sábado, 11 de julho de 2026

A vida é uma dança só. Logo, Wanderléa nela

Por Ronaldo Faria


Wanderléa, assim batizada pela mãe para homenagear a Ternurinha, terminou a faxina e gritou para a Dona Epifânia, dona do apartamento um por andar na Avenida Atlântica, mesmo que fosse decadente como qualquer coisa a sobreviver no mundo graças à semântica, que estava de saída. "Fui!" Sem resposta, pois a madame estava no seu banho de sais, bateu a porta, pegou o elevador e desceu.
-- Bom final de trabalho pro senhor, Seu Irineu.
Assim se despediu do porteiro que tinha quase a idade do edifício mas que, por ofício e necessidade, não deixou de trabalhar mesmo com aposentadoria feita. Caminhou três quadras e parou no ponto de ônibus para esperar algum que lhe levasse ao subúrbio. Evitou ver o celular porque os créditos estavam no fim e ali tinha pivete que levava aparelho de montão. Viu a fila aumentar e ficou feliz por estar num bom lugar. Não deu quinze minutos e o tal de busão chegou. Subiu, passou o cartão, sentou num banco com a janela a lhe olhar.
O motorista fecha a porta, passa a primeira marcha e avança na sua trajetória simplória. Do lado de fora, vitrines começam a se iluminar em cores e preços estampados. E tantas Wanderléas ou Odetes, Marias e Francineides caminhavam apressadas pelas ruas, subiam nos ônibus de sardinhas enlatadas e entaladas, sonhavam com sonhos retumbantes ou enfastiados. Na verdade, para quase todas, bastava chegar em casa. Ver o marido ou não buscar algo, rever os filhos a rir do episódio de um Chaves qualquer, dar boa noite à velha Emerenciana, benzedeira e ouvinte/fofoqueira do lugar.
-- Boa noite, meu povo. Cheguei!
Sem respostas práticas, Wanderléa vai até o banheiro. Liga o chuveiro no mínimo e deixa as águas rolarem. Faz o suor, o cansaço e o dia escorrerem pelo ralo. Se enxuga, fica no talo para dormir, mas vai à cozinha preparar a janta do seu povo. Termina no horário prático, vê-se quase num mundo perto do tal de Ártico e senta no sofá para assistir o novo capítulo da novela quando Fagundes ia pedir o perdão à Marisol. No resto da casa, todos ressonam sem estar do lado. O companheiro pegava no turno da madrugada na fábrica e os dois rebentos iam cedo para a escola do bairro. Ela mesma saltava com os galos e galinhas da cama, quando o dia ainda madrugava sem sequer escovar os dentes do sol que surgia. Mas, refeita e feita de fé, entregava sua vida a São Sebastião. Ele saberia lhe dar direção.
De volta ao ônibus, agora no sentido contrário, Wanderléa desce para o novo e velho batente onde sempre descia e segue até o prédio em que deixaria boa parte do seu tempo. Mas, ao tentar subir, Seu Irineu a chamou: “Sobe não. A Dona Epifânia teve um infarto de noite, na banheira, e morreu.” O corpo da ainda viva Wanderléa-serviçal quase cai por terra: “Como assim, fui demitida sem sequer saber?” O velho porteiro preferiu não responder. Apenas disse que ela voltasse dias depois para ver se os herdeiros teriam uma solução.
Nessa manhã, Wanderléa prefere não voltar logo para casa. Decide caminhar pela praia. Ver o sol, as pessoas que podem perder tempo no calçadão ou nas ondas que quebram sem parar. E ri. Ri de si, da situação maluca, do fato de não ter visto a Dona Epifânia pela última vez. E ri tanto que quem passava perto pensou que ela estava manguaçada logo pela manhã ou tinha ganho na loteria ou no bicho. Ela, porém, pouco ligava a seu redor. Aquele dia, acreditem ou não, era sua liberdade tardia que, por fim, chegara.
 
(Com Paulinho da Viola de som)

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