terça-feira, 1 de abril de 2025

Morar em Babilônia

 Por Ronaldo Faria

 


Aurora está deitada no alpendre a tentar aprender a sina de viver. Em meio a descobrir que a cachaça derruba o bêbado e o ébrio de fim de semana, não se culpa de submergir à própria loucura. No alforje que sempre leva na busca de um cavalo branco e manco onde seguirá nua pelas areias brancas da última praia que conseguirá enxergar, o mistério do tédio em perfídia a tramar. Suas feridas, nunca cicatrizadas, são, pasmem, a certeza de que há nós atados nas estradas onde almas cansadas descansam sem saber.
Aurora, plenipotenciária senhora, jovem demais à eternidade e idosa dadivosa ao momento pleno, sabe que o agora é muito pouco. O homem que a segue, rouco, estupefato pelo fato de somente a conhecer, não passa de um louco a quem deixaram sair do hospício sem a camisa de força. Por ele Aurora tem pena. E nessa piedade segue a procissão que o padre Narciso, seguidor de Padim Ciço, clama por alívio da dor. Nela, uma ou outra beata chora lágrimas que podem fazer a semente brotar no chão esturricado e pisado do sertão.
O amanhã será, decerto e quase certo, incerto e presto, pronto, um novo incesto. No verso do sanfoneiro cego que toca debaixo do umbuzeiro, o casal acasalado e agarrado prepara o gozo que se fará vida nova para o lugarejo colocar na estatística do IBGE outro nascituro a menos. No rádio de galena surge o narrador a vibrar com o gol do Flamengo. Para Aurora, melhor fosse que no meio do rio seco surgisse a galera lusitana para navegar além da janela ou da gamela onde descansam as tripas do carneiro esquartejado.
-- Aurora, posso entrar?
-- Claro. Só não sei se terá cama para recostar.
-- Não tem problema. Não sei dizer nada mais que um fonema. Qualquer coisa, apelamos para telegrama ou telefonema... quiçá uma dança. Na eletrola, a folia vai rolar.

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