
-- E aí, Seu Jeremias, vai borboleta ou cachorro na cabeça?
-- Tem chance de dar macaco? Estou assim, pulando de galho em galho na incerteza de chegar nalgum lugar.
-- Se eu soubesse o bicho que daria na milhar, estaria morando em bairro grã-fino, não aqui nesse pasmar. Mas, nunca se sabe. Quanto e em que bicho quer apostar?
Jeremias olha os bolsos quase vazios e decide jogar o que tem. “Que se ferre o almoço. Se der o macaco, me salvo.” A rotina do seu dia foi como se o tempo parasse de vez. O relógio parecia não ajudar. “E a Federal, será que já saiu?” Meio trêmulo de fome, subiu no bonde e pediu pela primeira vez na vida que pudesse pegar carona. “Fazer o quê, Seu Jeremias, todo mundo tem seu dia de penúria. Sobe e senta” – disse o motorneiro. “Vou descer antes, mas obrigado de coração.” 
Desceu como prometido antes do normal. No canto onde o poste postava o resultado a se ver, tinha dado macaco na cabeça, milhar cravada. Um grito sai prosaico e redentor da sua garganta: “Seu Carvalho, vá chupar um caralho!” Com a alma lavada e enxaguada, quarada ao luar, ele soube que sua hora era chegada. No apartamento, abre a geladeira e se delicia do feijão de anteontem como fosse manjar. Bebe água como engolisse champanhe francês. Dorme a ressonar. Quando o sol solicita espaço à lua para brilhar, passa no apontador que o cumprimenta: “Seu Jeremias, deu macaco mesmo. Assim o senhor me quebra a banca!” Feliz a rir feito bobo, passa no senhorio, paga até dois meses adiantados e ainda tem tempo de depositar no Banco do Brasil o muito que restou. Agora, se chegar meia hora atrasado e o gerente reclamar, terá apenas um refrão: “Gastão, você já foi tomar no meio do seu cu? Então, vá!” Demitido até poderia ser, mas com os direitos atrasados garantidos, sairá a cantar o samba que diz que a Praça Onze vai acabar. Em volta, pendurada em galhos, a cidade brilha sem parar.
 
(Ainda com o Trio Macaíba)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Feira do Nordeste

