quarta-feira, 13 de março de 2024

Caetenado e antenado

 Por Ronaldo Faria

 


Voltar ao passado, já tão antepassado que parece ter sido assado na fogueira, mistura de crença de vida e esmero, é revirar lençóis e tropéis de bar em bar à busca da insalubre beira-mar. Dessas que se anda na molhada chuva e vagueia num tempo imemorial, sem correr, enxergar e parar.
Voltar ao passado, carcomido de lembranças atávicas e mágicas, dessas que levam a gente a lugar nenhum, na batida de um atabaque circunscrito a um quadrado místico. De pratos comidos entre paixões e prantos. Nos imemoriais e tradicionais pontos hoje mortos e notívagos do suar.
Voltar ao passado, intrínseco e seco rio que levou o avô para depois da vida que há, é correr na areia fina e infinda, branca e branda feito ultimato de um mundo sequer. O cheiro do cavalo a suar e o sonoro silenciar de um vento que traz a troça queimada para a lembrança intrínseca e sem nenhum luar.
Voltar ao passado, travestido de pensares mil, mulheres livres e entregues às trevas que amanhecem o amor, junta a imensidão da poesia e a heresia da solidão. Intrínseca seca que é uma tempestade de letras e frases. Vozes diáfanas que sopram o verso final. Sentença oral e quase marginal.
Voltar ao passado, revisitar o teatro da vida que morre no próprio tablado. Ser ator, autor e diretor da pantomima que se desenrolará décadas após. Cortar cenas, reescrever finais, cobrar ingressos a cada peça nunca estreada, responder às críticas insuspeitas com a frase do palco vazio: “Merda!”
Voltar ao passado, brincar de solitário cavaleiro num cavalo branco que o derrubará logo depois. E cheiro de bosta de boi, lenha queimada no fogão, milho debulhado, da flor que não há na roça esturricada. Mistérios que nós e a própria vida desconhecem no emaranhado que é a nostalgia.

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