sexta-feira, 15 de março de 2024

Baiano novo e velho

 Por Ronaldo Faria

 


Mística imodéstia, dessa que parece não querer holofotes ou xotes nunca dançados, faça-se história e retórica. Estoico a escrever nova palavra que vocabulário nenhum aceita, retórico na verborragia e na magia de não saber de onde vem a inspiração, faço-me astro e pusilânime coadjuvante. Na mira daquele que enxerga além do mirante, o ausente e perpétuo, delirante e claudicante escriba que nada sabe. Aos sábios que se esfalfam de pronomes e nomes, antônimos e sinônimos, regras mil de saber escrever, minhas loas eternas. Afinal, sei que algum colou por aqui para procrastinar a grande mentira que há décadas estamos a contar.
 
II
 
Severino, que não é nordestino qualquer, segue na subida da rua a brincar de alguém ser. Ri e branqueia a lua com seus dentes de dentadura de porcelana. Pagou a última parcela no mês que já se foi. E agora, na brisa quieta e branda que corre as esquinas, sobe a ladeira para parar no seu único lugar: um barraco simulacro de vida e largar. Logo, irá se largar no sofá que não há. Irá dormir, talvez, a sonhar com a tez da amada, mesmo sem saber se ela existe. Talvez, num momento inerte no seu mundo e inexistente na mente, far-se-á pródigo e biltre. Frágil em suas dúvidas e forte nas suas andanças nunca feitas. A driblar desapegos e criar chamegos (mesmo longínquos), Severino sobe no seu caminhão cheio de paus e araras e rima felicidade com saudade. A espantar mosquitos proscritos à vela que queima, vai a marchar feito fosse um marechal. E brinca de bola jogada num pasto ressecado, transita claudicante nas trilhas findas, passeia como quem anseia a última ceia. Ele sabe que a morte se aproxima e, ensimesmado, naufragado e prostrado na varanda que não existe, apenas anseia um seio para dormir neste dia.
 
III
 
De repente a ausente bate a porta para perguntar se há incenso para cheirar. Nessa hora se pensa: porque não pode se viver em outro lugar? Afinal, como o som repete, “besta é tu”.

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