 Por Ronaldo Faria


A feira fervia com sanfoneiro, zabumbeiro e carneiro estrebuchado, o homem a vender sua farinha branquinha e um cachorro deitado na espera do naco de sebo chegar. As barracas, cobertas com um toldo carcomido pelo sol inclemente, tinham desde querosene pra lampião a vestido de corte bonito para aquele que quisesse sua amada presentear. Beiju, bolacha meia lua, tapioca da melhor. Chapéu e sandália de couro, bolo de milho, artesanato de barro. Na praça diante da igreja que todos juravam de pé junto ter sido parada de Padrinho Cícero Romão Batista, o povo se misturava e achegava juntinho pra ver o cará, a jerimum, pitomba e cana cortada no palito. No ar, o cheiro gostoso de carne de sol se misturava com a água de colônia que as mulheres mais lindas faziam soprar ao vento no ar. Foi ali, nesse mundo de cores e louvores, que Zé Longuinho, vaqueiro de costão, viu Filomena, derradeira filha do comerciante de terras João da Inês. Pele esturricada do sol, com olhos que lembravam os melhores dias da mata verde, sorriso de dentes a brilhar nas estradas atrás de boi fugido, foi ver a donzela e logo decidiu: “É ali que vou chegar depois de toda vaquejada poder achegar”.
-- Desculpe a ousadia, mas posso acompanhar a senhorita nessa feira?
A chegada tinha sido rápida e assustou Filomena. De beleza que nem o melhor escultor grego saberia descrever ou em mármore fazer, quem há pouco deixara de ser menina a brincar com bonecas de pano, ela mal soube responder. Mas, com um sorriso de orvalho na rosa, pôde murmurar “pode ser”. No meio de brocados, bocados de castanha de caju, bandejas de jaca, mangaba e umbu, os dois trocaram olhares, pouco falaram e outro menos disseram na pisada pelo chão de pedras calçadas.
-- Meu nome é José Ramalho, mas me conhecem como Zé Longuinho. Sou vaqueiro da fazenda Murta Velha.
-- Prazer. Sou Filomena. Estudo magistério e vou dar aula no grupo escolar pra alfabetizar os pequenos.
-- Nossa, uma professora! Coisa linda. Alguém que sabe os outros ensinar a soletrar.
-- É verdade. É bom poder abrir os caminhos do futuro através de uma cartilha.
-- Tenho a certeza de que se tivesse uma professora como você na minha infância, saberia agora ler e escrever de tudo. Até cordel iria fazer...
Filomena riu com o jeito simplório do vaqueiro, quase feito seu avô Tenório. Mas, ao menos, ele era verdadeiro. "Mas minha vontade mesmo é me mudar para a capital, fazer faculdade de Letras".
Aquela frase mexeu com Zé Longuinho. “Como assim, nem aprumei nossa vida e ela já vai me deixar?” - pensou com tristeza no peito.
-- Quem bom. Mas vai assim, sozinha? A capital é lugar perigoso pra moças como você.
-- Qual nada. Tenho parente lá. Depois, quem sabe, viro diretora escolar.
O pobre boiadeiro, que trocara as cadeiras do grupo escolar pela roça de milho e depois pelo cavalgar na caatinga num alazão, sabia que nenhum oitão iria trazer sombra para aquele amor.
-- Filomena, lembrei agora que tenho uns bezerros para apartar das mães. Te vejo depois?
-- Pode ser, quase todo o domingo eu estou aqui, para comprar e, como vê, prosear.
-- Então está tudo bom. Até mais ver qualquer hora. E desculpe o atrevimento, mas a senhorita é formosa.
Filomena se despediu dele com um sorriso de pasta de dente e aceno tímido. Quando dobrou a esquina que dava para o rumo e prumo do estradão, ele deu de chorar feito menino que perde seu primeiro dente. Excomungou a pobreza que o deixou ser o que é, pensou que se fosse doutor, desses de bata ou canudo, poderia Filomena conquistar. Mas, como amar uma professora que ainda por cima iria fazer a tal de faculdade. Com o cavalo arfando e suando em meio à poeira e o tempo que jogava calor ao derredor, sua dor plantava raízes de nostalgia num terreno que há muito nem coaxava jia. 
Quando a lua já brilhava branca no céu limpo de nuvem de chuva, chegou ao casebre que acreditou pudesse ter Filomena. Mas, hora vejam só, o lugar estava vazio. Sentou no tamborete, bebeu algumas doses de pinga e deitou na rede pra dormir. No cochilo gostoso que o cansaço dá ao corpo torpe e entregue a um deus romano que nunca saberá sequer o nome, Zé Longuinho sonhou com a amada que nunca viria a entrar pela porta de tramela e vela na sala de pau a pique a queimar. No seu sonho bisonho a quem não sabe o que deve sonhar, lá estava ela: linda, lívida, da cor de um branco igual ao vestido, a dizer que, na capelinha da fazenda, seria sua mulher na vida e na pobreza. Num sorriso que no negrume da noite ninguém vê e só a coruja sabe despertar ao piar, ele por fim é feliz em viver.
 
(Com Trio Macaíba)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Cartaz diz tudo

 Por Ronaldo Faria


O cartaz era bem claro: se for mijar, mire; se for cagar, não tem papel. Pra bom entendedor, mesmo bêbado ou diarreico, estava bem mais do que claro. Era só cumprir o dito. Afinal, como diz o ditado, combinado não é caro. Mas Beraldo, bebum de tradição, estava naqueles dias em que o corpo do umbigo pra baixo não atendia os ditames do cérebro para dentro. “E agora eu faço o quê? Me limpar como, se nem guardanapo trouxe?” (Ps.: guardanapo nas mesas não existia por lá). No boteco, de fora do quadrado em questão, a fila nunca tardia da bexiga esvaziar aumentava cada minuto mais. O mais carente ou apertado da vez, diante da porta do banheiro fechada, batia nela frenético. “Caralho, vai dormir aí?” Beraldo, na sina que determina se a vontade morre naquela hora ou faz logo tudo de vez, sua em cântaros. No termômetro do celular faz, porém, 15 frios graus.
-- Já vai, cacete! Calma! Aqui não é fila do INSS. Dá pra esperar um pouco mais...
Do lado de fora do pequeno cubículo de excrementos, os urros aumentam a cada apertar de pernas dos que esperam para não desandar calças e bermudas a vazar. No interior do 1x1, Beraldo beirava o cúmulo de fazer voltar ao estômago o que queria simplesmente sair e descer. Da cozinha, o cheiro desmedido de torresmo só fazia a vontade de evacuar aumentar. “Meu Oxalá, não se esquece de mim. Se a merda descer, só se for com a camisa para me limpar.” No cume da espada que corta pra que lado tiver de cair, ele desaba mesmo a contragosto no esgoto que tem logo depois da descarga ativar. “E agora, saio daqui borrado ou não?” No limite entre um pedaço de folha de madeira e o que há depois da porta, os clientes vociferam tresloucados: “Seu cuzão, vai sair ou não?”
Sem ter como fazer a cera de goleiro em jogo zero a zero no campo do adversário, Beraldo decide sair, só de bermuda. A camiseta agora estava “guardada” em algum lugar na descarga do lado, depois e abaixo da privada. “Que calor do cacete está fazendo. Sem camisa já está foda. Assim a humanidade vai morrer no inferno a queimar”, proferiu exultante.
Pediu a conta ao Gervásio, gerente do bar, e saiu rapidinho do lugar. “Ainda bem que aqui é raiz e não tem câmera de vídeo”, sentenciou na rara esperança vulgar. Mas, ledo engano, o prefeito que buscava reeleição tinha enchido a cidade de espiões da vida alheia para melhor arrecadar. Ele foi pego no flagra atrasado e filmado quando a companhia municipal responsável foi chamada para desentupir a rede de esgoto e descobriu uma camisa branca "pintada" de marrom. Identificado e multado, só então Beraldo decidiu que era hora de escolher finalmente: ou iria beber num lugar que incluía papel higiênico no cardápio ou virava ermitão sem direito a mesas mais transitar. A resposta, como diria o caipira, nem por bosta qualquer um saberia responder...

