terça-feira, 9 de junho de 2026

No ácido

 Por Ronaldo Faria


 
-- Perácio, cadê o Acácio?
-- Sei lá. Não vim com ele para o baile.
-- Mas o cabra falou que vinha.
-- E eu com isso...
-- É que ele me deve trezentos contos.
-- Se ele te deve, corre atrás. Não vem querer me cobrar.
Perácio, apesar do nome parecido, não era nada de Acácio. Parente? Nunca. Talvez só a mesma patente extinto Tiro de Guerra os unisse na Terra. Mas que se foda o serviço militar obrigatório. “Obrigação é coisa de cuzão”, sentenciou um qualquer.
-- Ainda vou passar esse peste no facão.
-- Por mim, esteja na sua vontade.
Livre de Perivaldo, Perácio vai até o balcão e pede uma gelada e um dedo da quente.
-- Essa pinga é do alambique da Gameleira. É da boa!
-- Então coloca com choro e fica na sua.
Calibrado, põe os olhos no meio do salão. A prenda mais rodopiante será o alvo certo. A luz, em meia vida, proposital para que mãos e lábios pudessem estar livres para se encontrarem e fugirem às regras em voga, não ajudava muito a ver rostos e coxas das dançarinas. Mas, num relance que os olhos dão, enxergou uma morena com seus cabelos negros e lisos. Deu pra ver que sua boca, carnuda, guardava dentes que brilhavam na penumbra. Seu corpo não era real. Certamente era criação de algum escultor do passado do mundo. E seu riso era como se o mundo fosse somente florir.
-- Camarada, essa pinga está batizada?
-- Claro que não. É da pura.
Então a sua visão não estava maluca. Ela existia. Era real, coisa e tal. E rodopiava no salão como fosse o centro do mundo. Translúcida ao negror geral, talvez fosse a síntese da poesia que diziam alguns loucos e aprendizes escreviam em livros ou guardanapos. Ele não sabia. Analfabeto de verso, Perácio era pé no chão nas rimas do alfabeto, mesmo com bota de couro para tanger o gado.
-- Manda outra dose pra eu tomar coragem...
Virou tudo de solapada só.
-- Vê mais uma!
De novo, a garganta junta álcool e fé de que é possível ter a morena em seus braços. No palco, o fole da sanfona rola solto. O cantor entoa rimas de amor. Era agora ou nunca. Certo de que sua empreitada daria êxito, caminha devagar pelo salão. "Vai acabar com beijo na nuca." Mas, a alguns passos da mulher desejada, ouve gritos de dor e realidade tresloucada. Sem que ele visse, Acácio tinha chegado no lugar de bolsos vazios e promessas vãs. Sem paciência mais para esperar, Perivaldo rasga seu peito com o facão. Desesperada, a moça corre para rua junto com a multidão. E some nas ruas de terra de alguns pedriscos.
-- Porra, Perivaldo, não tinha outra hora pra matar o Acácio?
A pergunta fica sem resposta. O autor do crime sai de cena antes que a polícia chegue ao lugar. Incrédulo que o seu amor sequer perpetrado foi no mundo desaparecer, o triste e descrente Perácio volta ao balcão e diz numa sentença formal: “Meu, deixa a garrafa inteira aí. Pro inferno o sonho de ser feliz”. No meio do terreiro, o chão de barro está retinto de vermelho. O sangue de Acácio é apenas o prenúncio de que o tempo segue seu rumo sem se importar com o amor distraído e inexato. No cenário, uma lua rasgada de branco que brilha só se faz acalanto para tão pouco tanto. 

(A descobrir um disco “velho” de 1976 de Gilberto Gil)

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