quinta-feira, 30 de abril de 2026

Cogumelo azul

 Por Ronaldo Faria


Cogumelos azuis. Ajuizados e tresloucados, tragados em ávidos traslados e voláteis sonhos perpetrados à revelia do que a vida traz e nos deixa viver. E ser. No revés da nostalgia que cria a tardia orgia de relembrar lembranças anchas ou fúteis, úteis em louvor, a certeza de que nada é perpétuo e nem tudo é finito. Nesse tempo rápido e maluco, tanto faz ser branco, preto, amarelo ou mameluco. Aqui, sabe-se há muito, tudo é resolvido no verbo ou no trabuco. E como gatos, somos todos pardos.
-- Meu, a vida é isso? Um carrossel que vai do fundo do poço ao céu em poucas horas?
-- O pior que é. As dores continuam, mas podem ser aguentadas e requentadas, malfadadas que sejam. No ensejo de tudo, a tríade casualidade, destino crível ou mero percevejo. Percevejo, prevejo, esse azedo que deixa a gente a se coçar...
-- Quer dizer que até uma mera trepada pode dar nódulo e dor como ensejo?
-- Fazer o quê. A vida vira um inferno depois de sermos bebês.
-- E qual é a saída?
-- Sei lá! Na falta de sapiência que nem sapo na lagoa à toa, sejamos cavalos de Tróia no entorno que mistura bosta e joia de milhares de dólares. No fim, as artroses do tempo viram nozes de Natal. É só saber quebrar e comer. De avental.
No papo orgástico e quase gástrico para a ressaca do dia seguinte, como pedinte de um real na porta do shopping decadente com resposta pronta entredentes, estridentes, Monsueto e Ronaldo rodopiam em pios de sílabas e frases, paráfrases trôpegas em azuis limiares de que ainda há trilha a trilhar. No esfalfar de fadas madrinhas, águas marinhas, fátuas farinhas, os amigos unos e indivisíveis vão transbordando de leviatãs e tantãs no insone momento. Certamente logo mais, no mais atroz desenrolar, algo irá rolar de tanto decantado e tão cansado tempo a chamar.
-- Vamos parar de parir? Puta que pariu...
-- Sei lá ou, pra ficar bonito, saber-se-á...
-- Caralho, a tal da vértebra reverberou legal pra nos deixar tanto tempo sem pensar e delirar, escrever.
-- É. A dor com ardor nos deixa malversados e fora do eixo que há muito já não tem centro definido ou acertado.
-- Ou seja, a vida maluca e pirada não sabe a mania que deve ou tem de seguir.
-- Com certeza. Mas, pra saber: o que é a certeza?
-- Sei lá. Talvez o importante seja apenas sobreviver pelado sem as penas que a vida nos coloca sobre um dorso que não aguenta sequer mera e angustiante dor ou louvor.
Lá fora, no aforismo translúcido, alguém diz apenas: “se a vida é um eterno e terno aprendizado, aprendamos rápido, como sádicos, mesmo que tenhamos de sofrer”.
 
(Com cogumelo azul, duende de São Thomé das Letras e Ventania)

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