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Era uma vez

Por Ronaldo Faria


Era uma vez... 
O sonho de Claudionor era começar um texto assim: "Era uma vez". Mas, no redor em derredor a roda de samba rodeava sem parar. Tudo era restrito a sorrisos, balanços, remelexos, paixões desvariadas, veleidades. O importante, nesse instante, era o tanto entre a realidade e a instantaneidade. Enfim, no fim da perfídia inaudita e a desdita, a dor de Claudionor era mistura de repenique, reco-reco, cuíca. Desfile sem avenida.
Mas era uma vez. Outra vez. Nas oitivas que nenhum carteiro leva mais, letras se misturam nas vozes que cantam e decantam mililitros em mil pesares. Saudades e amores bastardos, passado repassado, transpassado de histórias e memórias. Nas góticas e utópicas, quiçá eufóricas transitórias glórias, as volúpias se volatizam em borbulhas que sobem nos copos em goles de cerveja e prosaica mansidão. Feito um Zé do Caroço.
Para Claudionor, DJ de mesa de bar, com músicas que remontam o tempo em que o tempo montava casais em beijos abraçados num mela-cueca sem parar, o importante era o momento do porvir que ainda estava por vir. Senão, o aplauso de boêmios sedentos de falar enquanto houver algo a dizer. Na estrada fatídica sem volta ou ida, desalinho de vidas em trôpegas desandanças do par que há muito ficou no topo.
Mas, como para tudo há uma vez, seja no colar da tez à amada declarada ou não, importante para Claudionor era relembrar Madalena, sua flor de açucena. Linda, imemorável, flor de um jardim que nem precisa se plantar para colher. “Traz outra gelada que nem essa aqui.” Na mesa, ensimesmado de viver, ele vê o tempo passar rápido com mosquito no copo, palito no prato e o mundo acelerar feito louco para entregar a pizza fria. Afinal, era uma vez.
 
(Com Samba de Raiz)

