sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Pela estrada

Por Ronaldo Faria


A estrada de poeira estava, pra variar, poeirenta. A tropa de bois passava compassada para se ver depois compadecida no matadouro, mesmo sem saber que a caminhada era para a morte. O sol inclemente e solar, cheio de calor e luz, batia na cabeça de Clemente. Boiadeiro e estradeiro desde que rolou na placenta da mãe, com algibeira e roupa de couro, tinha na profissão o sustento de Filomena e das nove crias paridas e criadas. Da corrida na estrada tortuosa, sem corredeiras de riachos ou copos com água, tirava cada centavo e seus parcos avos que a venda lhe cobrava por saco de farinha ou pedaço de carne que secou ao sol por dias.
Mas Clemente não era triste. Tinha o sorriso estampado nos dentes que lhe sobravam. Na pele morena (esturricada para quem não conhece a cor do sertanejo), cabelos desgrenhados pelas corridas do cavalo na caatinga, olhos marejados pelo pó que subia, era guardião dos tempos de outrora e da aurora da vida. No lavradio corria fosse noite ou fosse dia. Nas intempéries da vida percorria o destino como acauã a cantar seus lamentos surdos no sonhar da incerteza morta detrás da porta. Ao desatino da saudade, praguejo e veleidade. Afinal, quando a boiada estivesse entregue ao seu destino final, os braços de Filomena seriam o último fonema dito e fatal.
-- Clemente, vamos parar na casa das primas para dar uma pausa nesse sofrimento?
-- Pode ir, Tazinho. Vou armar uma rede entre essas duas galhadas e ver a saudade destrinchar.
No mundo que se arvora imenso, escuro e incerto, de presto a luzir feito o céu escuro do sertão, Clemente tinha na memória o cheiro de querosene a queimar entre telhas de barro e alpendres onde se foge do sol durante a rotação do dia em leilão. Via cada filho, macho ou fêmea, a correr aos seus braços em abraços de cumplicidade, sentia o prato de favas cozidas a descer garganta e lembranças, retornava à infância perdida. Queimava o chão cansado de brotar, buscava formigas de asas, tanajuras, para espetar em gravetos secos, via a paz nunca derrear. E sabia que se mais tivesse vivido, mais teria existido.
Na casa onde um lampião coberto de celofane vermelho brilhava, Tazinho tonteava de corpo em corpo. E roçava nas pernas, se entregava aos seios solícitos, beijava bocas ávidas e brincava de ser amado nem que fosse naquela só noite. A cada um, a unicidade de ímpias vontades e veleidades. Tudo no transbordar de efêmeras blasfêmias que dizemos ao vento e nos arrependemos logo depois. Enfim, como todo fim que nos é dado de fato, Clemente vê-se de novo entregue à Filomena. Junção de todo fonema que ama, percorre os últimos quilômetros que o separam do seu amor. Ao chegar, enxerga a amada vestida de chita florida, um tanto encardida pelo tempo, mas reluzente à visão do trôpego e sôfrego boiadeiro que acabara de chegar. Num pé de mandacaru, a se livrar dos espinhos, um carcará espera apenas o burrego fraco morrer. Já o homem desfalece em amor o tempo que vive.
 
(Com Xangai e Renato Teixeira)

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