Por Ronaldo Faria
O forró come solto no salão.
Januário e Maria rodam e rodopiam como se o tempo fosse parar. Lá fora, duas
corujas piam a querer se amar. Na sanfona, o poeta do fole faz a folia
florear o lugar. No zabumba, bandeado no salão, o batuque bate forte e dá o tom do aconchego.
Colados, calados, vez em quando entregues num beijo que assovia entre os lábios
e as línguas, os casais misturam saudade antecipada e desejo de ficar. Com o
lampião a queimar o cheiro que serpenteia descarado a voar, é hora de relembrar
que a vida é uma e tem que tentar brotar.
-- Januário, lembra que amanhã é dia de trabalho?
-- Eita porra, e eu quero me lembrar disso?
Com carinho e abraço apertado, mãos presas na cintura de Maria, o vaqueiro parecia menino traquinas que vira arteiro para correr do gado e caçar tanajura pra enfiar graveto na bunda num revoar que inexistirá em liberdade.
-- Deixa comigo, morena. O momento pleno é curto. Logo, não se aperreie. Vamos bambolear e deixar que o amanhã se faça naquilo que for, se for. No amor ou na dor.
Na estrada que sai de algum tempo para noutro chegar, a procissão corre em passos céleres pra fugir da chuva que se arma a cair no horizonte logo depois da ponte. Nos poços que sobraram entre a areia branca e a rara grama, um peixe que sobreviveu à seca do sertão ri pelas guelras de felicidade plena. O carcará filhote, ainda sem penas para voar, olha com desejo o burrego que chora de vontade de se juntar à mãe. A lua, dessas que sombreia os galhos desnudos de folhas no chão esturricado, não sabe se vai ou se vem. Pra muitos, daqui a nove meses vai ter neném.
-- Maria, vamos ali no cantinho dar uns amassos mansos?
-- Januário, sai pra lá! Anel no dedo que é bom você não quer botar...
-- Quem disse? Você quer ver?
Rápido como a raposa que cata galinha no poleiro e foge para a caatinga a matar a fome, Januário mete a mão no bolso e tira o anel reluzente que comprou do mascate na feira.
-- É teu! E é ouro de verdade. Pode morder pra comprovar!
Espantada com a surpresa, feliz como fosse parte da maior realeza, Maria apenas sorri e dá o dedo para não deixar que Januário se arrependa.
-- Põe logo!
E precisava pedir? Veloz como o fogo que queima a relva e o mato seco no pasto, Januário logo fez o desejo de Maria acontecer. Toda formosa, no vestido vermelho de chita, ela se entrega enfim às regalias de ser amada. E roda e gira, gira e roda, se faz a estrela perdida no céu a brilhar solitária no universo que nem cabe no verso. No palco de pau a pique, o zabumbeiro e o sanfoneiro dão canja ao moço do triângulo que arrebenta no ritmo. O mundo agora decide ver tudo de perto e transformar em verso os versículos da Bíblia que devem dizer que o amor é apenas pra se ter e viver.
-- Januário, lembra que amanhã é dia de trabalho?
-- Eita porra, e eu quero me lembrar disso?
Com carinho e abraço apertado, mãos presas na cintura de Maria, o vaqueiro parecia menino traquinas que vira arteiro para correr do gado e caçar tanajura pra enfiar graveto na bunda num revoar que inexistirá em liberdade.
-- Deixa comigo, morena. O momento pleno é curto. Logo, não se aperreie. Vamos bambolear e deixar que o amanhã se faça naquilo que for, se for. No amor ou na dor.
Na estrada que sai de algum tempo para noutro chegar, a procissão corre em passos céleres pra fugir da chuva que se arma a cair no horizonte logo depois da ponte. Nos poços que sobraram entre a areia branca e a rara grama, um peixe que sobreviveu à seca do sertão ri pelas guelras de felicidade plena. O carcará filhote, ainda sem penas para voar, olha com desejo o burrego que chora de vontade de se juntar à mãe. A lua, dessas que sombreia os galhos desnudos de folhas no chão esturricado, não sabe se vai ou se vem. Pra muitos, daqui a nove meses vai ter neném.
-- Maria, vamos ali no cantinho dar uns amassos mansos?
-- Januário, sai pra lá! Anel no dedo que é bom você não quer botar...
-- Quem disse? Você quer ver?
Rápido como a raposa que cata galinha no poleiro e foge para a caatinga a matar a fome, Januário mete a mão no bolso e tira o anel reluzente que comprou do mascate na feira.
-- É teu! E é ouro de verdade. Pode morder pra comprovar!
Espantada com a surpresa, feliz como fosse parte da maior realeza, Maria apenas sorri e dá o dedo para não deixar que Januário se arrependa.
-- Põe logo!
E precisava pedir? Veloz como o fogo que queima a relva e o mato seco no pasto, Januário logo fez o desejo de Maria acontecer. Toda formosa, no vestido vermelho de chita, ela se entrega enfim às regalias de ser amada. E roda e gira, gira e roda, se faz a estrela perdida no céu a brilhar solitária no universo que nem cabe no verso. No palco de pau a pique, o zabumbeiro e o sanfoneiro dão canja ao moço do triângulo que arrebenta no ritmo. O mundo agora decide ver tudo de perto e transformar em verso os versículos da Bíblia que devem dizer que o amor é apenas pra se ter e viver.