domingo, 4 de janeiro de 2026

Dizzy e a UNO*

Por Edmilson Siqueira


Quando Dizzy Gillespie idealizou a United Nations Orchestra, no fim dos anos 1980, ele não estava apenas montando mais um grupo: estava formalizando, em escala global, uma visão que sempre guiou sua obra. Desde os tempos do bebop, Gillespie via o jazz como uma linguagem aberta, permeável, capaz de dialogar com culturas diversas sem perder identidade. A United Nations Orchestra foi a materialização mais ambiciosa dessa filosofia. 
Criada em 1988, a orquestra reunia músicos de diferentes países: artistas da América Latina, do Caribe, da África, da Europa e dos Estados Unidos dividiam o palco sob a liderança carismática e musicalmente generosa de Dizzy. O grupo não tinha uma formação fixa, mas mantinha como princípio básico a convivência entre o jazz moderno e ritmos tradicionais — samba, rumba, calipso, afro-cubano, baião, entre outros. 
O repertório refletia essa proposta multicultural. Clássicos do próprio Gillespie, como “A Night in Tunisia”, surgiam reinventados por novas camadas rítmicas e tímbricas, enquanto composições originais de membros da orquestra ganhavam espaço ao lado de temas tradicionais rearranjados. A música não era uma simples fusão superficial, mas um diálogo profundo, construído a partir do respeito às especificidades de cada tradição. 
Do ponto de vista estético, a United Nations Orchestra representou um estágio avançado do jazz como música global. Diferente das experiências afro-cubanas das décadas de 1940 e 1950 — das quais o próprio Dizzy foi pioneiro —, aqui o escopo era mais amplo e menos centrado em um único eixo cultural. A improvisação jazzística funcionava como elo comum, enquanto as estruturas rítmicas e melódicas variavam de acordo com a origem de cada peça. 
Politicamente, o projeto também carregava significado. Em plena transição do mundo pós-Guerra Fria, Gillespie propunha uma metáfora sonora de convivência internacional. O nome “United Nations Orchestra” não era retórico: a banda encarnava a ideia de cooperação entre povos por meio da arte, sem barreiras culturais impostas. 
Os registros ao vivo do grupo revelam uma música vibrante, festiva, mas também sofisticada. O virtuosismo nunca se impõe como exibicionismo; ele serve à coletividade. Dizzy, já veterano, atua mais como maestro e catalisador do que como solista dominante, abrindo espaço para que novas vozes se afirmem. 
Assim, a United Nations Orchestra pode ser vista como o testamento artístico de Dizzy Gillespie. Mais do que um projeto musical, foi uma afirmação ética e estética: o jazz como território de encontro, troca e celebração da diversidade humana. 
O disco foi gravado ao vivo no Royal Festival Hall, em Londres, um local que tive prazer de conhecer em 2001, quando eu e o local estávamos comemorando 50 anos. Comprei até uma blusa polo com o escudo do Royal e sua data de fundação.  


A abertura se dá com "Tin Tin Deo" (Dizzy Gillespie, Gil Fuller e Chano Pozo), uma mistura do som das grandes orquestras de jazz norte-americanas com o ritmo latino. Muito metal e percussão completam o ambiente. 
A faixa seguinte traz "Seresta", de Paquito D’Rivera, nosso velho conhecido por aqui, introduzido pelo próprio Dizzy. Com seu clarinete ele inicia o que se parece mais uma valsa, bem ao estilo das antigas serestas brasileiras. A música encanta a plateia que aplaude no meio dela, logo após os primeiros solos de Paquito. 
Apesar do nome, "Samba for Carmen" (Paquito D’Rivera e Hank Levy), a terceira faixa mais se assemelha a uma rumba ou algo parecido. É bonita, bem interpretada - e possivelmente uma homenagem à nossa Carmem Miranda - mas não é o que conhecemos aqui por samba.  
A quarta faixa, "And Then She Stopped" (Dizzy Gillespie), se inicia com forte solo de bateria e nos introduz o talento e a qualidade de Flora Purim, num scat sensacional. É a melhor- e a mais longa - faixa do disco. 
A seguir, Dizzy apresenta sua própria música, "Tanga". Com uma introdução mais lenta, a flauta prepara o ambiente para Dizzy entrar com seu trompete dando o tom e o ritmo que a música assume a partir dali. Destaque para os grandes rompantes da turma do sopro.  
"Kush" (Dizzy Gillespie), se inicia com um soturno solo de trombone, com alguma percussão, dialogando com o trompete por longos 3 minutos e 20 segundos. Só então a orquestra toda adere e o que se tem é um som típico das noites cubanas. 
O clássico "A Night in Tunisia" (Dizzy Gillespie & Frank Paparelli) encerra o disco, com orquestra toda mostrando seus vários talentos. Talentos esses listado abaixo para que se perceba a razão da orquestra ter o nome de Nações Unidas. 
Dizzy Gillespie—trompete 
Claudio Roditi – trompete, percussão 
Arturo Sandoval – trompete, flugelhorn, piccolo trumpet 
Slide Hampton – trombone, arranjador 
Steve Turre – trombone, bass trombone, shells 
Paquito D'Rivera – alto saxofone, clarinete, percussão 
James Moody – alto saxofone, tenor saxofone, flauta, percussão 
Mario Rivera – tenor saxofone, soprano saxofone, percussão 
John Lee – contrabaixo 
Ed Cherry – guitarra 
Danilo Pérez – piano 
Flora Purim – vocal 
Ignacio Berroa – bateria, percussão 
Airto Moreira – percussão, bateria 
Giovanni Hidalgo – percussão, congas 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e há vídeos no YouTube da apresentação em Londres, maiores até que o disco comentado aqui. Um deles é esse: https://www.youtube.com/watch?v=M9ZCgC81kII 

