Por Edmilson Siqueira
Se você gosta de Chico Buarque e de Tom Jobim, mas acha que os dois não são grandes cantores, há uma solução para ouvir suas músicas com um grande intérprete, um dos maiores que a nossa MPB já teve: Wilson Simonal.
O disco foi lançado em 1970, quando Simonal ainda gozava de prestígio. Como se sabe, seu envolvimento com agentes do Dops e com um empregado seu que, supostamente, estava desviando dinheiro, acabou provocando a ira da patrulha ideológica da época que levou o cantor ao ostracismo, já que a classe artística em sua maioria - ou pelo menos a maioria com a qual Simonal se relacionava - acusou-o de informante da repressão (o que ele não era) e foi totalmente boicotado, praticamente encerrando sua carreira.
Em "Wilson Simonal Canta Tom & Chico" há uma clara ideia do que era esse cantor que foi do auge - considerado o melhor do Brasil à época - ao fracasso por decisões erradas e pelo clima político vigente numa dos mais duros períodos da ditadura militar. Sua inocência como "informante" foi comprovada, mas o estrago já estava feito. A bebida, onde ele se refugiou, lhe provocou uma cirrose hepática que iria encerrar também sua vida e, 2000, aos 62 anos.
Na Wikipédia ha um relato sobre o processo que inocentou Simonal: "Em 2002, a pedido da família, a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) abriu um processo para apurar a veracidade das suspeitas de colaboração do cantor com os órgãos de informação do regime militar. A comissão analisou documentos da época, manteve contato com pessoas do meio artístico, como o comediante Chico Anysio e os cantores Ronnie Von e Jair Rodrigues, e analisou reportagens publicadas nos jornais. Em notícia veiculada em 1992 pelo Jornal da Tarde, por exemplo, Gilberto Gil e Caetano Veloso, oficialmente perseguidos pelo regime militar, declararam não ter tido problemas de convivência com Simonal, sendo que Veloso ainda elogiou as qualidades de Simonal como artista.
Além de depoimentos de artistas e de material enviado por familiares e amigos, constou do processo um documento de janeiro de 1991, assinado pelo então secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, no qual atestava que, após pesquisa realizada nos arquivos de órgãos federais, como o SNI e o CIEx, não foram encontrados registros de que Simonal tivesse sido colaborador, servidor ou prestador de serviços daquelas organizações.
Em 2003, concluído o processo, Wilson Simonal foi moralmente reabilitado pela Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em julgamento simbólico."
Voltando ao disco, "Wilson Simonal Canta Tom & Chico" hoje ocupa um lugar especial na discografia de Wilson Simonal. Em vez de apostar na diversidade de compositores que caracterizava muitos de seus trabalhos anteriores, Simonal dedicou um disco inteiro à obra de dois dos maiores autores da música popular brasileira.
O disco foi lançado em 1970, quando Simonal ainda gozava de prestígio. Como se sabe, seu envolvimento com agentes do Dops e com um empregado seu que, supostamente, estava desviando dinheiro, acabou provocando a ira da patrulha ideológica da época que levou o cantor ao ostracismo, já que a classe artística em sua maioria - ou pelo menos a maioria com a qual Simonal se relacionava - acusou-o de informante da repressão (o que ele não era) e foi totalmente boicotado, praticamente encerrando sua carreira.
Em "Wilson Simonal Canta Tom & Chico" há uma clara ideia do que era esse cantor que foi do auge - considerado o melhor do Brasil à época - ao fracasso por decisões erradas e pelo clima político vigente numa dos mais duros períodos da ditadura militar. Sua inocência como "informante" foi comprovada, mas o estrago já estava feito. A bebida, onde ele se refugiou, lhe provocou uma cirrose hepática que iria encerrar também sua vida e, 2000, aos 62 anos.
Na Wikipédia ha um relato sobre o processo que inocentou Simonal: "Em 2002, a pedido da família, a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) abriu um processo para apurar a veracidade das suspeitas de colaboração do cantor com os órgãos de informação do regime militar. A comissão analisou documentos da época, manteve contato com pessoas do meio artístico, como o comediante Chico Anysio e os cantores Ronnie Von e Jair Rodrigues, e analisou reportagens publicadas nos jornais. Em notícia veiculada em 1992 pelo Jornal da Tarde, por exemplo, Gilberto Gil e Caetano Veloso, oficialmente perseguidos pelo regime militar, declararam não ter tido problemas de convivência com Simonal, sendo que Veloso ainda elogiou as qualidades de Simonal como artista.
Além de depoimentos de artistas e de material enviado por familiares e amigos, constou do processo um documento de janeiro de 1991, assinado pelo então secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, no qual atestava que, após pesquisa realizada nos arquivos de órgãos federais, como o SNI e o CIEx, não foram encontrados registros de que Simonal tivesse sido colaborador, servidor ou prestador de serviços daquelas organizações.
Em 2003, concluído o processo, Wilson Simonal foi moralmente reabilitado pela Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em julgamento simbólico."
Voltando ao disco, "Wilson Simonal Canta Tom & Chico" hoje ocupa um lugar especial na discografia de Wilson Simonal. Em vez de apostar na diversidade de compositores que caracterizava muitos de seus trabalhos anteriores, Simonal dedicou um disco inteiro à obra de dois dos maiores autores da música popular brasileira.
Para um o público que estava acostumado às euforias musicais muito bem interpretadas de Simonal, o disco com músicas de Tom e Chico pode parecer diferente. Mas Simonal aproveitou muito bem a suavidade e os acordes mais complicados da música de Jobim para exibir seus dotes vocais e o balanço dos sambas de Chico para mostrar que o swing que sempre lhe foi tão peculiar ainda estava ali, intacto.
