Por Ronaldo Faria
Na esquina recôndita que se
expõe na periferia, a sina segue a rima onde a lei e a ordem não são o excesso de
progresso. Regresso talvez de um egresso que espera a vida retomar. Longe do
mar, a catar borbulhas que alguma onda de ressaca traz, Kauã pula de galho em
galho feito o otário que atravessa a rua e pede ao xamã da hora que continue sua
vida. Na barriga a derradeira lombriga, briga para não sair do corpo. Na junção
de duas ruas, um despacho tenta tirar a tristeza de alguém do capacho e escracho
em que se encontra. Com tanta brisa esverdeada que vem dispersar no ar, milhares
de ondas se esparramam no Centro feito de concreto e asfalto. Outro maluco também
acende o cachimbo e a cabeça vai a mil por hora. No relógio do celular o tempo
quer apenas parar. O lugar? Aquele que tiver de ser...
-- E aí, mano brother? Tudo em
cima?
-- Na tranquilidade.
-- O que vai hoje?
-- Aquilo que tiver de ser.
A lua cheia recheia o céu de
luz prateada e largada no universo que pode virar mil versos de um poeta embriagado.
No boteco próximo, o desajustado se junta na firmeza e unta a boca de cerveja
gelada. “Mas só pra molhar a garganta direito, Galvão me manda uma vodka pura
sem gelo” – sentencia logo depois. O restante das cabeças às mesas, no vagar, está
na espera de um boi qualquer. No ato juramentado e atado nos rios que correm
embaixo da terra, cobertos de lixo e sofás e tevês de tubo, além dos dejetos
que descem dos esgotos sem tratar, mãos se cruzam nas encruzilhadas que o destino
dá. Certamente, o apelido de algum será Vavá.
No viaduto que faz correrem carros
e motos num tresloucado e desvairado sublimar de quilômetros em horas e
diásporas, embaixo dele, famílias se misturam a papelões no chão e
cobertores rasgados. Nos rasgos e regalos daqueles que deixam trocados de
esmolas, a frase em voga se esfalfa (“sou do bem”) e se esfola para dizer que brocados
surgem entre a grama que cresce nas rachaduras dos pilares.
Na academia perto, uma mulher loura faz yoga. A vibe está em voga.
-- E aí, vai outra?
-- Manda agora uma Maria
Louca!
-- Seu desejo é uma ordem,
irmão...
Perto, uma sirene ressoa entre
a tragédia e a página do jornal eletrônico que faz o sangue brincar de
escorrer. “Bons tempos em que a gente achava que era ruim tomar biotônico ou
óleo de fígado de bacalhau”, sussurra o dono da birosca. Nas quebradas, um baile
funk rola e junta manos e minas. Tríades bizantinas que do pé chegaram e ao pó
irão, canudos de dólares conjuminam nalgum bairro bacana qualquer. Na
entrada do metrô, numa linha de cor a se ver, o casal tenta transformar o novo
se conhecer em juntar que pode acabar em rebento ou formicida na comida. Só o
tempo e os contratempos dirão qual será a ação. Na praça da catedral, o animal de
quatro patas lambe a boca de outro de duas arriadas junto com as calças. Na
parada do ônibus sempre cheio e atrasado no trajeto, a mãe solteira pare mais
um feto. “Que Deus dê a esse menino um fim digno quando crescer” – diz o crente
a abençoar a cena com sua bíblia desbotada. No derredor, a megalópole une proles mil
iguais que gostariam de ter sido ungidas pelo Criador e vivem a orar provérbios
e salmos na dor.
“Senhoras e senhores,
acreditem que os odores do rio que segue nas marginais acabarão no meu próximo
mandato, que dedicarei a vocês e somente a vocês”, urra o candidato em sua honestidade
marqueteira na telinha de fazer doido em seu horário gratuito e eleitoral. Na
lateral da retina, com muita creatina, olhar do irmão vira para a irmã no
desejo de dois olhos encontrar. No buraco de ozônio que dorme no escurecer que
só acabará quando o sol decidir retornar, a brincadeira de sonhar, acordar na
lucidez e pisar os pés em La Paz ou Bogotá.
-- A ideia está dada. Agora é
seguir o rumo.
-- No prumo, sempre no prumo.
-- Com certeza, afinal a vida
é louca!
-- E não esqueça: o bagulho é
doido!
-- Pode crer, pode crer...
-- Vida longa aos loucos e
malucos da rima.
(A todos MCs desse mundão e sua história de triunfo)


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