*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Na viola que chora

Por Ronaldo Faria


A viola rola solta no drama e na trama. Sebastião tinha perdido o amor de Sebastiana. Numa quermesse da igreja que buscava recuperar as imagens cagadas pelos morcegos pagãos, os dois tinham esquecido tanto amor premido e sem prêmios na pescaria que resolveram terminar. Quer dizer, ela quis acabar. Dependesse do homem criado no mais recôndito quinhão, eles teriam uma ruma de oito filhos, fora os paridos e entregues nascituros às covas rasas do sertão. Mas Sebastião, sem querer, tinha dado os olhos à prenda que a moça de vestido de chita acabara de receber. Morena, de cabelos cor de carvão, seios fartos e olhar que brilhava mais do que o lampião a gás de seu avô, ela chamava a atenção do lugar. Sebastiana era seu amor primeiro e derradeiro, como a menina estradeira que sorri no trote escaldante da boiada levar.
-- Gostou dela? Tá livre pra ficar! Nem precisa mais me procurar...
-- Meu amor, só estava a olhar a barraca pra poder jogar e te dar um presente.
-- Bastião, você nunca soube mentir. Deixa que o caminho da minha casa eu sei seguir.
Largado no meio de tanta gente, o homem que tanto aboiou gado nos pastos e antepastos da vida estava solitário como fosse padre sem sacrário ou ofício. Olhou as poucas luzes que brilhavam nos postes, promessa do coronel e prefeito às hostes, e viu apenas negror infindo. Sem Sebastiana ele era nada ou, como diria o poeta, um só doidivanas. A morena que tinha perpetrado a cena já sumira entre a barraca de pamonha e a de bolas na boca do palhaço pintado sem verniz.
-- Como assim? Amor se derrama ao léu sob o céu de fim de dia?
Ainda sem todos os dentes que o protético ficou de arrumar, perdidos no coice de um boi que fugiu mata a dentro, ele tinha medo de se entregar. Para Sebastião, Bastião aos íntimos que podia ver falar no sangue, decide largar a feira e seguir no adiante que o desencontro lhe deu. Solitário, acabrunhado e sem tradução que nem o tempo ajeita, pega a trilha cercada de mato vivo e coruja piando sua senda. Passa por casebres onde uma vela revela que há gente a viver ou amar, pisa pedriscos e areia, serpenteia para não pisar na serpente que atravessa o lumiar. E assim, entre o não e o sim que a história dá, brinca de fugir de si e voltar aos abraços de Sebastiana. A colocar seu corpo sedento de amor a encher cacimbas na espera de chegar. E depois, no após da póstuma tristeza morta de ver os lábios molhados de amar, poder dormir no acalanto calado de se recriar.
-- Boa noite, compadre Bastião. Vai tomar a saideira aqui na venda antes de fechar?
-- Com certeza, Esmeraldo. Manda logo duas pingas que é pra emborcar.
Em volta, no revoar de revolta das abelhas africanas que buscam novo canto pra fugir do fogo que o agregado das terras do senhor coloca, o barulho de asas contrasta com o silêncio que nem o vento pífio vai fazer ir embora. Agora, refeito feito pinto que sai do ovo para poder viver, Sebastião olha em volta e tem vontade só de chorar. Mas relembra da morena que passa feito cadenas que aprisionaram seu olhar. Fora apenas penduricalho, desses que se larga logo depois de colocado no peito.
-- Esmeraldo, pendura pra mim. Até o final do mês recebo o vale do patrão.
Mais um pouco e chega sua casa. Cansado, consternado, rasgado de coração, dorme logo, quando o sapo ainda coaxava sem ninguém a lhe jogar sal. Quando o galo que desperta ao sol primeiro canta ligeiro, numa sinfonia vadia, Sebastião acorda. Lava o rosto, põe o gibão e toma o rumo do curral. Sela o cavalo que tinha dormido sem ir à festa do santo, cai na estrada e busca esquecer a dor que incha sua cabeça de resto de álcool como passaporte. Na praça que antes era somente juntado de gente, dois bêbados dormem nos bancos de cimento. No derredor não há, porém, lamento. Na frente da casa, Sebastiana abre a janela. Num sorriso de talvez arrependida dá esperanças ao amor eterno. Sebastião depressa desce do alazão. A beata que seguia para missa primeira do dia preferiu esconder os olhos no guarda-chuva preto a ver dois corpos copulando na rua como fossem animais no cio que nem espelho d’água sabe mirar. No realejo, o periquito despenado tira a sorte que diz que a felicidade terá, por fim, seu lugar.
 
