quarta-feira, 31 de julho de 2024

A ouvir Caetano

 Por Ronaldo Faria


-- Foi isso que você previu anos pra caralho atrás?
-- Certamente não. Num apartamento de Ipanema, quase na Globo pra criar documentários,  eu previa outra realidade. Mas, essa foi a verdade que sobrou...
Cândido, famélico ser do passado, conversava com Afrânio, que não era nem de melô ou franco. A mesa do bar juntava saudade e realidade. E a Zona Sul no seu azul iluminado agora pela lua que não sabe se é cheia ou meia que vê tudo. Tanto faz. No fim, tudo vai ser o que tiver de ser. A mesa de bar tinha cheiro de maresia, futura azia e cheiro de outra maresia, dessa que sobe, segura e dá barato geral. Pertinho, tinha ondas com espumas claras e volatilidade. Talvez saudade. Sangue a fluir na melhor idade.
Cândido, guerreiro desde o momento que surgiu e ungiu de destino o istmo entre a lucidez e a loucura, passou a batalhar com suas dicotomias e essências cadentes e urgentes, seus medos e desvelos, bastardas politomias e sabe-se lá o quê. E se escondeu em retalhos, atalhos, cadafalsos falsos, sofismas mil. Para ele, cadáver vivo nas férias dos vivos, qualquer bobagem já é manchete de parar as máquinas. E ouvir as decrépitas rotativas ativas a colocarem letras pretinhas e fotos coloridas no papel branco, aos seus trancos.
-- Foi isso que você previu anos pra caralho atrás?
-- Sei lá. Foi o que me foi dado, por surpresas e buscas, momentos de bruscas verdades e certos azares. Afinal, não é isso que é a realidade?  Utopias, sangrias, orgias, perfídias, fábulas e fulgurantes dias, cinzentos, cheios de unguentos e passos diários e lamacentos.

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