Por Ronaldo Faria
O candeeiro ilumina a sina que
vira sintonia largada e no pasto o gado rumina à revelia. Uma coruja pia
solitária enquanto na pia da casa a louça se entoca. Na rede, dorme Joca. Filho de Jussara e Noca
Florêncio, rapa do tacho de uma trupe de dez paridos. No alto dos seus 50 anos,
com estradas mil nos cascos do cavalo alazão, boiada tocada nas noitadas entre
uma cruz ao lado e a casa avermelhada na luz para a cabeça num colo deitar, ele
agora ressona a sonhar com Sônia, sua amada e fruto de insônia para tentar
conquistar. Só ela, com suas tranças negras a cobrirem o decote que esconde os
seios que brilham no luar, pode florir na seca que desbanca a vida no lugar.
-- Queria te ver agora, numa
praça, ouvindo as cigarras. Nada além de ver e te
sentir ao meu lado.
-- É sério, Sônia? De verdade
da verdadeira?
-- Esta hora é quando me dá
vontade de uma paz compartilhada. Se for
sozinha, me dá agonia.
-- Não seja por isso, vou
tirar a algibeira e o casaco de couro e estarei contigo do lado do coreto para
te abraçar, juntar nossas bocas e mãos.
-- Vem logo, senão tudo vira solidão
injusta.
Com os olhos marejados de
saudade e vastidão de amor desgarrado como bezerro sem mãe a mugir do outro lado
da cerca, em sonho Joca e Sônia rumam à praça da matriz. Passam pela ponte assombrada
que separa duas fazendas centenárias, caminham entre ruas estreitas que
respiram santos em festas de alegria, olham as nuvens brancas que pincelam o
céu desperto pra tudo ver. Enfim, entre o calor dos corpos e o frio da noite sentam
no banco de madeira que tantas juras e despedidas já viram.
-- Sabe que eu agora não
queria mais nada da vida?
-- Não? Então empatamos.
-- Será que nosso amor estava mesmo nos
escritos de Nostradamus?
-- Sei lá. Nem sei quem é ele.
Mas, se você diz, então nesse tratado nós travamos.
Eles riem das besteiras que apenas
amantes sem eiras ou beiras podem dizer e descobrem nos afagos dados e
emendados os tragos e troças que queimam nos corpos como fogo na roça. No
alto-falante que traz o som da Matriz para o povo ouvir, o padre Ananias chama
suas ovelhas, pecadores ou quem mais quiser para rezar ao Deus no altar. Dispersos
do mundo, a habitarem sua solidão agora justa e real, Joca e Sônia dão de
ouvidos ao chamado como se viola distante um tocasse fado. Afinal, nesse momento, o paraíso
não teria, além do banco de praça, outro lugar para ser.
(Com Almir Sater)
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