(Com Almir Sater)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

No blog em 31 de dezembro de 2025

Por Ronaldo Faria


 
É réveillon. Mais um, mesmo mais de um ano à frente no tempo. Para Marina e Fulgêncio, tanto fazia como tanto faz ou jaz. Estão em Copacabana, como fosse ali início e fim de um drama. Na trama, enfisema e muita cana.
-- Logo mais será 2026. Você imaginou que a gente ia chegar aqui?
-- De verdade?
-- Claro...
-- Sonhava há muito com esse momento, mas não achava que fosse rolar.
-- Como assim?
-- É que o tempo foge da gente como rato de gato ou chuva de capim.
-- Bobo...
De branco lívido, limpo e travestido de sânscrito, milhares de pessoas enchem de areia a noite à espera de nova sangria. Alguns provavelmente não chegarão ao fim dos próximos 365 dias, mas isso agora pouco importa. É hora de fechar a porta do passado e presente e sonhar com um futuro premente. Desses que Jorge Mautner canta como regente.
-- E o que prevemos para logo mais?
-- Fogos, show da virada?
-- Não tontinho, nosso juntar pra sempre.
Marina e Fulgêncio, extremos na ilusão e na realidade, rasgados de paixão e regados de canção que ecoa do coração, eram um casal que Cazuza já havia dito que se conheceram na maternidade. Daí para se juntarem à eternidade faltava só quizumba que não há santo que tire da macumba.
-- Foi difícil ficar tanto tempo sem você.
-- Difícil, foi foda. Sem poder foder.
-- Mas agora acabou esse espaço sem passo junto.
-- E já não era sem tempo...
No palco, a atração principal de quase 2026 canta em altos brados. Mas querer que saibamos como será depois da virada destrambelhada é reviver João Bidu ou Omar Cardoso. Ou seja, engodo. Seja quem for, que suprima a dor. Mas o cantor está nas paradas de sucessos e vai encher o bolso de grana na nova chegada de ano. Ao casal, o normal.
-- Me dá um beijo?
-- Só um?
-- Não. Muitos daqueles que só a gente sabe dar...
O barulho de fogos e rojões, taças de plástico de champanhe ou cidreiras baratas a se baterem, flashes de celulares e gritos de boas-vindas infindas parecem não existir mais. Marina e Fulgêncio estão entregues a outro mundo, profuso e confuso, que mistura juras e promessas. Em mesclas de luzes que fundem novo chegar astronômico e outro calendário a mandar, são um só interligados de orgia própria em que nada mais faz sintonia. No mundo deles, ligado por mares e rios, a correr no oceano que se diz de janeiro, apenas um par dança no terreiro. Em casa de ferreiro, enfim, o espeto une línguas e sal.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sinatra–Basie: o primeiro encontro*

 Por Edmilson Siqueira


Juntar dois gênios da música num estúdio, como aconteceu em 1963 com Frank Sinatra e Count Basie não foi apenas uma boa ideia. Mesmo que fossem duas boas ideias (eles gravaram 20 músicas que resultaram em dois LPs) ainda assim, seria muito mais. 
Pois a parceria entre dois pilares absolutos da música popular norte-americana resultou em um de seus momentos mais luminosos.  Lançado no auge da maturidade artística de ambos, o disco revela a confluência entre a sofisticação das grandes orquestras de jazz e a precisão interpretativa de um dos maiores cantores populares que o mundo já ouviu.  
Em 1964, Sinatra e Basie gravaram um último álbum de estúdio, "It Might as Well Be Swing", com orquestração de Quincy Jones, e o primeiro álbum ao vivo de Sinatra, Sinatra at the Sands (1966), contou com a banda de Basie. Na verdade, então, foram três os encontros entre o cantor e o maestro, sendo o último deles ao vivo. 
Mas este artigo é sobre o primeiro disco, reproduzido em 2011 em CD com as dez músicas do primeiro LP. 
Gravado pela Reprise Records, a produção encontrou Sinatra em um momento particularmente fértil. Já tinha seu próprio estúdio, com liberdade criativa e cercado de colaboradores da mais alta estatura. Assim, ele pode explorar um repertório que combina standards consagrados e canções menos gravadas. 
Já a orquestra de Basie vive, no início da década de 1960, um renascimento artístico: rejuvenescida, compacta, com precisão rítmica quase metronômica, mas jamais burocrática, ela oferece o tipo de base ideal para um vocalista que dependia tanto da respiração do swing quanto da expressividade textual. 
Os arranjos são de Neal Hefti, cuja contribuição é também decisiva para a qualidade do disco. Admirado como trompetista e compositor no círculo do jazz moderno, ele se revelara também um arranjador de rara inteligência orquestral, dono de uma escrita que favorece a clareza, o balanço e a conversação musical entre seções. Em Sinatra-Basie, Hefti evita grandiloquências e abraça a vitalidade da big band, construindo arranjos que evidenciam tanto a qualidade e o talento vocal de Sinatra quanto a inspirada participação da orquestra de Basie.  
Logo na abertura, “Pennies from Heaven”, ouve-se a síntese dessa estética: a leveza dançante, o fraseado impecável e uma sonoridade ampla, mas nunca pesada. Sinatra canta como se flutuasse sobre a orquestra, encontrando espaços entre os sopros e linhas de contrabaixo, moldando cada verso como um diálogo entre a voz e os sons orquestrais. 

