sexta-feira, 19 de junho de 2026

Diário de bordo a bombordo na borda a bordejar

 Por Ronaldo Faria


-- Você acredita em milagres?
-- Como?
-- Isso que eu perguntei: você acredita em milagres?
-- Sei lá. Tipo o Vasco vai ganhar de novo um campeonato nem que seja de cuspe à distância? Um parente inexistente vai bater as botas e te deixar alguns vários muitos milhões? A menina desejada do pedaço vai cruzar com você na esquina e se jogar nos seus braços? Se for isso, não creio.
-- Mas, cacete, você deseja coisas difíceis pra caralho... Pense em algo mais próximo.
-- Mais próximo é ir à banca do Marião e cravar uma perna que vai dar avestruz na cabeça e no milhar.
-- Aí também é foda.
-- Então não enche o meu saco com esse papo furado e pede outra gelada.
Sem muito a dizer, Valério chama outra pra mesa e fica a viajar na sua maionese. “Cacete, como explicar num dia estar certo de que não há como fugir da faca, ficar prostrado numa cama a tecer mil pesadelos e no outro dia, a redenção. Nada de dor, nada de tristeza ou senão.”
-- Mas e a Carmélia, tem visto ela?
-- Nunca mais. Acho que ela mudou do bairro ou decidiu não sair mais de casa.
-- Será que virou freira?
-- A Carmélia, nunca!
-- Então que fim ela levou?
-- Vai se saber. Creio em milagres, mas daí a ser adivinho há uma grande distância.
-- Seria incrível vê-la passar aqui, diante da birosca. Disso eu sei.
-- Seria. Como seria, ver nossa sereia do asfalto e poder ficar em sobressalto.
-- Mas como não tem a Carmélia, viu a Fernanda? Ela mudou o cabelo, pintou, colocou silicone. Fez uma sobrancelha de gaivota. Preencheu os lábios. É outra.
-- Do jeito que você descreveu, só pode ser mesmo.
-- Enfim, a caravana passa e a fila anda sempre com novidades.
-- E o circo descobre que pode brilhar sem picadeiro...
No entorno, feito um diário de bordo a bombordo na borda a bordejar, os amigos vão jogando conversa fora, como fosse o balde salvador que impede que a embarcação do tempo afunde. Um pássaro canta na árvore próxima a dar boa noite à vida. A telenovela revela que o vilão é o canastrão da trama, o ônibus despenca um turbilhão de pessoas a ressonarem. O sol, na quietude que lhe é peculiar, se esconde ao longe no monte. A fábrica de fogos de artifício soa o apito. A enxergarem o tudo desse todo, os dois pedem uníssonos a saideira. 
A realidade, com seus milagres e máculas, brinca de cuidar de cada um. Despedem-se, se despem das tristezas e seguem para o lar que for. Logo abaixo, na entrada do morro, Carmélia chega numa limusine prateada para compor o cenário com a lua que enche o céu. Ao seu lado, o barão das quentinhas lhe dá um anel de diamantes mil e pede de joelhos sua mão em casamento. Enfim, dá-se fim ao mistério e tormentos. A sereia do asfalto irá entoar seu canto noutro canto, a beira-mar.
 
(A ouvir, creiam, James Taylor)

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