Por Edmilson Siqueira
Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lançada em dois LPs, o que originou seu nome: "The Sergio Mendes And Brasil '66 Foursider". Em 1988 a coletânea virou um CD, onde couberam as 21 músicas do LP original. O disco acabou virando uma espécie de clássico da bossa nova, do samba-jazz e do pop. E são músicas apenas da primeira fase de um dos mais internacionais artistas brasileiros.
O trabalho reuniu os maiores sucessos gravados entre 1966 e 1971, período em que o grupo conquistou os mercados americano, europeu e japonês, tornando-se um dos maiores embaixadores da música brasileira no exterior.
Mas "Foursider" não é apenas uma coletânea de sucessos. Ele funciona como um retrato de uma época em que a bossa nova, o samba e a música pop internacional encontraram um ponto de equilíbrio raro. Sob a direção musical de Sérgio Mendes, o Brasil ’66 desenvolveu uma sonoridade única: harmonias sofisticadas inspiradas no jazz, ritmos brasileiros e interpretações de canções populares do repertório norte-americano e britânico.
Logo de cara, no disco, um dos maiores sucesso do grupo: O “Mais Que Nada”, composição de Jorge Benjor que se tornou uma espécie de assinatura do grupo. A gravação, marcada pelo piano de Mendes, pela percussão vibrante e pelos vocais femininos de Lani Hall e Janis Hansen, apresentou ao público internacional uma visão moderna e irresistível da música brasileira.
Ao longo de suas 21 faixas, "Foursider" evidencia uma das características mais marcantes do Brasil ’66: a habilidade de transformar canções já conhecidas em algo completamente novo. É o caso de “The Look of Love”, de Burt Bacharach e Hal David, que ganha delicadeza e sensualidade tropical; de “Norwegian Wood”, de John Lennon e Paul MacCartney, recriada com balanço brasileiro; e de “With a Little Help from My Friends”, que vira um rock ensolarado.
Os Beatles forneceram fato material para Sergio Mendes exercer suas qualidades musicais brasileiras: “The Fool on the Hill” foi uma das gravações mais bem-sucedidas do grupo. A interpretação tornou-se um grande sucesso internacional e ajudou a consolidar a reputação de Sérgio Mendes como um dos mais criativos intérpretes do repertório dos Beatles. Foi com essa versão que o grupo chegou ao primeiro lugar das paradas americanas.
Mas o repertório é composto, em sua maioria, por música brasileira, como seria de se esperar. “Bim Bom” de João Gilberto e “Wave”, de Antônio Carlos Jobim, revelam a influência permanente da bossa nova. Já “País Tropical” (Jorge Ben Jor), “Ye-Me-Le”, de João Carlos Vinhas e Carlos Feitosa, e “Laia Ladaia” (Reza) de Edu Lobo e Rui Guerra, destacam o diálogo entre a tradição brasileira e os arranjos modernos produzidos por Mendes e sua equipe.
Entre as faixas menos conhecidas do grande público, “Crystal Illusions (Memórias de Marta Saré)”, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, com versão para o inglês de J. Hal, merece atenção especial. Com quase oito minutos de duração, ela apresenta uma faceta mais experimental do grupo, aproximando-se do jazz e dos arranjos orquestrais sofisticados que caracterizaram parte da produção do final dos anos 1960. A inclusão dessa gravação mostra que "Foursider" não foi concebido apenas como uma coletânea comercial, mas também como uma retrospectiva artística abrangente.
O sucesso do Brasil ’66 naqueles anos deveu-se em grande parte à capacidade de Sérgio Mendes de atuar como uma ponte cultural. Enquanto muitos artistas brasileiros encontravam dificuldades para alcançar o mercado internacional, Mendes compreendeu como adaptar elementos da música brasileira ao gosto do público estrangeiro sem sacrificar sua identidade. O resultado foi uma série de discos que venderam milhões de cópias e transformaram o grupo em presença constante nas rádios e programas de televisão dos Estados Unidos.
Ouvido hoje, Foursider continua impressionando pela elegância. Os arranjos permanecem frescos, os vocais conservam seu charme e a produção evita os excessos que envelheceram tantas gravações da época. O disco oferece uma experiência agradável tanto para quem já conhece a obra de Sérgio Mendes quanto para novos ouvintes interessados em descobrir como a música brasileira conquistou o mundo.
Segue a relação das faixas de Foursider com seus respectivos compositores.
1 - Mais Que Nada (Jorge Ben Jor)
2 - One Note Samba / Spanish Flea (Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça / Julius Wechter)
3 - Bim Bom (João Gilberto)
4 - Look Around (Burt Bacharach e Hal David)
5 - Sittin' on The Dock of the Bay (Otis Redding e Steve Cropper)
6 - Watch What Happens (Michel Legrand e Norman Gimbel)
7 - With a Little Help From My Friends (John Lennon e Paul McCartney)
8 - The Look of Love (Burt Bacharach e Hal David)
9 - Norwegian Wood (ohn Lennon e Paul McCartney)
10 - Wave (Antônio Carlos Jobim)
11 - After Midnight (J. J. Cale)
12 - Chelsea Morning (Joni Mitchell)
13 - The Fool on the Hill (John Lennon e Paul McCartney)
14 - For What It's Worth (Stephen Stills)
15 - Day Tripper (John Lennon e Paul McCartney)
16 - Crystal Illusions (Memórias de Marta Saré) (Oscar Castro-Neves e Paulo César Valle)
17 - País Tropical (Jorge Ben Jor)
18 - Ye-Me-Lê (Sebastião Neto e Oscar Castro-Neves)
19 - Laia Ladaia (Reza) (Edu Lobo e Ruy Guerra)
20 - Promise of a Fisherman (Promessa de Pescador) (Dorival Caymmi)
21 - After Sunrise (Oscar Castro-Neves e Paulo César Valle)
O CD está à venda nos bons sites do ramo (o LP também, mas é muito mais caro) e nesse link dá pra ouvir quase todas as músicas do disco mais algumas que dele não constam: https://www.youtube.com/watch?v=nkPDVC5PrkU&list=PLv_myO6wMNA3IBtfcansJ81ZTDP6jD9YQ

