domingo, 21 de junho de 2026

Um coletânea feita há 54 anos

 Por Edmilson Siqueira



Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lançada em dois LPs, o que originou seu nome: "The Sergio Mendes And Brasil '66 Foursider". Em 1988 a coletânea virou um CD, onde couberam as 21 músicas do LP original. O disco acabou virando uma espécie de clássico da bossa nova, do samba-jazz e do pop. E são músicas apenas da primeira fase de um dos mais internacionais artistas brasileiros. 
O trabalho reuniu os maiores sucessos gravados entre 1966 e 1971, período em que o grupo conquistou os mercados americano, europeu e japonês, tornando-se um dos maiores embaixadores da música brasileira no exterior.  
Mas "Foursider" não é apenas uma coletânea de sucessos. Ele funciona como um retrato de uma época em que a bossa nova, o samba e a música pop internacional encontraram um ponto de equilíbrio raro. Sob a direção musical de Sérgio Mendes, o Brasil ’66 desenvolveu uma sonoridade única: harmonias sofisticadas inspiradas no jazz, ritmos brasileiros e interpretações de canções populares do repertório norte-americano e britânico. 
Logo de cara, no disco, um dos maiores sucesso do grupo: O “Mais Que Nada”, composição de Jorge Benjor que se tornou uma espécie de assinatura do grupo. A gravação, marcada pelo piano de Mendes, pela percussão vibrante e pelos vocais femininos de Lani Hall e Janis Hansen, apresentou ao público internacional uma visão moderna e irresistível da música brasileira.  
Ao longo de suas 21 faixas, "Foursider" evidencia uma das características mais marcantes do Brasil ’66: a habilidade de transformar canções já conhecidas em algo completamente novo. É o caso de “The Look of Love”, de Burt Bacharach e Hal David, que ganha delicadeza e sensualidade tropical; de “Norwegian Wood”, de John Lennon e Paul MacCartney, recriada com balanço brasileiro; e de “With a Little Help from My Friends”, que vira um rock ensolarado.  
Os Beatles forneceram fato material para Sergio Mendes exercer suas qualidades musicais brasileiras: “The Fool on the Hill” foi uma das gravações mais bem-sucedidas do grupo. A interpretação tornou-se um grande sucesso internacional e ajudou a consolidar a reputação de Sérgio Mendes como um dos mais criativos intérpretes do repertório dos Beatles. Foi com essa versão que o grupo chegou ao primeiro lugar das paradas americanas.  
Mas o repertório é composto, em sua maioria, por música brasileira, como seria de se esperar.  “Bim Bom” de João Gilberto e “Wave”, de Antônio Carlos Jobim, revelam a influência permanente da bossa nova. Já “País Tropical” (Jorge Ben Jor),  “Ye-Me-Le”, de João Carlos Vinhas e Carlos Feitosa, e “Laia Ladaia” (Reza) de Edu Lobo e Rui Guerra, destacam o diálogo entre a tradição brasileira e os arranjos modernos produzidos por Mendes e sua equipe. 


Entre as faixas menos conhecidas do grande público, “Crystal Illusions (Memórias de Marta Saré)”, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, com versão para o inglês de J. Hal, merece atenção especial. Com quase oito minutos de duração, ela apresenta uma faceta mais experimental do grupo, aproximando-se do jazz e dos arranjos orquestrais sofisticados que caracterizaram parte da produção do final dos anos 1960. A inclusão dessa gravação mostra que "Foursider" não foi concebido apenas como uma coletânea comercial, mas também como uma retrospectiva artística abrangente. 
O sucesso do Brasil ’66 naqueles anos deveu-se em grande parte à capacidade de Sérgio Mendes de atuar como uma ponte cultural. Enquanto muitos artistas brasileiros encontravam dificuldades para alcançar o mercado internacional, Mendes compreendeu como adaptar elementos da música brasileira ao gosto do público estrangeiro sem sacrificar sua identidade. O resultado foi uma série de discos que venderam milhões de cópias e transformaram o grupo em presença constante nas rádios e programas de televisão dos Estados Unidos. 
Ouvido hoje, Foursider continua impressionando pela elegância. Os arranjos permanecem frescos, os vocais conservam seu charme e a produção evita os excessos que envelheceram tantas gravações da época. O disco oferece uma experiência agradável tanto para quem já conhece a obra de Sérgio Mendes quanto para novos ouvintes interessados em descobrir como a música brasileira conquistou o mundo. 

Segue a relação das faixas de Foursider com seus respectivos compositores. 
1 - Mais Que Nada (Jorge Ben Jor) 
2 - One Note Samba / Spanish Flea (Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça / Julius Wechter) 
3 - Bim Bom (João Gilberto) 
4 - Look Around (Burt Bacharach e Hal David) 
5 - Sittin' on The Dock of the Bay (Otis Redding e Steve Cropper) 
6 - Watch What Happens (Michel Legrand e Norman Gimbel) 
7 - With a Little Help From My Friends (John Lennon e Paul McCartney) 
8 - The Look of Love (Burt Bacharach e Hal David) 
9 -  Norwegian Wood (ohn Lennon e Paul McCartney) 
10 - Wave (Antônio Carlos Jobim) 
11 - After Midnight (J. J. Cale) 
12 - Chelsea Morning (Joni Mitchell) 
13 - The Fool on the Hill (John Lennon e Paul McCartney) 
14 - For What It's Worth (Stephen Stills) 
15 - Day Tripper (John Lennon e Paul McCartney) 
16 - Crystal Illusions (Memórias de Marta Saré) (Oscar Castro-Neves e Paulo César Valle) 
17 - País Tropical (Jorge Ben Jor) 
18 - Ye-Me-Lê (Sebastião Neto e Oscar Castro-Neves) 
19 - Laia Ladaia (Reza) (Edu Lobo e Ruy Guerra) 
20 - Promise of a Fisherman (Promessa de Pescador) (Dorival Caymmi) 
21 - After Sunrise (Oscar Castro-Neves e Paulo César Valle)  

O CD está à venda nos bons sites do ramo (o LP também, mas é muito mais caro) e nesse link dá pra ouvir quase todas as músicas do disco mais algumas que dele não constam: https://www.youtube.com/watch?v=nkPDVC5PrkU&list=PLv_myO6wMNA3IBtfcansJ81ZTDP6jD9YQ 

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