quarta-feira, 30 de julho de 2025

Dia útil

Por Ronaldo Faria


Abrir a tampinha da garrafa que está suada a se derramar no gelo que escorre no mármore cor de pranto e espanto. Em época de degelo solar, com urso nadando em beira-mar e mamute a pisar a terra chispada de lava quente, o importante é rabiscar de letras pretas o branco a explodir quase invisível no risível enlouquecer que traz no sustenido um milho guardado em formol.
Despejar o líquido insípido e amarelo no ralo que há entre a garganta e a tântrica certeza do cérebro a se embriagar. Brincar de ser e rever os raros momentos em que os tormentos lavam de sabão em pó o pó que move a amplidão da criação. Nas mazelas que correm feito gazelas, as procelas que se escondem nas pradarias cercadas de padarias para a larica fugaz, o cismo de voltar.
Entregar os tragos dados aos orixás, libertar nas têmporas que o tempo sintetiza em segundos próximos e últimos, fugir na prisão que a liberdade da loucura procrastina, mas dá. Sequenciar sequelas e sequências, ausências, proficiências, ciências ocultas e cultas que o tempo faz prenunciar. Nas etéreas lambidas das feridas, nos unguentos que regem a sanidade profanar, se recriar.
Dançar entre pernas, paixões e derradeiras brincadeiras. Suar nas camas sorrateiras que se dão sobremaneira. Feito asneira, rodar por aí sem eira e nem beira. Brincar de papai e mamãe antes desses terem filhos e deixarem de se amar. Catar conchas e esconde-las entre as coxas para o pescador não dar falta delas. Pecador, rezar mil terços e a cada continha do crucifixo jurar que vai mudar.
Fazer lençóis como anzóis que pescam os pecadores que se entregam à luxúria que a vida dá. Falar pelos cotovelos, silenciar nos novelos que o amor faz enrolar. Esfolar a pele nos pedidos sofridos que a amada ou o amado dão para fugir da solidão. Ser talvez ou senão. Em verbos rompidos, versos retorcidos, bisonhos gritos entoados em pleno torpor, saber que a loucura é a maior razão.

(Ainda sob o som das Chicas)

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