quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Seis e nada mais

 Por Ronaldo Faria


Foram seis anos de amor e entrega. Sem guerras e tréguas. Entre a calçada da praia e a areia do mar. Não chegaram na tal crise dos sete anos. A separação fez-se antes. Como tragédia de Dante ou desertor de qualquer quartel de Abrantes. Agora, pouco importava saber o que aconteceu. Se houve morte de miliciano, traficante ou civil. A bala perdida do fuzil algum corpo torto encontrou. Estamos no Brasil.
Mas os seis anos estavam lá. Carinhos, olhares, esperas e ternura ínfima. Tempos de ladeiras e carnavais sem folia. Talvez um lampejo de alegria. Na finitude que só sua chegada dá, o tempo não disse antes para a solidão que ela ia aportar e ficar. Como brinquedo de folguedo de bloco de frevo, deixou para o último beijo a certeza da fria nostalgia. E assim se foi, coração na alternância da lembrança e da dor.
-- Foi bom. Foi... Verbo no passado que o presente sabe que ficará até o fim, no futuro.
Nas teclas transversas do computador, com a inimaginável puta dor, Aparício parece um palhaço no picadeiro da vida que o circo mambembe do tempo coloca com ingressos todos os dias a nos vender. Mas continua seu trilhar de pular do trapézio e engolir facas sob as luzes do holofote caolha. Para ele, o que ainda vier é lucro, nas despesas da espera das chamas que vão juntar duas cinzas numa só criação.
Na inglória glória da viagem entre neurônios histriônicos e seus delírios mortais, tais e quais oferendas de rendas a Iemanjá, Aparício transita na fina flor da lâmina da faca que corta segundos de agora e depois. No apocalipse da dramaturgia empírica do primarismo vocal, o branco e o preto, o vermelho e o cinza são apenas cores transgênicas e loucas. Em seis anos, o céu de sol e luar é semente de juntar...

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