quinta-feira, 11 de junho de 2026

Não morre, mouse

Por Ronaldo Faria


O medo de Gumercindo era de que o mouse morresse no meio da escrita. “Carregado por entrada USB no computador, quando vai apitar pra recarregar?” A tal de tecnologia paria tantas coisas que era difícil acompanhar toda a evolução. Morando numa casa pequena de quatro cômodos com seu gato Basílio que ronrona no sofá degastado de tanto uso, ele ao menos sabia que o e-mail para Maria não devia ser longo. “E agora, coloco durma bem ou acorde bem?” Essa dúvida sem dúvida era primordial para detalhar seu desejo de mostrar o sentimento vivo mesmo na ausência. “Que se foda, coloco durma bem e acorde melhor...”
Heroico na sua decisão, bebe mais um gole de refrigerante comprado na promoção do supermercado. “Agora mandei bem. O que você achou, Basílio?” O gato sequer se mexe. Se entendesse a pergunta, talvez tivesse mandado um “vai tomar no meio do seu cu, bundão!” Mas o silêncio e a petrificação do felino parecem ser a aceitação que desejava. Para ele, agora Maria iria responder. “Tudo bem que mandei uns tantos antes, sem sucesso. Mas esse de agora vai mexer e remexer com o seu coração”, pensou.
Na rua defronte de sua casa, esquina de algo incomum e nada, a chuva caía amiúde. Uma ou outra pessoa, com seus guarda-chuvas ou sombrinhas abertos a amenizar pingos tardios, passava rápido. Na janela de Gumercindo a cena encenava quase nada. Seu mundo era quarto, sala, cozinha e banheiro. As janelas eram mero apêndice que algum arquiteto pensou. “E agora, espero a resposta acordado ou vou dormir e ter uma surpresa de manhã?” A dúvida, ávida de fim, povoava sua cabeça vazia e cheia de perguntas e falsas respostas, todas postas e findas. “O que você acha, Basílio?” O bichano, orando ao Deus dos animais para mandar um raio que fulmine seu tutor, sequer move um cílio ao não olhar. “Prostração é sim! Obrigado, Basílio!”
E assim ao tempo corre no relógio. A Terra dá mil giros sobre seu próprio eixo No desleixo com que cuida da sua casa, o mundo do sonhador chama novas baratas para morar. Mas Gumercindo, no infindo desejo de ser feliz, fica insone ao sono solene e prenhe de nascer. “São quatro e meia da manhã. Acho que ela ainda deve estar dormindo. Meu instinto diz que sim. Acho que vou dormir também. Mas e se ela for insone igualmente? Se o despertador foi colocado pra logo mais?” 
Gumercindo toma outra xícara de café. Dois bules já se esgotaram. Sem paciência pra viver junto a tanta demência, Basílio aproveita que há um buraco no teto e foge pra rua: “Ninguém merece esse bosta do lado. Fui”, sentenciou o felino. Cafeinado além da conta, o homem sequer se dá conta que o gato sumiu. Na sua mão o mouse pifa sem carga. Mas qual, ele nem sequer atenta para o detalhe. Seus olhos estão fixos no computador. No muro que divide sua casa do vizinho, Basílio manda ver com a gata preta e branca que vive em algum lugar desse mundão sem fim ou final. No mundo animal, a tecnologia ou a inteligência artificial são um mundo que não se cria em nenhum perfil. Na casa, desconsolado com o silêncio cibernético de Maria, Gumercindo dorme o sono dos injustos.

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