 
Um dos aspectos mais notáveis do álbum é a contenção expressiva. Diferentemente de gravações mais dramáticas de Sinatra, como aquelas que realizou com Nelson Riddle, aqui o foco é o swing, a conversa musical, a leveza do gesto. Isso não significa superficialidade: ao contrário, a interpretação do cantor é profundamente madura, construída com economia de recursos, pequenas inflexões e a famosa dicção cristalina que transformava cada palavra em gesto emocional. 
Segundo a crítica especializada, o álbum também representa um encontro simbólico entre duas escolas da música americana. Sinatra vinha do universo das canções populares, do teatro musical, das orquestras de rádio e das gravações luxuosas de Hollywood. Basie, da tradição do swing e do jazz afro-americano, das noites de Kansas City, do improviso e da energia contagiante das big bands. Em Sinatra-Basie, essas duas linhagens se encontram perfeitamente: o glamour e o fraseado vocal sofisticado convivem com o swing mais orgânico do jazz clássico. 
O resultado é um marco discográfico que atravessa décadas com frescor intacto. O álbum soa moderno ainda hoje, talvez porque Hefti, Basie e Sinatra compreenderam que a elegância é, por si só, uma forma de modernidade. Não há modismos nem maneirismos no projeto: há precisão e talento. Para o ouvinte contemporâneo, permanece um documento raro de entendimento artístico mútuo — uma aula de musicalidade que continua a valer com a mesma qualidade de 1963. 
As faixas: 
"Pennies from Heaven" (Arthur Johnston, Johnny Burke)  
"Please Be Kind" (Saul Chaplin, Sammy Cahn)  
"(Love Is) The Tender Trap" (Cahn, Jimmy Van Heusen) 
"Looking at the World Through Rose Colored Glasses" (Jimmy Steiger, Tommy Mailie) 
"My Kind of Girl" (Leslie Bricusse) 
"I Only Have Eyes for You" (Harry Warren, Al Dubin) 
"Nice Work If You Can Get It" (George Gershwin, Ira Gershwin) 
"Learnin' the Blues" (Dolores Vicki Silvers) 
"I'm Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter" (Fred Ahlert, Joe Young) 
"I Won't Dance" (Jerome Kern, Jimmy McHugh, Oscar Hammerstein II, Dorothy Fields, Otto Harbach) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no Spotify e no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=lQbH0mVvOYg. 

*A pesquisa para este artigo teve o auxílio da IA do ChatGPT. 


