quarta-feira, 17 de junho de 2026

Na melodia do Luiz

 Por Ronaldo Faria


Silêncio grita nos ouvidos que sopram ao vento da noite sem sol. E tudo parece prece dita feito reza num altar difícil de saltar. No ar em volta, vozes de casais se volatilizam ao som quieto e surdo, presto. De resto, o que tiver de restar. Na casualidade da saudade, a separação. Tudo como talvez um se fosse antes ou chegasse depois. Mordaça carcomida pela traça que a comia. Uma despedida escura na esquina da desmedida realidade. Só um beijo rápido, um olhar distante do semblante, um fim a se derrear.
José, largado entre mesas e potes de cerejas e caixas de cerveja, cercado de ninfas e suas brotoejas, é somente mera sombra da madrugada de lua nova sem luar. Sem lábios para beijar e olhos para focar, mãos para tocar e corpo para se entocar nas noites frias e sós, é agora a diáspora de si mesmo. Na sala cercada de móveis coloniais e cores de breu, sabe que o próximo destino é desatino e caminho sem tino. Apenas cenas passadas e cansadas de colorir as telas rasgadas do cinema do acaso em descaso.
Ao longe, na memória esquecida e tardia do dia findo, um menino solta a pipa a picotar outras que voam só por voar. E há mulheres com suas saias a saracotear no footing de orgias e sangrias nos corações dos rapazes que fazem as pazes com o amor. Como fundo de pano para o teatro e retreta, um fole joga e lança notas no ar. A cercar a história e preparar seu fim sem pesar, o pensar de José entorpece de a tudo brindar. E a cada gota que cai das bocas a marcar o crime da fantasia final, se embriaga de solidão.
 

(Com Pedro Luís a cantar Luiz Melodia)

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