Por Ronaldo Faria
O ventilador ventila um pedaço
de vento rasteiro e pleno que corre entre as ondas de calor no barraco que
descansa no alto do morro. Nele, Adamastor respira o ar quente que foge das pás
do aparelho. Mesmo as latinhas de cerveja pegas na geladeira parecem não querer
escapar da quentura. Sem ternura ao redor da fervura, a própria jaqueira geme de
dó com o sol que lhe queima os frutos futuros. Na rua, os gatos de energia
quase colam num só com a borracha dos fios derretendo. Um adendo: apesar dos
termômetros jogarem mercúrio para fora dos vidros, ainda há na cena quem não
creia no tal de aquecimento total, ou global.
-- Não dá pra ficar aqui. Acho que a chapa vai queimar além do tempo e vai apitar em morte ou dor.
Resolvido a escapar do calor, Adamastor decide correr para o asfalto, pegar o metrô e bater numa praia qualquer da Zona Sul. Ao menos no vagão já terá respiro melhor. Fecha a porta do barraco, desliga o ventilador, coloca o termostato da geladeira no máximo e sai a se esgueirar numa sombra ou outra que a rua em descida lhe dá. Na boca da estação do metrô, desce a escada em quase velocidade olímpica. Era como escapar das portas abertas do inferno. “A cidade até pode ser maravilhosa, mas está muito foda” – pensou.
No horário, a maioria dos vagões estava quase vazia. Sentou debaixo de um ar-condicionado quase como um confinado ou condenado a não querer levantar. Foi até a última estação, desceu e pegou o carro pra voltar. Afinal, ali já era algo monumental. Contudo, como tudo que é bom dura pouco na tradição popular, o metrô lotou na hora das pessoas largarem seus empregos de sobrevida. “Agora já deu. Esse povo vai foder com o friozinho” – sentenciou.
-- Não dá pra ficar aqui. Acho que a chapa vai queimar além do tempo e vai apitar em morte ou dor.
Resolvido a escapar do calor, Adamastor decide correr para o asfalto, pegar o metrô e bater numa praia qualquer da Zona Sul. Ao menos no vagão já terá respiro melhor. Fecha a porta do barraco, desliga o ventilador, coloca o termostato da geladeira no máximo e sai a se esgueirar numa sombra ou outra que a rua em descida lhe dá. Na boca da estação do metrô, desce a escada em quase velocidade olímpica. Era como escapar das portas abertas do inferno. “A cidade até pode ser maravilhosa, mas está muito foda” – pensou.
No horário, a maioria dos vagões estava quase vazia. Sentou debaixo de um ar-condicionado quase como um confinado ou condenado a não querer levantar. Foi até a última estação, desceu e pegou o carro pra voltar. Afinal, ali já era algo monumental. Contudo, como tudo que é bom dura pouco na tradição popular, o metrô lotou na hora das pessoas largarem seus empregos de sobrevida. “Agora já deu. Esse povo vai foder com o friozinho” – sentenciou.
Desceu na estação mais próxima da praia. A brisa do mar tomava
conta do lugar. As luzes devagar se acendiam no tal de frisson que algum bacana
um dia disse e ele guardou a palavra a quatro chaves para usar no dia certo. E
esse dia era agora. O vento que vinha do oceano era sobremaneira a melhor das
maneiras de se viver.
“A verdade é uma só: ser rico e morar por aqui é tudo de bom. Se eu um dia ganhar numa loteria, compro um apê da hora” – sonhou ao ver o Morro Dois Irmãos rebrilhar nas luzes que lhe tomam as moradias dependuradas.
Não entrou no mar porque estava de bermuda e tinha esquecido a roupa de banho. “Sabia que tinha dado falta de algo” – elucubrou. Mas sentou no banco perto de um quiosque, pediu a cerveja da promoção tome quatro e pague três. E lá ficou a olhar as ondas que batiam e rebatiam na areia que começava a esquecer que queimou a sola dos pés de desavisados sem sandália. Desanuviado das dores da vida, Adamastor sonhou que sua realidade podia ter sido diferente. Lembrou até de uma tal de meritocracia, fosse lá o que isso quisesse dizer ou ser.
“A verdade é uma só: ser rico e morar por aqui é tudo de bom. Se eu um dia ganhar numa loteria, compro um apê da hora” – sonhou ao ver o Morro Dois Irmãos rebrilhar nas luzes que lhe tomam as moradias dependuradas.
Não entrou no mar porque estava de bermuda e tinha esquecido a roupa de banho. “Sabia que tinha dado falta de algo” – elucubrou. Mas sentou no banco perto de um quiosque, pediu a cerveja da promoção tome quatro e pague três. E lá ficou a olhar as ondas que batiam e rebatiam na areia que começava a esquecer que queimou a sola dos pés de desavisados sem sandália. Desanuviado das dores da vida, Adamastor sonhou que sua realidade podia ter sido diferente. Lembrou até de uma tal de meritocracia, fosse lá o que isso quisesse dizer ou ser.
No asfalto ao lado, bicicletas de fibra de
carbono dividiam seu espaço com carros de luxo. Uma ou outra loura falsa, em falsete, desfilava
com seus pets tosados no estabelecimento canino da moda. Nos apartamentos um
por andar de frente para o mar, alguém certamente compartilhava seu uísque com
a amada depois de uma foda. Na orla, uma caixinha de som clandestina rolava
Paulinho da Viola. No seu universo em verso, Adamastor descobria então que pode se viver sem dor. No barraco, a geladeira, a todo vapor, pifa de vez.
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