Há que se dizer que as músicas de Tom ganham uma energia diferente na voz de Simonal. O cantor preserva a sofisticação harmônica das composições, mas acrescenta um calor que não vemos em intepretações mais fiéis ao espírito da bossa nova. O resultado é uma abordagem menos contemplativa e mais comunicativa, aproximando o repertório de um público amplo sem sacrificar sua qualidade artística.
Nas canções de Chico Buarque, Simonal encontra terreno fértil para explorar seu talento narrativo e rítmico.
Os arranjos desempenham papel fundamental no álbum combinando elementos da bossa nova, do samba e da moderna música popular da época. O resultado sonoro chega a ser sofisticado,
A interpretação de Simonal também ajuda a compreender por que ele foi um dos maiores comunicadores da música nacional. Seu canto possuía uma característica rara: conseguia ser tecnicamente impecável e popular ao mesmo tempo. Ele transitava com naturalidade entre o samba, a bossa nova, a música romântica e os repertórios mais sofisticados, sempre mantendo uma identidade própria.
Com o passar dos anos, Wilson Simonal Canta Tom & Chico tornou-se uma obra valorizada por colecionadores e estudiosos da música brasileira.
O fato é que mais de meio século após seu lançamento, o disco permanece como um testemunho da riqueza dessa nossa MPB, pois une a força da interpretação de um cantor único com a qualidade da composição. Para quem deseja conhecer um Simonal mais sofisticado e intimista, sem abrir mão do carisma que o tornou famoso, "Wilson Simonal Canta Tom & Chico" continua sendo uma audição indispensável.
São 12 as faixas do disco:
- Inútil Paisagem (Tom Jobim e Aluyzio de Oliveira)
- Só Saudade (Tom Jobim e Newton Mendonça)
-Tem Mais Samba (Chico Buarque)
- Ana Luiz (Tom Jobim)
- Fotografia (Tom Jobim)
- Cordão (Chico Buarque)
- Se Todos Fossem Iguais a Você (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
- Discussão (Tom Jobim e Newton Mendonça)
- Sonho de um Carnaval (Chico Buarque)
- Só tinha de Ser com Você (Tom Jobim e Aluyzio de Oliveira)
- Lígia (Tom Jobim)
- A Banda (Chico Buarque)
O CD está à venda nos bons sites do ramo. Não o encontrei inteiro no YouTube, mas 8 das 12 músicas podem ser ouvidas em https://www.youtube.com/watch?v=yRRPgz0inBs&list=OLAK5uy_m_17aClvnAkov5Jc-6E1nkYHzUwVNnCT8 . Curiosamente, no Spotify, o disco também está com as mesmas 8 faixas aos invés das 12.
Há que se dizer que as músicas de Tom ganham uma energia diferente na voz de Simonal. O cantor preserva a sofisticação harmônica das composições, mas acrescenta um calor que não vemos em intepretações mais fiéis ao espírito da bossa nova. O resultado é uma abordagem menos contemplativa e mais comunicativa, aproximando o repertório de um público amplo sem sacrificar sua qualidade artística.
Nas canções de Chico Buarque, Simonal encontra terreno fértil para explorar seu talento narrativo e rítmico.
Os arranjos desempenham papel fundamental no álbum combinando elementos da bossa nova, do samba e da moderna música popular da época. O resultado sonoro chega a ser sofisticado,
A interpretação de Simonal também ajuda a compreender por que ele foi um dos maiores comunicadores da música nacional. Seu canto possuía uma característica rara: conseguia ser tecnicamente impecável e popular ao mesmo tempo. Ele transitava com naturalidade entre o samba, a bossa nova, a música romântica e os repertórios mais sofisticados, sempre mantendo uma identidade própria.
Com o passar dos anos, Wilson Simonal Canta Tom & Chico tornou-se uma obra valorizada por colecionadores e estudiosos da música brasileira.
O fato é que mais de meio século após seu lançamento, o disco permanece como um testemunho da riqueza dessa nossa MPB, pois une a força da interpretação de um cantor único com a qualidade da composição. Para quem deseja conhecer um Simonal mais sofisticado e intimista, sem abrir mão do carisma que o tornou famoso, "Wilson Simonal Canta Tom & Chico" continua sendo uma audição indispensável.
São 12 as faixas do disco:
- Inútil Paisagem (Tom Jobim e Aluyzio de Oliveira)
- Só Saudade (Tom Jobim e Newton Mendonça)
-Tem Mais Samba (Chico Buarque)
- Ana Luiz (Tom Jobim)
- Fotografia (Tom Jobim)
- Cordão (Chico Buarque)
- Se Todos Fossem Iguais a Você (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
- Discussão (Tom Jobim e Newton Mendonça)
- Sonho de um Carnaval (Chico Buarque)
- Só tinha de Ser com Você (Tom Jobim e Aluyzio de Oliveira)
- Lígia (Tom Jobim)
- A Banda (Chico Buarque)
O CD está à venda nos bons sites do ramo. Não o encontrei inteiro no YouTube, mas 8 das 12 músicas podem ser ouvidas em https://www.youtube.com/watch?v=yRRPgz0inBs&list=OLAK5uy_m_17aClvnAkov5Jc-6E1nkYHzUwVNnCT8 . Curiosamente, no Spotify, o disco também está com as mesmas 8 faixas aos invés das 12.

