sábado, 27 de junho de 2026

Ao som de Marcos Valle e Stacey Kent

 Por Ronaldo Faria




A noite, dessas que se assombra com a própria sombra, soçobra na cidade cheia de concretos e findos afetos. Um carro ou outro trafega sôfrego no posto de gasolina. No volante, o rapaz pensa na mina. Um bêbado entoa suas súplicas às súditas do trabalho de dar amor por trocados ou brocados. Quiçá, virão bons bocados de amor em borcados e oração, mesmo que sejam falsos.
Em transversos versos que se entregam aos delírios de copos e capciosos e ciosos tocares de corpos como fossem a música que se entrega aos ouvidos vívidos de querer amar, frágeis amantes, volúveis e informais, margeiam a crença de que antes da morte se tem um amor a encontrar. A devorar goles e têmporas, efêmeros temporais de orgias na sangria da paixão, uns tantos e tantos outros, outrora tristes e fugazes, se veem envolvidos nos desejos incontidos que choram ao olhar perdido.
A penumbra que se desfaz nos faróis enlouquecidos mostra sentenças mil a se esgueirarem pelas mãos que tocam seios carentes, bocas dormentes, refúgios que se esmeram em raras sementes. Ausentes, casais se envolvem na notívaga chegada da frágil madrugada. Misturam-se ensandecidos e calientes feito entes que não se enxergam nem em microscópios utópicos e dementes. Crentes de que existe algo além daqui, pedem um drinque de gim com pequi.
Aqui e ali, famigerados solilóquios se esgueiram nas esquinas sombrias que a soberba deixou de decifrar. E se esmeram em paixões que nem Vinicius de Moraes iria fazer um poema de mais  a poetizar. Se lambem, se entregam em perjúrios mil, sobremaneira falam de cânticos ecléticos e milimétricos. Éticos? Quem disse que há ética no amor que se deslumbra na penumbra? No bar próximo, um office boy toma o primeiro porre.
Numa rua próxima, a felicidade dá de braços com a saudade e brinca de cabra-cega e o que seja que tiver de brincar. Afinal, no final de qualquer amor há um apêndice que nunca irá se dissipar ou extirpar. Expurgar? Jamais. Nos finais de amores vãos, sensações mil, desvarios em cio, cânticos depurados dos corações dos amantes amados. Na fragilidade que só a idade provê para sofrer, a inequívoca realidade de ser. Talvez um ébrio a eternizar Maysa a cantar, com seus olhos verdes feito a mais linda cor que possa existir, o desejo de brotar feito a rosa que morre sem água a surgir como pedinte de emoções. No lugar onde há a separação da frágil junção do tocar e recriar, versos e canções se tornam e se entornam pelo chão. Ao redor, o amor tenta ser sensação.

Na esquina da penumbra

 Por Ronaldo Faria   A penumbra soa, sua e sai que nem rumba nos ouvidos dos amantes arfantes e terminais. José, na presunção de que não e...