quarta-feira, 11 de março de 2026

A violar o texto

 Por Ronaldo Faria


O candeeiro ilumina a sina que vira sintonia largada e no pasto o gado rumina à revelia. Uma coruja pia solitária enquanto na pia da casa a louça se entoca. Na rede, dorme Joca. Filho de Jussara e Noca Florêncio, rapa do tacho de uma trupe de dez paridos. No alto dos seus 50 anos, com estradas mil nos cascos do cavalo alazão, boiada tocada nas noitadas entre uma cruz ao lado e a casa avermelhada na luz para a cabeça num colo deitar, ele agora ressona a sonhar com Sônia, sua amada e fruto de insônia para tentar conquistar. Só ela, com suas tranças negras a cobrirem o decote que esconde os seios que brilham no luar, pode florir na seca que desbanca a vida no lugar.
-- Queria te ver agora, numa praça, ouvindo as cigarras. Nada além de ver e te sentir ao meu lado.
-- É sério, Sônia? De verdade da verdadeira?
-- Esta hora é quando me dá vontade de uma paz compartilhada. Se for sozinha, me dá agonia.
-- Não seja por isso, vou tirar a algibeira e o casaco de couro e estarei contigo do lado do coreto para te abraçar, juntar nossas bocas e mãos.
-- Vem logo, senão tudo vira solidão injusta.
Com os olhos marejados de saudade e vastidão de amor desgarrado como bezerro sem mãe a mugir do outro lado da cerca, em sonho Joca e Sônia rumam à praça da matriz. Passam pela ponte assombrada que separa duas fazendas centenárias, caminham entre ruas estreitas que respiram santos em festas de alegria, olham as nuvens brancas que pincelam o céu desperto pra tudo ver. Enfim, entre o calor dos corpos e o frio da noite sentam no banco de madeira que tantas juras e despedidas já viram.
-- Sabe que eu agora não queria mais nada da vida?
-- Não? Então empatamos.
-- Será que nosso amor estava mesmo nos escritos de Nostradamus?
-- Sei lá. Nem sei quem é ele. Mas, se você diz, então nesse tratado nós travamos.
Eles riem das besteiras que apenas amantes sem eiras ou beiras podem dizer e descobrem nos afagos dados e emendados os tragos e troças que queimam nos corpos como fogo na roça. No alto-falante que traz o som da Matriz para o povo ouvir, o padre Ananias chama suas ovelhas, pecadores ou quem mais quiser para rezar ao Deus no altar. Dispersos do mundo, a habitarem sua solidão agora justa e real, Joca e Sônia dão de ouvidos ao chamado como se viola distante um tocasse fado. Afinal, nesse momento, o paraíso não teria, além do banco de praça, outro lugar para ser.
 
(Com Almir Sater)

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