Por Ronaldo Faria
Cogumelos azuis. Ajuizados e
tresloucados, tragados em ávidos traslados e voláteis sonhos perpetrados à
revelia do que a vida traz e nos deixa viver. E ser. No revés da nostalgia que cria a
tardia orgia de relembrar lembranças anchas ou fúteis, úteis em louvor, a
certeza de que nada é perpétuo e nem tudo é finito. Nesse tempo rápido e
maluco, tanto faz ser branco, preto, amarelo ou mameluco. Aqui, sabe-se há
muito, tudo é resolvido no verbo ou no trabuco. E como gatos, somos todos pardos.
-- Meu, a vida é isso? Um
carrossel que vai do fundo do poço ao céu em poucas horas?
-- O pior que é. As dores
continuam, mas podem ser aguentadas e requentadas, malfadadas que sejam. No
ensejo de tudo, a tríade casualidade, destino crível ou mero percevejo. Percevejo, prevejo, esse azedo que deixa a gente a se coçar...
-- Quer dizer que até uma mera
trepada pode dar nódulo e dor como ensejo?
-- Fazer o quê. A vida vira um
inferno depois de sermos bebês.
-- E qual é a saída?
-- Sei lá! Na falta de sapiência
que nem sapo na lagoa à toa, sejamos cavalos de Tróia no entorno que mistura
bosta e joia de milhares de dólares. No fim, as artroses do tempo viram nozes
de Natal. É só saber quebrar e comer. De avental.
No papo orgástico e quase
gástrico para a ressaca do dia seguinte, como pedinte de um real na porta do
shopping decadente com resposta pronta entredentes, estridentes, Monsueto e Ronaldo rodopiam em
pios de sílabas e frases, paráfrases trôpegas em azuis limiares de que ainda há trilha a trilhar. No esfalfar de fadas madrinhas, águas marinhas, fátuas
farinhas, os amigos unos e indivisíveis vão transbordando de leviatãs e tantãs
no insone momento. Certamente logo mais, no mais atroz desenrolar, algo irá
rolar de tanto decantado e tão cansado tempo a chamar.
-- Vamos parar de parir? Puta
que pariu...
-- Sei lá ou, pra ficar
bonito, saber-se-á...
-- Caralho, a tal da vértebra
reverberou legal pra nos deixar tanto tempo sem pensar e delirar, escrever.
-- É. A dor com ardor nos
deixa malversados e fora do eixo que há muito já não tem centro definido ou
acertado.
-- Ou seja, a vida maluca e
pirada não sabe a mania que deve ou tem de seguir.
-- Com certeza. Mas, pra saber: o que é a
certeza?
-- Sei lá. Talvez o
importante seja apenas sobreviver pelado sem as penas que a vida nos coloca
sobre um dorso que não aguenta sequer mera e angustiante dor ou louvor.
Lá fora, no aforismo
translúcido, alguém diz apenas: “se a vida é um eterno e terno aprendizado,
aprendamos rápido, como sádicos, mesmo que tenhamos de sofrer”.
(Com cogumelo azul, duende de São Thomé das Letras e Ventania)

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