sexta-feira, 13 de março de 2026

Na maré do luar

Por Ronaldo Faria


-- E aí, Seu Ângelo, como vai a Dona Elisinha?
-- Indo, indo. Encruada na rede ou na cama. Não consegue nem mais levantar. Só carregada agora. Mas, como jurei diante do padre, na alegria e na doença eu tenho que estar.
-- Tem razão. Palavra dada ao nosso Deus tem que ser cumprida.
-- Certamente, mesmo que a dor de um lado seja comprida.
-- É, mas a vida é assim: complicada.
-- Feito estrada de mão única nunca duplicada.
Um rápido aperto de mão e os amigos que há muito dobraram cabos de boas esperanças e anos se despedem. Belarmino, conhecido como Belisário Menino, desce a rua em direção ao curtume. Ângelo segue o rumo da sua vida sempre no prumo, depois da casa de costumes onde uma mais nova, com o corpo à prova, dá um tchau ao avô imaginário. Ele dá outro até logo de longe, desses que a gente retribui por educação ou encanto às damas de branco.
-- Quem dera o passado ressurgisse feito quebranto. Ou que pudéssemos reviver a vida feito o pássaro que vai e volta ao velho ninho onde foi chocado, longe das árvores e do prado.
Na rua um poste pisca com a lâmpada fraca que implora por queimar. Os olhos e ouvidos de Ângelo, porém, estão distantes até do Angelus que as beatas cantam em oráculos sagrados. Sua cabeça viaja trôpega e frágil pelo sacrário do sagrado. Recai no pecado final de saber que o doce tem seu gosto de amargo. E tudo volta nas lembranças anchas e transversas que os versos trovaram em cartas amareladas. No céu, trovoadas gritam que a chuva logo vai chegar. No fim da vila, relâmpago troncho e brilhante traceja a escuridão. À espera da felicidade extinta, Ângelo abre a porta do lar e sorri por ter enganado o temporal. Do quarto, Dona Elisinha, num instante de lucidez, diz baixinho que o amor é fruto de muita dor. Uma lágrima escorre no rosto do homem. Pingos e mais pingos e outros tantos vindos do céu deixam no barulho das telhas a sinfonia derradeira do lugar...
 
(Com Almir Sater)

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