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Reencontro sem ponto

Por Ronaldo Faria


A volta foi rápida, quase bucólica não estivesse ela com cólicas. Há muito não se viam. Feito viajantes ultramarinos, quase moribundos do último naufrágio tão frágil como tarde no sofá sem pipoca ou Doritos, bombom envolto em dourado, se tocaram e se entocaram na própria magia. Ele tinha feito gastronomia e ela filosofia. Estavam mais velhos. Um ou outro fio de cabelo se escabelava branco nas madeixas entregues à brisa frugal. Mas a luz curta e lúgubre parecia cena de Hollywood, com penumbra que esconde as profusas e difusas quirelas de amor que brilhavam entre os dentes.
-- Saudade...
-- Eu também, muita. Daqui até o sol.
-- Saudade do teu gosto.
Isso posto, na visita que não houve no novo morar, rostos se juntam postos em gostos antigos, cheiros de narizes a respirar aquilo que o outro trazia de seus pulmões em aflitos desejos de estrelas que buscam a negritude do universo irreal para brilhar. E tocaram a pele em pernas e orgias, sorriram em harmonia de Carnaval e redescobriram que o tempo viaja na contramão se assim se quiser. Amantes de anos muitos que correram décadas e lugares, nas terras e mares, sabiam que a ilusão percorre mundos e fundos para se fazer realidade, seja em qual idade for.
-- E aí, novidades?
-- Muitas e poucas, coisas preenchidas e outras ocas.
-- Eu também.
-- Garçom, outro chopp.
No derredor, a casa de pastel descansa de tanto fritar massas e sabores. Os odores sem as dores reminiscentes ficam pra depois. Na rua, em raios que chegam em profusão para qualquer confusão, mental ou real, a luz absorve o momento e se sorve de línguas e desejos como cata-ventos na tempestade de unguentos nunca práticos para fechar feridas tardias. Nalgum lugar, copos de cerveja transbordarão a borbulhar. Risos chegarão para rodear o lugar, mãos se entrelaçarão no insólito perguntar: “É aqui?” Na resposta trêmula e triste, a querer bis, “acho que é”. Logo mais, sem a certeza de saber se pé roça barriga ou umbigo serve de depositário de língua, ambos são corpo transeunte e pedinte por mais a bailar, desses que erram seu chegar. No luar que desabrocha do céu, algum rebelde querubim a tudo vê, se esbalda de alegria e diz que sim. A trama, refeita, chegou ao fim.
 
(Com Artur Verocai)

sábado, 27 de dezembro de 2025

Dúvidas em dívidas dadivosas

Por Ronaldo Faria


Dúvida. Quem entrará pela porta feito amante sedenta de beijos ou o agiota a cobrar seu espaço no lar? O que sairá do plantio da horta? Quem dançará a derradeira dança em mi bemol num semitom abaixo de mi e um semitom acima de ré? De onde sairá o grito derradeiro do sorriso brejeiro que não está aqui? O vento valsará entre as frestas da janela ou se largará nas festas que rolam na madrugada do amanhã? Nas ruas boiarão almas rumo às sarjetas que correm no asfalto infausto ou pássaros se aninharão na árvore que desabrocha a primavera? Na dúvida dadivosa que divide dramas e dogmas, o pó ao pó.
Marcelo caminhava no asfalto como andasse nas estrelas. Centelhas de fuligem desciam na avenida. Fria, quase frígida de si mesma, a madrugada se trajava de história e the end, num quase fim. No vento que volteia silencioso e cioso de atrapalhar o destino, há espaço que junta pés descalços e cadarço desatado. Há ainda a frágil monotonia que a diáspora faz levar - leve e iluminada de olhares fugazes. Em tudo isso, ele atravessa em versos o tempo que corre nos ponteiros do relógio em quiproquó desde que a humanidade deixou de viver sob a umidade de não ter um telhado pra dormir.
À frente, na infausta história que nem Fausto escreveria igual, Marcelo se pergunta agora se vale a pena viver. Na manhã de ontem, já outrora para o nada eterno, ele acreditava que sim. Afinal, se era para estar aqui, que fosse da forma que fosse. Mas, nesse momento, na avenida premida e espremida entre calçadas e concubinas, a resposta já era dúvida encravada de vozes ao longe e latidos feito grunhidos. Na sentença que se escrevia na junção de íris e lunares pesadelos, ele seguia a beirar a guia da calçada. Bem melhor do que aqueles que descansavam à eternidade nos campos santos cheios de ateus e seres bestiais, ao menos Marcelo conseguia seguir sem cão de guia. Ainda. “Senhor, quer comprar um churros de chocolate?” Ele não ouve o vendedor que parece vendilhão de açúcar e dor. Segue rumo ao prumo que visualizou. Na sua cabeça, torrentes de saudades correm nos dormentes do trem da felicidade que descarrilhou na última esquina. Entre mortos e feridos, corroem feito gritos ardidos nos poucos toscos que se salvaram...
 
(A ouvir João Cavalcanti e Marcelo Caldi)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Obrigado Melodia

Por Ronaldo Faria


Aprender ou ser? A pergunta pergunta e assunta o momento momentâneo e instantâneo da noite transversa em versículos de questiúnculas ínfimas de viver e sofrer. E vamos por lá para grunhir horrores internos ou nos fazermos arrefecer.

Chick Corea e Lionel Hamptom: encontro histórico

Por Edmilson Siqueira Chick Corea ainda não tinha 30 anos quando fez um show ao vivo em Cannes, no Theatre du Casino. na França, durante o M...