quarta-feira, 26 de julho de 2023

Ao rediscover do Gil


 

Amadeu, de quem o amor a Deus esqueceu, vai entre as vielas a violar nos ouvidos o som de violão que dedilha numa trilha qualquer que o morro dá. Assimétrico na métrica que a linha utópica e reta dá para não cair, cambaleia e volta, volteia e se enlameia a cada queda. Mas, logo lá em cima, ensimesmado, chegará na birosca do Zé, o português que, com o lápis ágil, marcava duas cervejas para cada pedida com direito também a uma pinga.

Amadeu, a quem a vida nunca se ateu, cantarola um samba desconexo onde o versículo acalanta a falta de verso. E segue tomate e mamão. Sobremaneira, da maneira que um bebê sem dentes suga a mamadeira, olha para o céu de bruços, no chão. Se levanta, lava-se na poça que sobra na pocilga de um barraco em obras, e transpõe a pequena ponte que se equilibra sobre um riacho que corre coberto de lixo, lombrigas e dejetos em amplexos.

Amadeu, senhor que sabe onde ficam a felicidade e a dor, diz a si mesmo, a esmo, que é melhor estar vivo já morto do que morrer e deixar de viver. “E o amigo que nem sequer quer mais estar junto contigo? É amigo mesmo ou só mais um buraco de umbigo?” Cheio de dúvidas, endividado no morro quase todo, vai pé pra frente depois de meio pé para trás a ver que a lua se escondeu numa nuvem para dormir depois da Terra ter que girar.

Mas Amadeu é isso: um homem a mais. Um derradeiro ser disforme, desses que vira estatística em cada informe de tevê. Que é apenas um número a mais, sequer um úmero a segurar braço qualquer. Falta-lhe um abraço, um maço de cigarros, um amasso na mesa de bar. É somente quem mente a si para crer que vale a pena viver. Amanhã, decerto, terá uma ressaca que nem a maior das ondas do mar traz. Mas, sabe, valeu poder sonhar.

Amadeu, ser andarilho à espera que um trem o atropele, mesmo sabendo que no morro não há trilhos, chega enfim ao fim de sua trilha. Mexe nos bolsos vazios na busca da chave que tranca a porta sem tranca e lembra que é só empurrar a madeira para ver se no seu interior ainda há alguma anca. Deitada na cama, Esmeraldina à luz da lua se descortina no zinco rompido do teto, tem as tetas expostas como postas a se comer. Por fim, vem o fim.

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