Por Ronaldo Faria
Wanderléa, assim batizada pela
mãe para homenagear a Ternurinha, terminou a faxina e gritou para a Dona
Epifânia, dona do apartamento um por andar na Avenida Atlântica, mesmo que fosse
decadente como qualquer coisa a sobreviver no mundo graças à semântica, que
estava de saída. "Fui!" Sem resposta, pois a madame estava no seu banho de sais, bateu
a porta, pegou o elevador e desceu.
-- Bom final de trabalho pro
senhor, Seu Irineu.
Assim se despediu do porteiro
que tinha quase a idade do edifício mas que, por ofício e necessidade, não
deixou de trabalhar mesmo com aposentadoria feita. Caminhou três quadras e parou
no ponto de ônibus para esperar algum que lhe levasse ao subúrbio. Evitou ver o
celular porque os créditos estavam no fim e ali tinha pivete que levava aparelho
de montão. Viu a fila aumentar e ficou feliz por estar num bom lugar. Não deu
quinze minutos e o tal de busão chegou. Subiu, passou o cartão, sentou num
banco com a janela a lhe olhar.
O motorista fecha a porta,
passa a primeira marcha e avança na sua trajetória simplória. Do lado de fora,
vitrines começam a se iluminar em cores e preços estampados. E tantas Wanderléas
ou Odetes, Marias e Francineides caminhavam apressadas pelas ruas, subiam nos
ônibus de sardinhas enlatadas e entaladas, sonhavam com sonhos retumbantes ou
enfastiados. Na verdade, para quase todas, bastava chegar em casa. Ver o marido
ou não buscar algo, rever os filhos a rir do episódio de um Chaves qualquer,
dar boa noite à velha Emerenciana, benzedeira e ouvinte/fofoqueira do lugar.
-- Boa noite, meu povo.
Cheguei!
Sem respostas práticas,
Wanderléa vai até o banheiro. Liga o chuveiro no mínimo e deixa as águas
rolarem. Faz o suor, o cansaço e o dia escorrerem pelo ralo. Se enxuga, fica no
talo para dormir, mas vai à cozinha preparar a janta do seu povo. Termina no horário
prático, vê-se quase num mundo perto do tal de Ártico e senta no sofá para
assistir o novo capítulo da novela quando Fagundes ia pedir o perdão à Marisol.
No resto da casa, todos ressonam sem estar do lado. O companheiro pegava no
turno da madrugada na fábrica e os dois rebentos iam cedo para a escola do bairro.
Ela mesma saltava com os galos e galinhas da cama, quando o dia ainda madrugava
sem sequer escovar os dentes do sol que surgia. Mas, refeita e feita de fé, entregava
sua vida a São Sebastião. Ele saberia lhe dar direção.
De volta ao ônibus, agora no
sentido contrário, Wanderléa desce para o novo e velho batente onde sempre descia e segue até o prédio em que deixaria boa parte do seu tempo. Mas, ao tentar subir, Seu
Irineu a chamou: “Sobe não. A Dona Epifânia teve um infarto de noite, na
banheira, e morreu.” O corpo da ainda viva Wanderléa-serviçal quase cai por terra: “Como
assim, fui demitida sem sequer saber?” O velho porteiro preferiu não responder.
Apenas disse que ela voltasse dias depois para ver se os herdeiros teriam uma solução.
Nessa manhã, Wanderléa prefere
não voltar logo para casa. Decide caminhar pela praia. Ver o sol, as pessoas
que podem perder tempo no calçadão ou nas ondas que quebram sem parar. E ri. Ri
de si, da situação maluca, do fato de não ter visto a Dona Epifânia pela última
vez. E ri tanto que quem passava perto pensou que ela estava manguaçada logo
pela manhã ou tinha ganho na loteria ou no bicho. Ela, porém, pouco ligava a seu redor.
Aquele dia, acreditem ou não, era sua liberdade tardia que, por fim, chegara.
(Com Paulinho da Viola de som)

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